A Liberalização do PS e as "Clarificações Ideológicas"

João Cardoso Rosas quer converter o PS num partido liberal. Eu até gosto da ideia, mas duvido que a grande maioria dos socialistas me acompanhe. O apelo de João Cardoso Rosas talvez fosse mais bem acolhido no partido que está ao lado, no PSD. Pensando melhor, o seu apelo é duplo: que o PS se torne num partido liberal (apelo explícito) e o PSD num partido conservador (apelo implícito). É que, num sistema dominado por dois partidos, a "clarificação ideológica" de um partido tem menos custos se o rival também estiver disposto a "clarificar" o que representa. Trata-se de um desejo salutar, mas não para o triste Portugal de 2007. Talvez para mais tarde.

Não deixa de ser curiosa a insistência, à esquerda e à direita, na necessidade de "clarificação ideológica" dos dois maiores partidos portugueses. Também seria preciso ponderar se a salvífica "clarificação ideológica" serviria esses dois partidos tão bem quanto a balbúrdia verbal que os tem caracterizado nos últimos 20 anos.
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Desde que Mário Soares seguiu o seu camarada Mitterrand no guardar o pobre socialismo na gaveta, e Cavaco Silva meteu na cabeça a ideia de "aproximar Portugal da Europa", que PS e PSD se foram governando (e a nós, cidadãos da República) sem grande paciência para a "clarificação ideológica". O chamado guterrismo ameaçou o País com "ideias novas" e já ninguém consegue recordar-se do episódio sem soltar uma gargalhada. O parêntesis Barroso/Santana não foi mais do que isso. E nunca se desenvolvem grandes teses entre parêntesis.
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A exortação à "clarificação ideológica" do PS e do PSD pode representar um impulso mais simples e fundamental. Muitos eleitores portugueses que não desistem de votar sempre que para isso são chamados estão cansados de não ter partidos em que votar com convicção. Ao fim de uns quantos exercícios, a frustação invade compreensivelmente as desgraçadas criaturas. Talvez os partidos atendam a essa frustação. Talvez. Ou talvez a frustação se transforme numa forma mais ou menos empenhada de retaliação. Talvez.
publicado por Miguel Morgado às 23:59 | partilhar