E isso não se admite (aos outros)

Uma das críticas comuns às últimas eleições directas no PPD-PSD relaciona-se com a ausência de alternativas no boletim de voto. Alegadamente existiria um conjunto de pessoas que estaria em condições (o que quer que isso queira dizer) de gerar candidaturas e alargar o portfolio da escolha. Estas pessoas terão pensado, telefonado, reunido e decidido pela não candidatura, surgindo o tal pecado capital. Na blogosfera, nos jornais, nas televisões e nos cafés surgiram todo o tipo de adjectivos, em quantidade e em força, como aliás é tradição, sobretudo a seguir aos acontecimentos e sobre os vencidos. Nessas alturas os observadores são todos muito bons e não têm receio de ser peremptórios. Mas há algo de doentio nesta pequena crueldade, neste prazer sádico que esta "opinião" retira da miséria alheia. Qualquer coisa mal resolvida. As críticas substantivas são livres e bem-vindas, mas o tom de quem se coloca num pequeno Olimpo opinativo requere aquilo que os anglo-saxónicos designam de "moral high ground". E quais são então as credenciais da turba linchadora? Um batalhão de jornalistas, académicos, profissionais diversos que trabalham para organizações propriedade do estado ou de outros privados. Pessoas cujos rendimentos ou são retirados do bolso do contribuinte para o seu ou derivam de troca de valor de capital humano com organizações idealizadas maioritariamente por outros, que então os incorporam mas em que a componente risco assumida é profundamente desequilibrada para o lado do accionista, para não dizer mesmo na sua totalidade. A turba linchadora olha para o mercado em que se situa e tem uma de duas hipóteses, arriscar e inovar liderando o seu projecto, ou observar com cuidado os players e tentar integrar-se num deles. Qual a percentagem da turba que opta pela primeira?

Diz-se que política e negócios são mundos distintos, mas por acaso as pessoas são as mesmas, e o seu padrão de decisão é transversal (excepto para quem tenha personalidades múltiplas). Infelizmente, como se viu, o partido reflectiu o país também naquilo que são os seus defeitos: a fuga ao risco, ao confronto, à exposição, a dificuldade em distinguir derrotas de Derrota e encarar as primeiras como passo incontornável na vida. O resultado desta matriz no partido é o que sê. No país também, e o que a turba esquece ou pretende dissimular é que a crítica que faz é a ela própria. Como diria o Doutor Soares, não é bonito. As pessoas devem ser condescendentes com os seus semelhantes.
publicado por Manuel Pinheiro às 13:55 | partilhar