Portugal e a Tristeza

Dizem que este é o mês em que mais se manifesta. Não me refiro a esta, mas a outra. Falo de algo que, precisamente por sermos como somos, gostamos de exorcizar ou de acreditar que já cá não mora. Mas ela por cá habita, milita, debilita. Gostamos de entendê-la como uma herança, um peso, uma tara, um espinho cravado na carne. Não é o amargor de um grande mal que aflige ou o vazio deixado pela promessa de uma qualquer plenitude que fica por cumprir. Não é noite, nem sombra. É nevoeiro. Presta-se a uma estranha doçura, à canção e à estrofe, a ser estimada, saboreada, querida até com um soluço contido e um nó na garganta, acompanhados pelos suspiros de uma guitarra:

“Ó gente da
minha terra
Agora é que eu percebi
Esta tristeza que trago
Foi de vós que recebi”

Perdoem-me os políticos, os empresários, os cientistas, os economistas, os investigadores de amplos horizontes, os supostos optimistas de espírito afirmativo e confiante, enfim, perdoe-me o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa. Perdoem-me, mas avanço com esta extravagância de sugerir que a vocação universal deste povo talvez seja a de presentear o mundo com uma tremenda lição sobre a tristeza. Qual tristeza e que lição? Eis o que falta saber.

(Há-de continuar)
publicado por Joana Alarcão às 23:58 | partilhar