Identidades letais


A Letónia discute por estes dias o ensino da história nacional, e inflamadamente, rezam as crónicas - se é que o advérbio faz sentido a tão gélida latitude. Uns letões (ou letónios?) querem que a história da pátria seja uma disciplina autónoma da história universal, ao contrário do que sucedia até agora, invocando a necessidade de fortalecer a identidade colectiva e o espírito de cidadania. Outros letónios (ou letões?) pretendem manter o actual sistema e alertam para os comprovados perigos do nacionalismo e para a estreiteza de uma noção étnica de cidania na era da globalização.
O dilema é tudo menos simples, como sabe quem já tenha ensinado história no básico ou no secundário, mas na Letónia complica-o ainda mais o pormenor de um terço da população descender de russos que o camarada Estaline, nos bons velhos tempos do império comunista, trouxe para as margens do Báltico. Bons velhos tempos esses em que a história do país era explicada às criancinhas como parte integrante do passado soviético. Os letões (letónios?) russófonos temem agora que uma história especificamente letónia (letã?) nos curricula seja o despertar de um sentimento anti-russo que sempre existiu, mas que estava adormecido desde a proclamação pacífica da independência em 1991.
Talvez isto pareça um pouco distante aos meus compatriotas, que nunca conheceram grandes divisões étnicas, linguísticas ou religiosas, mas mostra como a identidade nacional é fruto, não da natureza, mas da história. E a nossa história é longa. Tão longa que Eduardo Lourenço chamou um dia à identidade portuguesa uma "sobre-identidade". Expulsámos os judeus e os mouros em 1496, um décimo da população lisboeta era negra no século XVI, os espanhóis dominaram-nos durante 60 anos, em Barrrancos têm touros de morte e em Miranda do Douro o mirandês, o Alberto João quer a independência (ou talvez não) e a Cova da Moura já a tem, mas nada que se compare ao barril de pólvora que são algumas nações da Europa.
Por cá não há histórias letãs (ou letais?). O pessoal só desata à pancada por causa de concursos de televisão.
publicado por Pedro Picoito às 11:50 | comentar | partilhar