Cavaco e a lei do aborto

Confesso que não sei bem que dizer deste post. Admiro no André Azevedo Alves a inteligência e o saudável desprezo pelo "politicamente correcto". Quando leio o Insurgente é, antes de mais, por causa dele. No referendo do aborto estivemos do mesmo lado, escrevendo ambos no Blogue do Não.
Mas há um tema em que discordamos sistematicamente: Cavaco Silva.
Nas presidenciais, apoiei Cavaco e acedi ao convite para colaborar no Pulo do Lobo, o blogue cavaquista. O André, como muitos outros liberais da blogosfera, absteve-se de fazer campanha pelo único candidato não socialista - com o argumento, (in)justamente, de que Cavaco é afinal um socialista soft. Na altura, tive oportunidade de dizer que achava isso um enorme erro. Continuo a achar o mesmo.
Agora, o André critica Cavaco Silva porque não enviou a lei do aborto, aprovada pelo Parlamento na sequência do refererendo, para fiscalização preventiva do Tribunal Constitucional. E conclui que a "batalha cultural" em que estamos empenhados "não passa por aqui".
Here we go again. Nunca percebi porque é que a mesma direita que tem tantos problemas em votar Cavaco, já não os tem para lhe exigir que defenda as suas causas.
Estou certo de que Cavaco votou "não" a 11 de Fevereiro. Basta ver os sinais subtis, mas bem claros: o seu director de campanha nas presidenciais, Alexandre Relvas, foi também o estratega da campanha do "não", e a sua filha apareceu em várias acções do "não". Pedir mais do que isto é não conhecer o nosso Presidente.
Porque há duas razões para Cavaco não ir mais longe.
A primeira é táctica: quer ser reeleito e fará o que lhe for possível para ter mais um voto do que Soares no segundo mandato, onde a aclamação, perdão, a vitória soarista foi esmagadora. Para isso, não pode tomar partido por um dos lados em assuntos que dividam fortemente os eleitores. É o caso.
A segunda razão é de princípio: Cavaco acredita sinceramente, ao contrário de Soares, que não deve haver divergências públicas entre órgãos de soberania, ou seja, entre o Presidente, o Governo e a Assembleia da República. E, portanto, não vê - como eu também não vejo - nenhuma razão séria para chumbar uma lei que foi aprovada em referendo por 60% dos votos expressos e no Parlamento por uma maioria de dois terços. Mesmo que não goste da dita lei.
Custa? Pois custa. Há muita coisa em democracia que me custa. Mas custar-me-ia muito mais não viver em democracia. E a "batalha cultural" em que estamos empenhados tem de contar com estes acidentes do terreno.
publicado por Pedro Picoito às 23:47 | partilhar