A caminho da Ciência

Dezenas de milhar de alunos do 9º Ano fizeram hoje o exame de Matemática [este e podem espreitar os critérios de correcção aqui]. No mesmo dia em que o senhor primeiro-ministro entreteve esta cerimónia.
Lá esteve ele com aquele seu entusiasmo ensaiado e aquela sinceridade treinada que quase diariamente derrama sobre nós. Falou-nos de Ciência, da importância que ela tem para si, da sua preocupação esforçada pela Ciência para Portugal. Independentemente do conteúdo facial da cerimónia (objectivos, estratégia e resultados de parceria com universidade norte-americana), o que sobressai nela, o que Sócrates quer que sobressaia dela (e lá estavam as televisões para isso), é o seu empenho político na formação científica em Portugal, na "produção" de investigadores - é isso que importa aqui. O conteúdo daquela cerimónia (pouco mais que propaganda pura) é político.
Comparemos então a alardeada paixão "socrática" pela Ciência com passagens de um documento sério de gente, esta sim, que sabe do que fala: o parecer da Sociedade Portuguesa de Matemática a respeito do exame de hoje (sublinhados meus):

"(...) O nível geral da prova é de novo demasiado elementar. O exame destina-se a alunos no final da escolaridade obrigatória. Após nove anos de ensino de matemática exigir-se-ia um maior grau de dificuldade.
(...)
Em quase todas as perguntas, os conceitos são testados com exemplos demasiado elementares. Os cálculos são todos muito simples, a equação do segundo grau é trivial, para mais sendo fornecida a fórmula resolvente, e os exemplos de geometria são demasiado directos.
Não há problema algum em introduzir num exame perguntas de anos anteriores ou de grau de dificuldade baixo. O que é prejudicial é que um número exagerado de perguntas corresponda a tópicos que deveriam estar sabidos anos antes e que todas ou quase todas as perguntas tenham um grau de dificuldade muito baixo.
Grande parte da matéria essencial do 9.º ano de escolaridade não foi coberta por esta prova. (...)
Tanto professores como alunos que se empenharam durante estes anos lectivos sentem-se desacompanhados e desapoiados com esta prova. O que exames deste tipo transmitem é a ideia de que não vale a pena estudar mais do que as partes triviais das matérias. Tanto os jovens que prosseguem os seus estudos no Secundário como os que terminam aqui a sua escolaridade não podem concluir estar bem preparados pelo facto de conseguirem um resultado satisfatório neste exame.
Pode pensar-se que provas elementares têm a vantagem de ajudar a perceber que as questões matemáticas não são intransponíveis. Mas estabelecer patamares demasiado baixos, em vez de incentivar a mais estudo e mais conhecimento, acaba por prejudicar todos — tanto os melhores, que se sentem desincentivados, como os menos treinados, que sentem menos necessidade de trabalhar para aumentar o seu domínio das matérias. Em suma, uma prova demasiado elementar como esta não serve o progresso do ensino. Pelo contrário, cria precedentes difíceis de contrariar."

É assim que se pretende criar as condições para um efectivo "desenvolvimento científico"? É assim que se estimula a formação científica?...
publicado por Carlos Botelho às 23:53 | comentar | partilhar