Traduzindo


Na véspera e no Dia de Natal (e hoje deve continuar a saga) lá fomos sendo massacrados nos Telejornais com a história edificante dos alunos que, em pleno decurso da aula, apontam uma pistola de plástico à cabeça de carne e osso da professora. Tudo a brincar, claro. Para ilustração dos indígenas, a coisa foi devidamente filmada pelo telemóvel de serviço. Imagino que, a esta hora, já devem ter sido convidados os "especialistas" do costume para se "pronunciarem" e "analisarem" o curioso fenómeno.
Giras, giras são as "reflexões" sobre a maravilhosa interacção já publicitadas pela famosa funcionária política Margarida Moreira, por coincidência directora regional de Educação do Norte. Lembram-se dela? Aquela zelosa directora que acarinhou a delação em forma de filho da puta do professor Charrua. Que tem uma comovente predilecção pelas tautologias reverenciais ao 'sr. primeiro-ministro de Portugal'. Que defende que os alunos 'têm direito ao sucesso' [sic] e que sugeriu, com gosto, que devessem ser purgados os professores correctores demasiado exigentes. (O que será um professor demasiado exigente?). Mas que disse desta vez a manifesta directora?
Que se tratou somente de 'uma brincadeira de mau gosto que excedeu os limites do bom senso' - 'não foi mais do que isso'. Certamente por subidas razões de justiça, a senhora esclarece a pátria que 'o grupo de alunos em causa teve, no passado, um percurso marcado pelo insucesso e abandono escolar, tendo depois sido integrado no ensino tecnológico, num curso de Desporto.' E 'garante [imagino que com as mãos juntas] que estes estudantes estão agora a ter sucesso nas aulas, tendo poucas negativas e poucos problemas disciplinares'. O que é extraordinário e muito, muito meritório, depreende-se. Mas a melhor parte vem depois: 'Não gostaria de todo que um momento de mau gosto e insensatez, que todos podemos ter tido aos 17/18 anos, acabe por marcar um percurso que já é e quero que continue a ser feito de sucesso'. Perceberam a subtileza da coisa? Para mais, avisa ela, a DREN irá acompanhar (com o tipo de zelo que já se adivinha...) o inquérito feito pela escola aos brincalhões de poucas [sic] negativas e poucos [sic] problemas disciplinares. Margarida Moreira lá saberá o que andou a fazer aos 17/18 anos - eu, que não era particularmente doce com os professores que me desagradavam, não me lembro de lhes andar a apontar armas de plástico brincando às intimidações.
Traduzindo a senhora:

Deixem-se de tretas! Trata-se de uma brincadeira inocente de crianças de 18 anos. Mas qual é o problema de, dentro da sala de aula, um conjunto de encapuzados rodearem a professora e lhe apontarem uma pistola de plástico à cabeça exigindo notas altas? Até é engraçado. E aquelas crianças estão a ter sucesso: poucas negativas e poucos problemas disciplinares - não vamos agora estragar tudo com a vossa falta de sentido de humor! Façam de conta que não se passou nada, finjam um bocadinho (mas não exagerem!) que ainda são professores e que isso é uma escola e repreendam-nos (mas sem os magoar). E não esqueçam que estou atenta ao vosso comportamento.

A reacção de Margarida Moreira a este episódio ridículo mostra bem o que vai na cabeça das criaturas que gerem a Educação. Reparem como neste caso exemplar a escola do Cerco é intimidada pelo longo braço da 5 de Outubro - que termina na mãozinha ameaçadora da responsável da DREN. Esta gente vê as escolas como autênticos caixotes de lixo. E não, não sou eu que estou a chamar lixo aos alunos. São estas "orientações" que tratam os alunos como lixo. Ao lixo não se pede responsabilidade. O lixo não se pune, porque ele não nos merece respeito. O lixo pode continuar a ser o que é, porque não merece que o ajudem a deixar de ser lixo. E as escolas devem limitar-se a conter o lixo e fazer todos os esforços para que ele não transborde. Devem ignorar o mau cheiro. E, primeiro que tudo, devem fingir, mascarar o lixo de outra coisa. Numa palavra, as escolas são industriadas em enganar os alunos.
Mas, vá, patriotas, força, continuem a massacrar os professores com a "avaliação". Isso é que importa. Pô-los a trabalhar e tal. É essa que irá mudar tudo. É ela que vai salvar a Escola.
Pois.
publicado por Carlos Botelho às 09:32 | comentar | partilhar