Portas vs. Louçã

Ponto prévio. Este debate já interessava pouco, dada a fase em que aparece (os candidatos já tiveram tempo para expor as suas propostas) e dado que não lutam pelo mesmo eleitorado. Nem a clivagem esquerda/direita entusiasmava antes do debate começar. Mas não era apenas para 'cumprir calendário': interessava saber como Louçã se repunha depois da derrota contra Sócrates, e ver se Paulo Portas mantinha o bom nível que tem mostrado.

Radicalismo? Louçã diz que PP o acusa do que quiser. E ataca, desde logo, as políticas económicas do Governo PS, falando da importâncias das nacionalizações. Louçã não aceita que a Energia não seja gerida pelo interesse público. Previsivelmente, Louçã reduz a economia aos casos do costume: Amorim, Galp, etc. PP, naturalmente, discorda, e chama a atenção para os perigos das nacionalizações. E lembra que a 'confiança' é o que mais precisa a economia portuguesa: é que são os portugueses que pagam as nacionalizações. Portugal precisa de concorrência, mais concorrência, não de mais nacionalizações. Finalmente, PP defende que o Estado não é bom gestor, o que prejudicaria o país e as empresas. Interrogou Louçã sobre pontos concretos das suas propostas, e o líder bloquista não soube responder adequadamente. PP esteve melhor que Louçã, o que é curioso tendo em conta que foi Louçã que quis trazer o tema para a mesa. Saiu-lhe mal.

Desemprego e Código de Trabalho. PP acha que o nosso Código de Trabalho é ainda demasiado rígido. É preciso virá-lo para as PMEs, que são quem contrata e quem dá emprego em Portugal. Louçã argumenta que aumentou o desemprego, que este Código de Trabalho "promove a precariedade" e que facilita o despedimento dos trabalhadores. Só promove o trabalho temporário. PP mostra um gráfico com dados sobre o desemprego, cujas datas Louçã não concorda (diga-se que o gráfico estava 'arrumado' convenientemente). PP enumera uma lista de propostas para a contratação jovem nas empresas, propostas que o CDS apresentou na Assembleia e que o BE votou contra. PP mostrou ter o trabalho de casa muito bem feito. Louçã fala das suas propostas: promover a inovação, tecnologia, melhor qualificação, e o crédito. PP responde muito bem: agarra no programa do BE e nota que o BE até propõe nacionalizar as patentes.

Políticas sociais. 'Racismo social' (expressão do programa do BE): Louçã ataca as concepções do CDS quanto ao rendimento social de inserção, que considera discriminatórias. PP separa as águas entre quem trabalhou (pensões) e quem não quer trabalhar (rendimento social de inserção). E depois enumera uma série de políticas que foram postas em prática durante o tempo em que esteve no Governo, e mostrou trabalho na protecção de quem tinha o seu emprego em risco. PP tem razão quando diz que foi a Direita que melhor contribuiu para as políticas sociais. Louçã refere duas propostas que o BE apresentou, tentando mostrar as diferenças entre BE e CDS, mas afinal o CDS até aceitou uma dessas propostas no Governo. Argumentação fraca de Louçã.

Imigração e Segurança. Louçã acusou algumas propostas do CDS de serem xenófobas. Lembra Berlusconi, num tom moralista, e aponta Nélson Évora como um ex-imigrante (?). PP recua ao assunto anterior contra a vontade de Judite de Sousa, e ninguém ouve ninguém. É repreendido sucessivamente por Judite de Sousa. Aumenta o tom do debate, Louçã sente-se atacado na sua seriedade, e responde duramente. Este episódio ficou mal a PP. Voltando ao tema da Imigração, PP defende uma regulação das entradas em função das oportunidades de trabalho, e que o Estado se comprometa com essas oportunidades. Uma política de imigração num período recessivo contribui para piorar a situação dos imigrantes. Respondeu bem. Louçã toca no ponto dos chips nos carros, que critica no PS. Quer mais polícias e melhor organização das polícias, ponto em que os dois partidos concordam.

Sondagens. Louçã recusa fazer cenários sobre coligações. PP chama a atenção para os números que dão ao CDS, que são sempre mais baixos do que têm realmente nos actos eleitorais. Previsível nos dois.

O debate acaba em cacofonia, com os dois candidatos a falar incessantemente. Judite de Sousa, com humor, conseguiu terminar o debate.


Foi um bom debate, em que mais uma vez os programas eleitorais estiveram no centro das atenções. Em melhor forma, mais concreto, e mais conhecedor do programa do seu adversário, Paulo Portas esteve acutilante nos seus comentários. Venceu o debate, apesar de Louçã também ter estado em bom plano.

Paulo Portas esteve muito bem e muito confiante. Preparou o debate, conhecia o programa do BE, e soube jogar com os argumentos de Louçã. Em balanço, esteve sempre melhor que Louçã, tanto na apresentação das propostas como na resposta aos ataques do seu adversário. Aquela insistência nas políticas sociais após a mudança de tema ficou-lhe mal.

Louçã esteve bem, mas não tão bem como contra Jerónimo e contra Ferreira Leite. Tentou limpar a sua imagem em algumas questões que debateu contra Sócrates, como as políticas sociais. Mas sendo os seus argumentos previsíveis, PP vinha preparado, e Louçã não conseguiu convencer que as suas propostas eram melhores.

Judite de Sousa esteve novamente muito bem. Sem dúvida, a melhor moderadora dos debates entre os três canais. Soube, hoje, ter punho firme quando Portas fugiu ao tema da Imigração, e quando já no fim os candidatos não permitiam o encerrar do debate.
publicado por Alexandre Homem Cristo às 21:56 | comentar | partilhar