Ausência de limites

Numa entrevista que vale bem a pena ler no Diário de Notícias de ontem, Joe Berardo diz às tantas: "Desde que Marcel Duchamp introduziu o urinol como uma obra de arte, em 1917, que não há limites para a imaginação". Não cito Joe Berardo lorpamente para o gozar: ele não tem nada de lorpa, e até sai simpático, porque inteiramente transparente, da entrevista. O gozo na utilização do poder (Sócrates) é patente, e, à sua maneira, saudável. Aproveito só a coisa, ingénua porque apreendida, do não haver mais limites para a imaginação. É que é bem verdade. Um dos meus maiores degostos nos quinze dias que passei nestas férias em Paris foi o museu do Quai de Branly, para onde Chirac fez mudar as colecções do Musée de l'Homme, que visitei, nos anos noventa do século passado, uma boa dezena de vezes, ou mais. O Musée de l'Homme era um museu maravilhoso de etnologia (não tão bom como o de Berlim, mas maravilhoso). O novo museu, cujo projecto é da autoria de Jean Nouvel, é um horror infantilizante caracterizado. Um centro comercial a meia-luz, em forma de gigantesco corredor galopante, onde todas as peças se tornam invisíveis. De partir o coração. Eu e a minha amiga saimos sete minutos depois. Desgraça por desgraça, é preferível a desgraça do Museu de Etnologia de Belém, que tem todas as peças escondidas por falta de espaço e funcionários. (Se houver algum dinheiro no próximo governo, valia a pena investi-lo aí.) Isto, apesar de tudo, percebe-se: a pobreza é sempre uma razão suficiente. O resto - o Quai de Branly - não. Não há, de facto, "limites para a imaginação".
publicado por Paulo Tunhas às 18:51 | comentar | partilhar