O desperdício vocal na António Arroio

A Escola António Arroio sempre foi uma escola "especial". Com uma ecologia muito característica. (E. g. a Alameda das Ganzas.) É daquelas escolas com uma noção muito forte da sua individualidade - durante décadas, não se sentia como apenas mais uma entre outras. E justamente. Ora, estas "consciências de si" são sempre acompanhadas de uma grande susceptibilidade.
É claro que chamar "fascista" a Sócrates é, tecnicamente, uma parvoíce. Nem merece a pena gastar mais do que uma linha a "condenar" isso. Não só por ser, tecnicamente, uma acusação demasiado ridícula para ser considerada, mas também porque os lamentos demasiadamente prolongados sobre a coisa só vêm favorecer o próprio Sócrates.
Temos um primeiro-ministro que, permanentemente, nos antepõe cenários, biombos que escondem a realidade e no recinto dos quais ele faz os seus números. Esses biombos de propaganda nunca podem ser retirados, porque, se levanto um, há logo outro por detrás do primeiro que o substitui. O que aqueles rapazes e aquelas raparigas hoje fizeram foi empurrar os biombos com estrépito. (Sócrates, na impunidade do costume, julgava ele, arengava sobre, imagine-se, a "criatividade", quando o tumulto começou lá fora.) Isto permite saber, dá a ver, que existe uma realidade por detrás do cenário, que a realidade não acaba onde acaba o discurso de Sócrates.
Com o cenário destruído, Sócrates desaparece, deixa de ser. É uma máscara que não esconde um rosto, mas sim a ausência de rosto. E lá foi ele - acossado, depois de encurralado.
(Andava por lá um rapaz brandindo, como um guerreiro, uma guitarra com a palavra 'fascista' inscrita. Será uma coincidência, ou ele saberá do Woody Guthrie, em cuja guitarra se podia ler 'This machine kills fascists'?)
Se fossemos perguntar àqueles alunos o que entendem por 'governante fascista', diriam talvez que é um sujeito autoritário, arrogante, que despreza as oposições, que destrata os adversários, que estimula (ou, pelo menos, tolera) comportamentos persecutórios dos serviçais, com uma permanente propaganda imagética, que se fixa num ou noutro fetiche de monomania dessa propaganda (o Magalhães), etc. Provavelmente, de um modo mais ou menos confuso, será numa personagem assim que pensam - não em criaturas fardadas, percorrendo avenidas em passo-de-ganso, entretidas a fuzilar opositores e a enviar inocentes ("culpados objectivos") para campos de concentração.
Que querem?... Há quarenta anos estas cenas seriam impensáveis - mas há quarenta anos (e há trinta...), os alunos sabiam quem era Marx, Hitler tinha sido derrotado só vinte anos antes e havia dois blocos no mundo... Aqueles alunos (e espero não ser injusto ao dizer isto) passam por uma espécie de "revolta" para com um horizonte indefinido (ainda que povoado por obstáculos bem reais, concretos), uma "revolta" sem objecto ideológico determinado.
No entanto, à sua indeterminação ideológica também não corresponde, diante de si, uma determinação ideologicamente consistente. Diante de si têm apenas o rosto de Sócrates. Tudo se passa como se aquele rosto encarnasse apenas uma vontade. Uma vontade que se esgota a si mesma. Não há ali um qualquer construto "ideológico" ou "programático" que fornecesse, de um modo que não fosse meramente atemático, um quadro em cujos limites aquela vontade se exercesse. Não. A vontade (a faculdade infinita, para Descartes) está "ideologicamente" solta, como que infinitamente solta, para se exercer neste ou naquele sentido de uma forma indeterminada. E quando aparece algo que poderia ser interpretado como um esteio ideológico (as famosas "questões fracturantes"), isso, na verdade, não passa, para Sócrates, de um mero adereço instrumental, de um adorno que visa disfarçar o vazio.
Por isso, a Sócrates, não se pode chamar 'fascista'. Porque não se lhe pode chamar nada. Ideologicamente, ele nada é.
publicado por Carlos Botelho às 21:44 | comentar | partilhar