O Mundial de Futebol de 2018

Ao que tudo indica Portugal e Espanha irão apresentar uma “candidatura conjunta” à organização do Campeonato Mundial de Futebol que se realizará em 2018. Tal como sucedeu algures em finais do século XX, há por aí um influente coro luso que apoia a realização do evento pelos dois países. O dito coro tem como maior argumento a favor das suas posições o facto de Portugal possuir já vários estádios, legados pelo “Euro 2004”, capazes de albergarem aquele evento FIFA. No entanto, em primeiro lugar, e como é fácil perceber, a organização conjunta do Mundial de 2018 nunca será tão barata como se pensa (será preciso investir muito em estádios que em 2018 terão pelo menos 14 anos e, por outro lado, construir infra-estruturas de transporte e de telecomunicações que uniformizem ainda mais o espaço ibérico – a começar pelo TGV entre o Porto, Lisboa, Madrid e, talvez, Algarve –, ou que garantam um melhor e mais seguro acesso por avião à capital portuguesa – estou a pensar na construção do novo aeroporto internacional de Lisboa).
Em segundo lugar, uma organização ibérica do evento não é mais do que um enorme erro político e desportivo. Erro desportivo porque a degradação irreversível da qualidade do futebol português tornará risível, quanto a resultados, a participação lusa num Mundial a realizar dentro de seis anos. Erro político, porque dificilmente a Espanha deixará que internacionalmente Portugal apareça numa posição que não seja a de desigualdade e, portanto, de submissão, ao mesmo tempo que tentará usar Portugal, a sua pequenez e o seu atraso, para produzir um upgrade político de regiões espanholas como a Catalunha, as duas Castelas, Valência e o País Basco.
Mas se não deixa de ser curioso que duas das dez mais endividadas economias do mundo queiram realizar um Mundial de Futebol, não queria perder esta oportunidade para deixar aqui uma proposta que embora mantendo, e até agravando, todos os handicaps financeiros e desportivos de um evento com a natureza de uma competição FIFA de primeiríssima linha, terá ao menos, política e diplomaticamente, uma dimensão profundamente útil e até (vagamente) meritória. Trata-se, nada mais, nada menos, de uma proposta de realização conjunta do Mundial de Futebol de 2018 por Portugal e por Marrocos. Seria a primeira vez que países vizinhos, mas de continentes distintos, se propunham realizar um Mundial. Por outro lado, e tratando-se de Marrocos e Portugal, certamente que este tipo de iniciativa, com o subsequente desenvolvimento e aprofundamento da cooperação bilateral, traria vantagens políticas tanto para os protagonistas como para os blocos políticos e económicos em que os dois países se integram. Quem não gostaria nada da ideia, claro está, seriam os espanhóis, que certamente tentariam boicotar na FIFA esta iniciativa. Porém, mesmo que não se concretizasse, e como dizia o outro, política e diplomaticamente a aposta estaria sempre ganha.
publicado por Fernando Martins às 02:07 | partilhar