O elogio do Bom Ladrão

Quando a novela Bispo-Williamson-negações-do-Holocausto-Bento-XVI-excomunhão parece estar a terminar, apetece-me oferecer a minha colherada. Não para explicar novamente porque razão Bento XVI nunca poderia fazer depender uma excomunhão de uma ou várias afirmações muito infelizes de cariz anti-semita ou anti-americano. O Pedro Picoito já explicou e quem não percebeu, lamenta-se, mas o melhor é tentar suplementos alimentares, ou a inclusão de ácidos gordos na alimentação (parece que o salmão é bom) que beneficiem as celulazinhas cinzentas, ou a hipnose para tentar descobrir a origem do problema; pela argumentação lógica mais nada há a fazer. De qualquer forma eu desejo bom sucesso.

Queria apenas revelar-vos a minha satisfação por fazer parte de uma Igreja onde tontinhos (para ser caridosa) como o Bispo Williamson são acolhidos. Uma Igreja que é composta de tremendos pecadores e, ainda assim, que consegue fazer tanto bem em todo o mundo. Uma Igreja de pessoas que encaram como normal errarem e pecarem, até quando se esforçam por não errar e pecar, e que conseguem todavia terem a humildade de assumirem esse erro e esse pecado e não verem a imagem que têm de si próprias e do mundo estilhaçar-se. Não de pessoas que por errarem e pecarem, não tendo a capacidade de auto-crítica ou de auto-aceitação dos seus inúmeros defeitos que produzem uma ainda mais inumerável quantidade de actos errados, racionalizam os seus erros e pecados, justificam-nos como podem, convencem-se de que afinal são justos e, quantas vezes, começam a atacar a Igreja porque a Igreja tem o despautério de defender uma conduta a que não conseguem ser fiéis. A culpa passa dos pecadores para a Igreja, a cultura judaico-cristã, a tradição ocidental católica ou outro derivado. Em suma, gosto de pertencer a uma Igreja que sente culpa sem se escravizar com a culpa. A uma Igreja que não é composta por puros justiceiros, que nunca erram (porque quando erram, os valores que consideram determinado acto um erro é que estão trocados) e que do alto da sua postura moral não se cansam de catalogar os outros (mal) e apontar à vil "ICAR" todos os podres que conseguem vislumbrar (às vezes inventar). Esta característica da Igreja - que lhe é intrínseca, porque Jesus Cristo veio para salvar os pecadores - de saber conviver com o pecado e até nele ver uma oportunidade para o bem é absolutamente essencial num mundo de pessoas que cada vez mais não conseguem aceitar a sua parte venenosa (digamos assim) sem se convencerem de que o veneno afinal até é bom. (Enfim, um pecado como qualquer outro, que tem o perdão de Deus à espreita).

Eu prefiro sempre estar no meio daqueles que erram. Fujo dos que se consideram imaculados e gostam de despejar moralidades sobre outros. E faço muito bem, porque os piores males sempre vieram dos que se consideravam puros e sem necessidade de salvação - acredito eu que, na sua ilusão sobre si próprios, não tendo nunca noção da enormidade do erro e do sofrimento causado.
publicado por Maria João Marques às 23:50 | comentar | partilhar