Divirtam-se!

Discutem-se, ali para os lados do 31 da Armada e do 5 Dias, questões relacionadas com o aborto.
Discutam, pois. Hão-de discutir seguramente bem.
Pelo meu lado, deixo-me à parte.
Enchi a barriga de argumentos e contra-argumentos durante a campanha para o Referendo.
O resultado foi o que foi e para mim chegou. Feliz a hora em que regressaram o Marques Mendes, o Ribeiro e Castro e o Pinto de Sousa ao expediente da República. Foi um alívio.
Ás tantas, o confronto era essencialmente eleitoral: alegações e contraditórios, números e refutações, acertos e contradições, estatísticas e sondagens, rádios e televisões.
Um verdadeiro inferno.
Arrastada pela marabunta, ía ficando a vida, a verdade do dia-a-dia. O concreto, o doloroso, o que não se vê nem se ouve nem nos ecrans nem nos comícios.
Arrastadas pela euforia emanda das trincheiras, foram ficando as pessoas. Foi ficando o real.
O momento alto do debate de então foi, para mim, protagonizado entre Lídia Jorge e Laurinda Alves, quando uma falou de "coisa no ventre" e outra de "vida humana".
Depois falaram todos. Uns de crime e outros de hipocrisia.
Revelaram-se modos de ver a vida. E ganhou um desses lados. A palavra final há-de pertencer ao rumo que seguir a civilização, sendo certo que não somos os últimos dos homens nem está escrito o fim da História. Coisas que não dependem de referendos.
Quanto é que custa um aborto? Quantos se praticam hoje em Portugal?
Divirtam-se. Eu fico a assistir.
publicado por Joana Alarcão às 02:10 | partilhar