A arder em chamas

Eric A. Hanushek (que estará em Portugal em Janeiro próximo), Paul E. Peterson, e Ludger Woessmann publicaram recentemente o estudo “Teaching Math to the Talented”. Não tratarei aqui do estudo em profundidade, dedicado essencialmente à comparação entre os alunos americanos com um desempenho muito bom a matemática e os alunos de outros países desenvolvidos com desempenho equivalente, mas os interessados poderão consultar o estudo aqui (e a versão completa aqui). Importa-me, sim, aproveitar este estudo para situar o lugar relativo que Portugal ocupa.

A percentagem de alunos portugueses com um desempenho muito elevado a matemática não chega a 5%. Acima de Portugal, mas ainda com uma percentagem inferior a 5%, está Israel e a Itália, e 6 estados americanos. Acima de Portugal, com uma percentagem de 5% a 10% de alunos muito bons a matemática está a Letónia, Espanha, EUA, Lituânia, Irlanda, Noruega, Polónia, Hungria, Luxemburgo, Eslováquia, e Reino Unido, e ainda 27 estados americanos. Com mais de 10% (o dobro) de alunos com alto desempenho a matemática está a Suécia, Estónia, França, Islândia, Dinamarca, Eslovénia, Áustria, Alemanha, Austrália, China, e Canadá, e ainda 2 estados americanos. Com mais do 15% (o triplo) de alunos com alto desempenho a matemática está o Japão, República Checa, Nova Zelândia, Liechtenstein, Holanda, Bélgica, e Suíça. A Finlândia, Coreia, e Hong Kong têm mais de 20% (o quádruplo) de alunos com alto desempenho a matemática, e no topo, com mais de 25% (o quíntuplo) de alunos com alto desempenho a matemática está Taiwan. Para aqueles que preferirem olhar para baixo, e não para cima, encontram, atrás de Portugal, a Grécia, Croácia, Turquia, Uruguai, Bulgária, Sérvia, Chile, e Tailândia, e ainda 15 estados americanos (deixando de fora uma dezena de países e o Distrito de Colúmbia, onde a percentagem de alunos com alto desempenho a Matemática não chegou a 1%).

Em suma, a percentagem de alunos portugueses com um alto desempenho a matemática é incrivelmente pequena, quando comparada com os outros países - 36 países desenvolvidos e 35 estados americanos apresentam resultados superiores a Portugal. Não ouvirão da minha boca palavras a glorificar a superior importância da matemática face a outros saberes, como a língua portuguesa, a filosofia, ou as artes, ou a acentuar a inelutabilidade das competências matemáticas para o desenvolvimento tecnológico e outras coisas afins. No que a mim diz respeito, penso que Portugal está bem mais precisado de “competências” morais e espirituais do que quaisquer outras, que exigem acima de tudo um conhecimento profundo da língua e dos conceitos que evocam as diversas dimensões da vida humana, para além da mera matéria. A par das “competências” morais e espirituais, Portugal necessita de pessoas habilitadas a interpretar e criticar a realidade envolvente.

De qualquer modo, é evidente que a matemática não só não se opõe, como pode também concorrer para a formação de “competências” morais e espirituais, e para o desenvolvimento do sentido critico. Por outro lado, vivendo nós no mundo em que vivemos, em que a nossa sobrevivência material não pode deixar de passar pela capacidade de competir globalmente, e em que existem estudos credíveis que apontam para o facto de os países com alunos que têm um elevado desempenho em matemática e ciência revelarem índices maiores de crescimento na produtividade económica do que os países semelhantes com alunos de baixo desempenho, a baixíssima percentagem de alunos portugueses com um alto desempenho a matemática não pode deixar de preocupar aqueles que verdadeiramente se preocupam com o futuro de Portugal.

Tenho muitas vezes batido na mesma tecla e voltarei a fazê-lo agora. Pior ainda do que o estado da educação portuguesa é o discurso que há em Portugal sobre a educação. Quem assiste aos últimos desenvolvimentos que a educação tem sofrido nos EUA percebe nitidamente duas coisas: por um lado, os EUA estão imensamente preocupados com o baixo desempenho educativo que os seus alunos manifestam quando comparados com os alunos dos outros países; por outro lado, ao contrário do que acontece noutros sectores da politica americana, profundamente marcada por uma divisão politica, a educação tem sido alvo de um interessante consenso entre democratas e republicanos no que respeita ao caminho a seguir. E o caminho vai no sentido de mais diversidade educativa, mais escolha da escola pelos pais, mais prestação de contas e responsabilização dos diversos actores educativos - incluindo os professores.

Em Portugal nada disto acontece. Ainda agora estamos face a mais uma tentativa do governo PS de aniquilar a diversidade educativa através do corte desproporcionado do apoio às escolas privadas, mantendo o nosso País orgulhosamente só na defesa bacoca da escola pública, como se a escola pública ainda fosse, tal como ela existe actualmente, o garante de um ensino de qualidade. Face a uma crise educativa e económica, em que estão criadas as possibilidades para voltarmos às perguntas essenciais, e corresponder com novas respostas e soluções, eis que o governo PS mais não faz do que responder com soluções velhas, próprias de um tempo que já não é o nosso, e de que a maioria dos países desenvolvidos se têm afastado de há duas décadas para cá.

Dizia o outro, a respeito de um assunto distinto, que eles são como Nero, que tocava a cítara enquanto Roma ardia. Dizia ele, ainda, que eles tinham desculpa, pois não sabiam que tocavam a cítara, nem sabiam que Roma ardia. Dos nossos governantes o mesmo deve ser dito, mas com uma diferença essencial: eles não sabem que tocam a cítara, mas não têm como não saber que Roma está a arder.
publicado por Nuno Lobo às 17:00 | partilhar