La mala educación (2)

O meu post sobre a educação para a cidadania em Espanha levantou algumas questões interessantes na caixa de comentários. Vou tentar responder-lhes, agrupando-as em três grupos.
Um grupo é o dos comentários (o do primeiro anónimo e o do João Miranda) que lembram, ao contrário do que eu digo, que a coisa já existe em Portugal. Têm razão, mas não é bem como em Espanha. O contexto do programa Novas Oportunidades não é escolar, ou pelo menos não diz respeito a crianças e jovens em idade escolar, e a disciplina de Formação Cívica no ensino português não tem um programa definido, não tem docentes específicos e não conta para a nota, sendo da responsabilidade do professor da turma no 1º ciclo, do director de turma no 2º e 3º ciclos (5º-9º ano) e de todos os professores, nas respectivas disciplinas, no ensino secundário (10º-12º ano). O seu impacto é mais reduzido e mais diluído do que será em Espanha. Em todo o caso, e confirmando a minha previsão, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues e a sua equipa criaram no ano passado um Forum de Educação Para a Cidadania, destinado a "introduzir as mudanças necessárias nesta área" (RTP1, 18/5/06). E que mudanças são essas? "Novas orientações curriculares", ou seja, um modelo mais rígido e semelhante ao espanhol.
Um segundo grupo de comentários/comentadores recorda, por sua vez, que a disciplina já existe lá fora, por exemplo em Inglaterra, sem os resultados jacobinos que eu temerosamente prevejo por cá. O nosso regular customer Julião afiança, com graça, que nem por isso a monarquia inglesa caiu e o João Vasco procura tranquilizar-me com um documento do Governo de Sua Majestade em que, à pergunta "Will citizenship allow the Government to force its view on schools?", se responde expressamente "where political or controversial issues are brought to pupils attention, they are offered a balanced presentation of opposing views". Soa bem, mas tenho as maiores dúvidas de que esta neutralidade se respeite na prática. O que é "a balanced presentation"? Todos sabemos que, em questões de princípios e valores, o que é balanced para uns não é para outros. O erro básico de uma perspectiva como esta é, repito, supor que o Estado, ou a escola do Estado, têm uma visão neutra ou equilibrada (balanced) dos princípios e valores. Isso só aconteceria se as pessoas que ocupam o Estado, mesmo que temporariamente como nas democracias, não tivessem princípios e valores. Mas têm, felizmente. Chama-se-lhes geralmente políticas. No caso dos socialistas, com a sua fé no Estado e na escola, nota-se mais.
O terceiro grupo diz que o princípio da educação para a cidadania não é mau, é até muito bom, embora a sua bondade esteja sujeita às pessoas que leccionam a disciplina. Esta é, quanto a mim, a objecção mais interessante e está relacionada com a anterior. É também a que exige mais tempo. Como estou atrasado para ir salvar as minhas filhas das garras do infantário onde esta tarde, de certeza, lhes ensinaram que o pai é um mau cidadão porque come bolas-de-berlim sem luvas de plástico, não vou poder responder. Fica para hoje à noite ou para segunda-feira. Se eu entretanto sobreviver à intoxicação alimentar com que o Rui Tavares, nas páginas do Público, tem andado a a ameaçar os hereges.
publicado por Pedro Picoito às 17:26 | partilhar