Father Knows Best

Segundo Vital Moreira, o investimento dos socialistas em obras públicas é "aquilo que melhor pode aliviar a situação da classe média, dinamizando a economia, criando oportunidades de negócio para pequenas e médias empresas, gerando procura de serviços profissionais, etc."

Isso seria apenas parcialmente verdade se os cidadãos fossem incapazes de uma aplicação mais eficiente dos seus recursos, se fossem incapazes de detectar melhores "oportunidades de negócio", de gerar melhor oferta e "procura de serviços profissionais". Se os recursos não forem retirados aos privados, eles não vão parar ao fundo do mar sem utilização, terão uma aplicação alternativa que tudo indica ser mais eficiente do ponto de vista económico que a aplicação estatal em Portugal neste momento, dados os valores globais que estamos a falar (o que não quer dizer que não haja individualmente investimentos que se justifiquem).

O que Vital Moreira tem de explicar para justificar a generalidade que afirma, é porque é que retirando dinheiro aos privados, limitando-lhes ainda mais a tal capacidade de iniciativa, e dando-o ao estado, que por sua vez irá pagar a sua despesa burocrática de funcionamento antes de lançar o que restar em investimentos cuja última decisão é política, será melhor do que deixar estes mesmos recursos no bolso dos contribuintes.

Keynes seria o primeiro a não concordar com a visão de Vital Moreira, o diagnóstico dos problemas económicos do país tem sobretudo que ver com eficiência, produtividade e competitividade, aos quais se juntam alguns problemas financeiros e macroeconómicos (ex: défice externo, défice contas públicas, dívida pública, peso da fiscalidade, etc). E deste ponto de vista em que espécie de análise custo-benefício, com aplicação alternativa de recursos, se baseia Vital Moreira para defender a globalidade do "pacote de investimentos" para além dessa defesa ideológica e algo mitológica das alegadas bondades intrínsecas do investimento público?

Ouvi uma vez o ministro Pinho, um ou dois dias depois da demissão de Campos e Cunha, fazer exactamente o mesmo tipo de defesa ideológica cada vez que da plateia da Ordem dos Economistas surgiam questões específicas sobre determinados projectos, sobretudo dos grandes. Não convenceu, preocupou e criou uma escalada no tom das perguntas, ao ponto de lhe ser questionado se ele era ministro da economia (dos cidadãos e das empresas) ou uma espécie de ministro do plano descontextualizado no tempo e no espaço.

O que Vital Moreira diz é preocupante, pois é bem possível que seja quase só isso que Sócrates, Pinho e Lino nos tenham para dizer. Investimento, "dinamização" da economia? O Estado é que sabe. Já vimos este argumento na tela, o final não é feliz.
publicado por Manuel Pinheiro às 12:24 | comentar | partilhar