Cães como quem?



Discordo da sentença do Tiago Moreira Ramalho sobre o sistema parlamentar britânico, abalado nas últimas semanas pelo escândalo das despesas dos seus deputados."Caem por terra essas teorias de que a Inglaterra é um exemplo para o mundo", diz. "Afinal, são cães como nós." Não estando inteiramente certo quanto à parte do cão, acredito que a democracia inglesa dispensa a minha apologia. Mas estive em Londres por estes dias e acompanhei o imbróglio. Lá, como cá, os cidadãos e os jornais andam desconfiados da honestidade de quem os representa e já se pede a reforma do Parlamento: diminuição do número de eleitos, publicação das despesas on line, nomeação de uma comissão independente para as acompanhar, fixação de um limite de gastos, enfim, o costume. Dos editoriais da Spectator às conversas de pub, o ódio aos políticos é tão grande que há MPs a falar em suicídio. Gordon Brown está visivelmente aterrorizado e Cameron deu-se ao trabalho de publicar um longo artigo no Guardian a defender a mudança do sistema eleitoral. Ninguém escapa à fúria dos eleitores.
Mas há duas diferenças notáveis em relação a qualquer cenário semelhante em Portugal.
Em primeiro lugar, nunca se põe em causa o regime constitucional e monárquico. Todas as propostas de reforma assumem que o problema não está no sistema, mas nas pessoas. Exactamente ao contrário do que se passaria em Portugal, onde um ministro se atrasa na declaração do IRS e todos clamam de imediato pela IV República, quando não pelo V Império. A melhor maneira, como se sabe, de mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma.
Segunda e mais notável diferença, em Inglaterra a ira da rua tem consequências. O speaker foi forçado a renunciar ao cargo - o que não se via desde há trezentos anos - e tem havido uma vaga de demissões que ameaça mudar de alto a baixo os Comuns, até porque a eleição é uninominal e quando sai um deputado vai-se às urnas e não aos suplentes.
Para não maçar Vexas com casos domésticos recentes, lembro só que a nossa Assembleia teve uma situação parecida, em tempos, com as famosas "viagens fantasma". E o que é que aconteceu quando a coisa se descobriu?
Nada. Nicles. Rien. Puto. Nicht. Nihil. Nooothing...
Cães como quem?
publicado por Pedro Picoito às 17:14 | partilhar