A última fronteira do mundo civilizado


Neste país há cidades ultra modernas, arranha céus de última geração, infraestruturas sensacionais, saúde e educação de ponta. Há um parque automóvel novinho em folha e as habituais Zaras, Starbucks, McDonalds. Há gente vestida como em Nova Iorque e Londres. Há empresas globais como a Samsung ou a Hyundai que vendem biliões mundo fora. Há uma economia que é a 12ª maior do planeta (e que prospera).
Com esta descrição o leitor considerará que a Coreia do Sul é um país parecido com os do "pelotão da frente": uma economia aberta, um modelo de transparência e accountability com empreendedores de sucesso, cidadãos globais e bem informados. Mas não é.
Por trás das semelhanças com os países "civilizados" com quem compete ferozmente, a Coreia tem um modelo de sociedade e de economia absolutamente únicos (ligeiramente comparáveis ao Japão) que torna o país muito sui generis e as suas qualidades impossíveis de replicar (há defeitos também e são mauzotes).
Esta é uma sociedade confucionista, muitíssimo homogénea que preza essencialmente três coisas: a força do colectivo, o valor da educação e a senioridade. O coreano começa desde os 3 anos a ouvir ordens (berros) em casa, depois na escola, na tropa e finalmente no trabalho onde é normal comparecer ao Sábado e tirar apenas 4 ou 5 dias de férias anuais. A pressão é infernal, e o resultado é uma gente que executa com uma qualidade e rapidez inacreditáveis, mas que não consegue pensar por si só na resolução de problemas (em suma, obedece a ordens ou copia bons exemplos). E conhecem muito pouco do mundo que os rodeia.
A economia, em vez de crescer "organicamente" por via de empreendedores capitalizados apoiados por um sistema bancário que arrisque, desenvolveu-se na realidade à volta dos chaebols, os gigantescos conglomerados que controlam toda a economia (só a Samsung é do tamanho da economia Portuguesa) e a quem a ditadura, e agora governos democráticos, deram carta branca para desenvolver o país. Ah, e estes chaebols não são multinacionais, são empresas coreanas com presença no mundo inteiro, o que é totalmente diferente - a cultura empresarial e as lideranças são totalmente coreanas.
Viver aqui é de facto uma experiência: ao contrário do que se possa pensar, o essencial não está a mudar e a peer pressure para manter status quo está intacta. E, sinceramente, porque havia a Coreia de mudar? Este foi o país que mais rápido se desenvolveu no mundo e as perspectivas são muito optimistas. Quem somos nós para julgar este modelo de civilização?

P.S. Agora que finalmente tenho uma porra de um teclado português, conto elaborar mais sobre esta aventura que já se estende por mais de dois anos. Talvez seja uma boa alternativa para a cobertura eleitoral que se avizinha.
publicado por Francisco Van Zeller às 13:40 | partilhar