Hannah Arendt e a sua «fé»

Dedico este post ao meu grande amigo Rabino Eliezer Shai di Martino


Hannah Arendt, fumando

Vou tentar falar de Hannah Arendt e da sua «fé», que eu creio ser quintessencialmente judaica, mais, muito mais do que provavelmente ela sabia (desculpem-me a imodéstia).

Que seja do meu conhecimento, há apenas uma ocorrência, nos escritos de Hannah Arendt, sobre o problema. Está na correspondência que ela manteve com Karl Jaspers, a mais vasta das suas correspondências, durando de 1926 a 1969.

Em 15 de Fevereiro de 1951, Karl Jaspers envia-lhe de Basileia uma carta agradecendo-lhe efusivamente o envio de um exemplar das Origens do Totalitarismo.

Querida Hannah!

O seu livro acaba de chegar. Mesmo antes de o ler - e estou ansioso por fazê-lo - quero agradecer-lhe imediatamente e dizer-lhe que o livro chegou e está nas minhas mãos. (...)

Li apenas a introdução: brilhante, parece-me - nunca vi a situação e a tarefa do nosso tempo apresentadas com tal clareza, simplicidade e vivacidade.

E o capítulo final, que já conhecia parcialmente. Maravilhoso na sua exigência - que é simultaneamente justa e necessária. Mas como conseguiremos que ela seja aceite por todos? Será necessário mais do que fazê-la, para que seja cumprida.

Não ficou Jahweh demasiado de fora do campo de visão?

Hannah Arendt responde-lhe em 4 de Março do mesmo ano.

Lieber Verehrtester-

(...) A sua questão «Não ficou Jahweh demasiado de fora do campo de visão?» tem estado no meu espírito desde há semanas, sem que eu seja capaz de chegar a uma resposta para ela. Não mais do que fui capaz de encontrar uma, para a minha própria exigência inclusa no capítulo final. Ao nível pessoal, faço o meu caminho pela vida com uma espécie (infantil? porque inquestionável) de confiança em Deus (por oposição à fé, que pensa sempre que sabe e, portanto, tem de se debater com dúvidas e paradoxos). Não é possível fazer muito mais, com isso, é claro, do que ser feliz. (...)

E é Jaspers quem remata este pequeno diálogo sobre a «fé», uma semana depois.

Querida Hannah! Que alegria, a sua carta de 4 de Março. (...)

A sua confiança «infantil» em Deus, não é isso filosofia? Num certo ponto, somos crianças: de outra forma não conseguiríamos viver - e agradecemos que toda a reflexão, que não conhece limites para si própria, regresse sempre, em última instância, a um impulso não intelectual, do qual toda a verdade, basicamente, procede. (...)


É claro que a felicidade primordial de que fala Arendt, e Jaspers comenta tão bem, não se prestava a posteriores paráfrases, e esta conversa ficou onde tinha de ficar: por aqui.

Na sua aparente simplicidade, há algo de extremamente significativo, para o propósito deste post, que é dito por Hannah Arendt, distinguindo entre Fé e Confiança.

De facto, fé é o termo pelo qual é quase sempre traduzido o vocábulo hebraico emunah. Mas de uma forma que não capta o essencial da espiritualidade judaica, nele contido. Por vezes, porém, a imperfeição da tradução é de tal modo patente, que coloca problemas insolúveis, optando-se então forçosamente por outros termos, que justamente sugerem uma aproximação semântica ao termo emunah, mais fiel. Como na primeira oração que qualquer judeu religioso faz, logo ao acordar:

Modê ani lefanekha
Melekh khai vêkaiam,
shêkhêzarta bi nismati
bekhemlá
rabá emunatekhá.

Que traduzo,

Dou graças perante ti,
Rei vivo e eterno,
Por me teres restituído a alma,
Com compaixão.
Grande é a Tua...

Fé? Obviamente que não! A Tua - aqui, em inglês, o tradutor costuma optar por Trustworthiness: Fiabilidade. Não encontro melhor termo para traduzir emunatekhá.

É dessa confiança matinal em Deus que Hannah Arendt fala, no curto texto que ocorre na troca de correspondência com Jaspers.

Mas certamente que tudo ficará mais claro para o leitor, se seguir, aqui, Menachem Kellner (é mesmo provável que nada do que digo seja compreensível, se a leitura não for feita...), no seu belo ensaio sobre a Fé Bíblica, tal como é compreendida pelo Judaísmo, a atmosfera espiritual em que, afinal, respirava Hannah Arendt, talvez, repito, mais do que ela soubesse - o seu era um meio familiar bastante secularizado -, mas que tão eloquentemente articulou, na sua resposta a Jaspers.
publicado por Jorge Costa às 11:49 | comentar | partilhar