Monstros e trópicos

O monstro austríaco já tem companhia. O homólogo colombiano de Joseph Fritzl chama-se Arcebio Alvarez e, durante vinte anos, terá violado a filha adoptiva, a aliterada Alba Alvarez. Neste drama tropical não há caves sinistras, classe média anémica e romances de Thomas Bernhard para justificar o comportamento de um homem. Nem sequer há pornografia onde os puritanos possam ver uma manifestação do mal. Há apenas o rústico Arcebio que não pode aspirar à grandeza literária de um Florentino Ariza a passear-se pelo corpo da menina America Vicuña. Eis o bom selvagem no esplendor da sua inocência anterior ao pecado original, à televisão e às metrópoles cinzentas e anónimas do Ocidente. O convincente e calafriante Monstro de Amstetten deu lugar ao folclórico, quase anedótico, Monstro de Mariquita. Fritzl cabe perfeitamente no fato de verdugo pós-nazi. Arcebio não serve sequer para aberração de feira tropical. Fritzl é demasiado próximo da nossa sofisticação tecnológica: caves e códigos. Assusta-nos. Arcebio, sob o nosso olhar condescendente, ainda está a sair da caverna lamacenta da pré-história. Diverte-nos. Não esperem batalhões mediáticos em Mariquita.
publicado por Joana Alarcão às 10:11 | comentar | partilhar