Cultura de fachada (3)

O quarto museu que Isabel Pires de Lima quer inaugurar em 2008 é o do multiculturalismo, na estação do Rossio (em Lisboa). Aparentemente - porque a última notícia que li, no Público de 20 de Agosto, dava como certa a abertura do museu em finais do presente ano. Não vejo como.
Aliás, dos quatro cavaleiros do apocalipse museológico, este parece ser o mais misterioso. Vale a pena conhecer a sua paradigmática evolução, descrita aqui por Alexandre Pomar.
O eventual museu nasce para ocupar um espaço vazio. Literalmente. Terá sido Carmona Rodrigues a impedir que a Refer transformasse em escritórios parte da nova estação (em obras, recorde-se, desde que o túnel começou a abrir rachas, já nem sei porquê), invocando a história do lugar. Depois de várias hipóteses, entre as quais a do famoso Museu da Língua Portuguesa que foi parar a Belém, o Ministério da Cultura engendrou uma solução brilhante. Sendo 2008 o "ano europeu do diálogo intercultural" e sendo que na linha de Sintra moram muitos africanos, juntou as duas coisas.
A sério: é mesmo isto o que se lê nas entrelinhas da notícia. Pensando bem, é a solução perfeita. Mete a Europa, mete o diálogo, mete a interculturalidade (ou o que seja) e mete a estação. Só não lhe chamo ouro sobre azul porque seria uma imagem demasiado ariana. Vexas hão-de conceder-me, porém, que um museu assim nascido não corresponde a qualquer necessidade urgente da pátria. É apenas um remendo urbanístico coberto pelo manto diáfano do multiculturalismo. Que tem, no Rossio, a mesma função decorativa da lusofonia em Belém: um pretexto simpático para arrumar o jardim. E pela mesma razão. O favor do multiculturalismo ou da lusofonia assemelha-se aos "untaught feelings" (sentimentos pouco reflectidos, digamos assim) que, segundo Burke, caracterizam a nossa era demótica. O poder conta com eles para chegar ao coração das massas.
Mas há mais. De acordo com o Expresso (14/10/06), alugar os 900 m2 do tal espaço vazio à Refer custaria ao Ministério da Cultura cerca de 70 mil euros por mês.
Não sei se é verdade.
Não sei se é muito ou é pouco.
Sei que esse dinheiro dava para pagar um certo Tiepolo em ano e meio.
Adenda: Nos comentários, Alexandre Pomar informa que, afinal, já não vai ser feito um museu do multiculturalismo no Rossio, mas um centro de actividades sobre o multiculturalismo. Agradeço a notícia, que desconhecia por completo. O MC mudou de ideias em menos de seis meses. Suponho que se mantenha o preço a pagar por elas.
publicado por Pedro Picoito às 19:10 | partilhar