Bella história


Por todo o lado se vê e discute o filme "Bella", do realizador estreante mexicano Alejandro Monteverde, verdadeira pedrada no charco do gosto dominante do actual cinema ocidental. Em Portugal a discussão tem sido pouca e o filme (ainda) não chegou. Possíveis razões? Podem enumerar-se várias, mas há uma que é quase certa: o filme é politicamente incorrecto e francamente incómodo. Não tem violência nem sexo, não “arma” em intelectual, não usa efeitos especiais, não se baseia no pressuposto de que a vida é uma treta e o melhor a fazer é gozar o mais que se possa, não propõe o bem-estar como o deus dos felizes, nem sequer usa as emoções fortes ou o sentimentalismo peganhento para colar o espectador ao ecrã. Uma “pastilha”, portanto?... Parece que não. Que o digam os milhões de espectadores que têm visto e revisto o filme e dito maravilhas sobre ele, e que o confirmem os muitos prémios que já recebeu, entre eles o do importante Festival Internacional de Toronto.
Baseado numa história verdadeira, o filme centra-se num dia da vida de duas pessoas (José, um ex-jogador de futebol americano, e Nina, uma empregada de restaurante) que casualmente se encontram. José viu a sua carreira evaporar-se por uma série de circunstâncias que o impediram de assinar um contrato milionário; Nina está grávida e sózinha. Mas a partir do encontro que fazem e das decisões que ele implica, as suas vidas mudarão radicalmente.
O filme comete a imprudência de contar uma história em que o “verdadeiro amor vai para além do romance”, ou seja, implica sacrifício e coragem, embora devolvendo à vida o seu gosto intenso. Que um filme seja eficaz em “convencer” os espectadores de que a vida é, realmente, bela, não é fácil nem comum; mas que o faça ao mesmo tempo que valoriza a vida de uma criança por nascer, é, no mínimo, arrojado… É, pois, natural que este tenha sido o pomo da discórdia que, à margem do sucesso de audiências, tem alimentado alguma crítica e feito brandir argumentos a favor da vida ou a favor do aborto.
É, porém, de toda a justiça esclarecer que não se trata de uma obra feita para defender uma qualquer ideia, mas sim para falar da vida de pessoas normais que arriscam gestos de bondade, colhendo deles todo o seu potencial de esperança e de confiança na realidade. Realizado e produzido por gente jovem e amiga – Monteverde, Eduardo Verastégui (o protagonista) e Sean Wolfington criaram a Produtora Metanóia e são apelidados de “The Three amigos” – o filme contou com um orçamento relativamente modesto e arriscou contar uma história simples e bela. A sua proposta vai mais longe do que à primeira vista pode parecer e resume-se na provocação a que o espectador responda à pergunta: “What do you live for?”.
publicado por Joana Alarcão às 17:15 | comentar | partilhar