Domingo, 22.04.12

Fim do euro (29) Cláusula de dracma

O Banco Europeu de Investimentos (BEI) está a proteger-se da eventual saída da Grécia da zona do euro, incluindo cláusulas de dracma nos empréstimos recentes a empresas gregas. Esta cláusula refere-se não só à saída da Grécia, mas também a uma eventual desagregação da zona do euro.

 

Fontes do BEI sugerem que cláusulas de mudança de moeda serão incluídas em todos os contratos com países com programas de estabilização económica (Grécia, Irlanda e Portugal) e que serão gradualmente expandidas para todos os países do euro.

 

Quando a notícia nos tocar directamente, espero que algumas almas acordem para a realidade que nos espera a breve trecho.

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Quinta-feira, 19.04.12

Fim do euro (28) FMI alerta

No seu World Economic Outlook, o FMI inclui uma secção de riscos extremos (p. 17-18):

 

Several tail risks are hard to quantify but merit attention:

• The potential consequences of a disorderly default and exit by a euro area member [estão obviamente a falar da Grécia] are unpredictable and thus not possible to map into a specific scenario. If such an event occurs, it is possible that other euro area economies perceived to have similar risk characteristics [neste grupo, Portugal aparece à cabeça, para além de Espanha e Itália] would come under severe pressure as well, with a full-blown panic in financial markets and depositor flight from several banking systems.

 

Esta fuga de depósitos não deverá ocorrer apenas nos países periféricos, mas também em países cujos bancos estão muito expostos a esta dívida, como a França e a Alemanha.

 

Under these circumstances, a breakup of the euro area could not be ruled out. The financial and real spillovers to other regions, especially emerging Europe, would likely be very large. This could cause major political shocks that could aggravate economic stress to levels well above those after the Lehman collapse.

 

Estes alertas do FMI não são feitos por americanos loucos que querem ver a Europa no chão, uma teoria da conspiração muito estranha, porque o colapso do euro terá consequências gravíssimas para os EUA. Os dois cargos máximos do FMI, o de director executivo e principal economista, são actualmente ocupados por dois franceses, respectivamente, Christine Lagarde e Olivier Blanchard. 

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Quarta-feira, 28.03.12

Fim do euro (27) Bonança antes da tempestade

Nas últimas semanas tem havido uma acalmia generalizada, que parece ter trazido alguma complacência às autoridades europeias. No entanto, este recente optimismo parece claramente injustificado, como veremos.

 

Comecemos por situar as boas notícias recentes no contexto mais vasto da crise. Usemos para isso as taxas de juro de longo prazo, que são um dos mais interessantes termómetros da crise do euro.

 

Vejamos as taxas portuguesas, em Setembro de 2009, quando os problemas na Grécia ainda não se tinham manifestado. Antes da crise, as taxas de juro portuguesas estavam abaixo dos 4%, um nível que hoje nos parece de um outro planeta.

 

Com o desenrolar da crise na Grécia, as taxas portuguesas foram subindo atingindo um pico de 6,1% quando a Grécia pediu ajuda, em Maio de 2010, para voltarem a cair logo de seguida abaixo dos 5%, como se tudo se tivesse resolvido. Mas isto também foi sol de pouca dura, com a escalada dos juros a prosseguir ao longo desse ano, até atingir um novo máximo de 7%, em Novembro desse ano, por alturas do pedido de ajuda da Irlanda, quando se temeu, com toda a razão, que Portugal também precisasse de ajuda.

 

Após um ligeiro recuo, as taxas de juro portuguesas foram batendo sucessivos novos máximos, sempre acima dos 7%, valor que – da forma mais imprudente – o então ministro Teixeira dos Santos definiu como o patamar a partir do qual teríamos que pedir ajuda. Apesar disso, o governo adiou o pedido de ajuda até ao último momento, sendo hoje cada vez mais claro que provocou toda a oposição e o Presidente da República para ser demitido, para poder jogar a última carta que lhe sobrava: a vitimização.

 

Sócrates ainda teve a ilusão de que poderia adiar o pedido de ajuda para depois das eleições, mas em Abril houve uma nova subida descontrolada dos juros, que quase tocaram os 9%, o sinal definitivo de que Portugal precisava de ajuda externa.

 

A partir daí, os juros não deram tréguas, até porque se começou a falar num segundo pacote de ajuda à Grécia, que seria acordado em Julho, mas – pasmem! – só ficou concluído este mês. Portugal não seria a Grécia, mas estava perigosamente parecido, com os juros a tocaram quase nos 13%.

 

Após alguma calmaria, houve novos máximos dos juros portugueses em Novembro passado, já acima dos 13%, quando a Europa, e em particular a Itália, esteve a três passos do precipício. A promessa de uma cimeira “decisiva” no início de Dezembro viria a acalmar os mercados, mesmo se os resultados deste encontro foram escassíssimos.

 

Já em 2012, as incertezas sobre a resolução do segundo pacote de ajuda à Grécia, com os inevitáveis contágios ao nosso país levaram as taxas de juro portuguesas a fixar novos máximos, quase nos 18%. Graças à intervenção do BCE, como já tinha acontecido antes, as taxas voltaram a cair para os 12%, tendo posteriormente flutuado entre este valor e os 14%. 

 

Julgo que já conseguiram detectar o padrão da evolução dos juros de longo prazo: sobem para máximos, depois aliviam um pouco, até que batem novos máximos. Os juros vão flutuando, mas em torno de um patamar que está sempre a subir. Um outro elemento a salientar é que os juros sobem em Portugal muitas vezes devido a perturbações no exterior.

 

Depois de descrito este enquadramento vejamos afinal o que se celebra por estes dias. A taxa de juro de longo prazo da dívida portuguesa baixou de 14% em meados de Março para um valor ligeiramente acima dos 12%. Ou seja, não estamos sequer com os melhores valores de 2012 e pior ainda se comparados com os anos anteriores.

 

Porque é que acredito que isto é uma mera bonança antes da tempestade? Em primeiro lugar, porque os graves problemas estruturais do euro continuam intactos, não justificando o recente optimismo. Em segundo lugar, porque a probabilidade de a Grécia sair do euro nos próximos meses é muito elevada e os riscos de contágio a Portugal são elevadíssimos.

 

[Publicado no jornal “i”]

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Segunda-feira, 26.03.12

Fim do euro (26) “Proibido a tsunamis”

Muitas discussões em torno do fim do euro em Portugal partem do princípio que ainda podemos ponderar se vamos sair ou ficar, quando esse ponto já foi ultrapassado há muito.

 

Há ainda quem tenha a ilusão de que o fim do euro terá que ser uma coisa anunciada com muita antecedência, para que haja todo o tempo do mundo para fazer os preparativos. Dizem estes que “não pode ser” num fim-de-semana, sem aviso prévio.

 

Experimentem colocar numa praia uma placa a dizer “Proibida a entrada a tsunamis”. Estão a imaginar o tsunami a aproximar-se da areia, a ler na tabuleta e a ficar raladíssimo com a hipótese de ter de pagar uma coima? Então, vou ter de ir à loja do cidadão!? Já da última vez que lá fui foi uma chatice: saí para fumar um cigarro e perdi a vez. Ainda por cima nem era aquele o guichet. Depois, os impressos para pedidos de autorização de marés vivas estavam esgotados e foi uma maçada. Nem o cartão do cidadão funcionava!

 

Lembrando-se da sua anterior experiência, para além do dinheiro da coima, que ele não tinha, o tsunami lá meteria o rabinho entre as pernas e retirar-se-ia, deixando a praia incólume.

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Sábado, 17.03.12

Fim do euro (25) FMI avalia possível saída da Grécia do euro

O FMI publicou ontem um relatório sobre a extensão do pedido de ajuda da Grécia, que contém uma caixa sobre o “impacto económico da saída do euro” deste país (p. 46-47).

 

Esta análise prevê uma forte desorganização do país e um agravamento da recessão corrente, com uma nova queda do PIB da ordem dos 10%.

 

O mais interessante para nós, portugueses, é o último parágrafo desta caixa, que passo a traduzir: “As percepções do mercado sobre a estabilidade da área do euro sofreriam e os investidores atribuiriam uma maior probabilidade à possibilidade de saídas adicionais do euro (que um muro de protecção eficaz poderia mitigar, mas não eliminar). Para além disso, o uso de instrumentos grosseiros para gerir a saída do euro, tal como o congelamento de depósitos e controlos de capitais, poderia assustar depositantes e investidores em outros países fracos da área do euro, produzindo corridas preventivas aos depósitos e fugas de capital. Para além disso, a redução da alavancagem dos bancos, para reduzir riscos, poderia conduzir à auto-concretização de crises em países vulneráveis, com efeitos dominó em outros.”

 

Como é óbvio, o primeiro país a sofrer com a saída da Grécia seria Portugal. Apesar de tudo, a saída dos gregos ainda se pode produzir com algum tipo de organização de ou forma totalmente caótica. As eleições gregas foram de novo adiadas, desta feita para início de Maio, mas as sondagens continuam a apontar para que o parlamento seja dominado por partidos que estão contra as condições da ajuda externa.

 

Espera-se que o actual governo de Papademos esteja a preparar tudo (notas e moedas, sistemas de pagamento, legislação, etc.) para que o país, que pode ficar ingovernável depois das eleições, possa sair do euro de forma relativamente organizada.

 

Por outro lado, também pode não haver, ou não haver suficiente, trabalho de casa para sair do euro. Nesse caso, uma Grécia sem governo (os partidos que estão contra a ajuda não se entendem entre si) deixa de cumprir as condições da ajuda, vê os fundos cortados, entra de novo em bancarrota, deixa de conseguir pagar aos funcionários públicos e pensionistas, sente a irresistível tentação de voltar a ter moeda própria, que pode emitir sem limite, o que lhe permitirá voltar a pagar todas as despesas internas.

 

O problema é que, sem o trabalho de casa feito, a saída do euro será muitíssimo mais caótica e terá efeitos de contágio muito mais graves, em particular para Portugal. Por tudo isto, durante os próximos meses devemos estar com a máxima atenção ao que se passa em Atenas. 

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Quarta-feira, 14.03.12

Fim do euro (24) Dívida externa

Para além da dívida pública, Portugal também tem uma elevada dívida externa líquida (104% do PIB no final de 2011), mais elevada do que a grega.

 

A dívida externa apresenta duas diferenças muito substanciais em relação à dívida pública, que dificultam em muito a sua redução no quadro do euro. A primeira diferença é que a dívida pública tem um único devedor claríssimo – o Estado português – e credores variados, mas que conhecem a quem se devem dirigir. A dívida externa líquida é um conceito muitíssimo mais difuso, que se calcula a partir um amontoado de deves (passivos) e haveres (activos) entre os quais não há uma relação directa.

 

Na rubrica do investimento directo temos o investimento feito em Portugal (passivos, como o caso da Autoeuropa) e o investimento feito por empresas portuguesas no exterior (activos, como o caso dos supermercados da Jerónimo Martins na Polónia).

 

Há também as participações dos estrangeiros em empresas portuguesas (EDP, BCP, Cimpor, etc.), que são passivos sobre o exterior, como que uma dívida, embora não se tenha que pagar. É muito relevante porque mostra o muito que já vendemos ao exterior, muito mais do que a Grécia, o que significa que o que sobra para vender é já muito pouco. Isto para não falar no problema da perda de centros de decisão, que nos últimos tempos tem sido imparável. Há também acções de empresas estrangeiras detidas por empresas portuguesas, mas são muito menos significativas.

 

Há finalmente as maiores dívidas, que são a parte da dívida pública portuguesa que está nas mãos de estrangeiros e a dívida dos bancos portugueses ao exterior.

 

A segunda diferença importante entre a dívida pública e a dívida externa reside na disponibilidade de instrumentos para a sua correcção. No caso da dívida pública os instrumentos para a sua redução estão perfeitamente identificados – a redução da despesa pública e o aumento de impostos – e produzem resultados de forma relativamente eficaz, embora a sua eficácia esteja relativamente diminuída pelo cenário recessivo que atravessamos.

 

No caso da dívida externa, o instrumento mais eficaz para a sua correcção – a desvalorização – não está disponível dentro do euro. Sobram instrumentos difíceis de aplicar e não isentos de problemas (como a moderação salarial ou mesmo a redução de salários), instrumentos indirectos (como a redução da despesa pública que reduz a procura interna e, deste modo, as importações), instrumentos originais ainda não testados (como a redução da TSU) e instrumentos difusos de resultados incertos, que pretendem aumentar a competitividade (como a reforma laboral; a redução de custos de contexto, na burocracia e justiça; e a redução de custos gerais das empresas, em particular na energia, nos transportes e telecomunicações).

 

A propósito, a demissão do Secretário de Estado da Energia é uma péssima notícia a vários títulos. Em primeiro lugar, revela que mesmo no período de maior crise o poder dos lobbies de extrair rendas ao Estado, leia-se aos contribuintes, se mantém intocado. Em segundo lugar, revela que o ministro das Finanças preferiu ganhar um pouco mais no imediato na receita de privatização da EDP, do que a criar condições de prosperidade para a generalidade das empresas a médio prazo. Em terceiro lugar, significa que a melhoria da competitividade e a redução da dívida externa ficaram mais difíceis.

 

Tudo isto nos conduz à desagradável conclusão que numa das matérias mais graves – a dívida externa – as soluções duradouras escasseiam. É certo que o défice externo está a registar uma redução abrupta, mas isso deve-se muito mais à queda brutal da procura interna do que à melhoria da competitividade. Por isso, estes resultados podem não ser sustentáveis e assistirmos a um novo agravamento da dívida externa a médio prazo. 

 

[publicado no jornal "i"]

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Sexta-feira, 09.03.12

Fim do euro (23) Preço das acções

Os preços das acções também devem ser altamente afectados pela saída do euro, mas aqui não há regras simples para os preços, mas apenas para certas componentes. Há aqui duas distinções importantes a fazer.

 

A primeira distinção a fazer é entre os lucros obtidos em Portugal e os obtidos no exterior. Muitas empresas do PSI-20 já têm operações muito significativas no exterior. O exterior deverá ser distinguido entre vários grupos de países. Um primeiro grupo, com moedas mais ou menos indexadas ao dólar (como o Brasil), que deverão valorizar-se face ao euro e, por maioria de razão, em relação à nova moeda portuguesa.

 

Um segundo grupo, de países que quase de certeza que acompanharão a saída de Portugal do euro, como a Espanha. Um terceiro grupo de países que, não pertencendo ao euro, estão sob a área de influência desta moeda, do lado dos fracos, como é o caso da Polónia. É quase certo que a Polónia deverá assistir a uma depreciação da sua moeda, caso os países do Sul da Europa saiam do euro. Há também um quarto grupo de países, correlacionados com a parte forte do euro, como a Dinamarca, a Noruega, a Suécia e a Suíça.

 

Finalmente o quinto grupo seria constituído pelos países sem uma relação clara quer com o dólar, quer com o euro, mas frente a cujas moedas o novo escudo se deverá depreciar. A nova moeda portuguesa talvez não se deprecie muito face ao segundo e terceiro grupos referidos, mas em relação aos outros grupos deverá depreciar-se de forma significativa.

 

A segunda distinção importante a considerar é a existente entre os lucros das actividades em Portugal que se destinam ao mercado nacional e as que se destinam à exportação ou são substitutas de importações. Há aqui um esclarecimento a fazer, para evitar confusões, entre operações fora de Portugal e operações em Portugal destinadas à exportação. Uma fábrica na Tunísia ou um serviço de distribuição na Polónia são actividades abrangidas pela primeira distinção, já referida.

 

Uma fábrica de cortiça em Portugal, que exporta para os EUA, é abrangida nesta segunda distinção. Em geral, os lucros das exportadoras portuguesas deverão subir drasticamente, excepto no caso de empresas muito endividadas, que deverão ver os seus custos financeiros explodir. Infelizmente, a esmagadora maioria das empresas cotadas não é exportadora.

 

As empresas que trabalham para o mercado interno vão ver as suas condições deteriorarem-se fortemente, quer pela redução drástica do poder de compra dos portugueses, quer pelo agravamento das condições de financiamento. Por isso, as suas cotações deverão sofrer grandes perdas.

 

No caso de grandes conglomerados, como a Jerónimo Martins e a Sonae, é previsível que façam o caminho inverso ao que fizeram com a entrada no euro. Então, as actividades industriais perderam peso, tendo as actividades comerciais ganho protagonismo. Agora deverá ocorrer o inverso, o que lhes dá margem de manobra para se adaptarem às novas condições.

 

A banca é um sector que exige uma análise específica. Desde logo, tem que se admitir que os bancos portugueses têm participações significativas em empresas que não têm rigorosamente nada a ver com o negócio bancário, como é o caso do BES na PT. Para além disso, alguns bancos portugueses têm inúmeros negócios bancários fora de Portugal.

 

Mas o risco principal – de que é obrigatório falar – é que uma má gestão da saída do euro pode levar à falência dos maiores bancos portugueses. Insisto neste ponto: não tem que ser assim, mas pode acontecer, se não forem tomadas as devidas precauções. Os bancos podem não desaparecer, se o Estado português os nacionalizar, mas o valor das suas acções pode descer para zero. Neste momento as acções dos bancos portugueses apresentam já o maior risco de todos e não surpreende que alguns deles tenham visto as suas cotações descer para valores próximo de 10% do seu valor nominal. 

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Quinta-feira, 08.03.12

Fim do euro (22) Crash imobiliário

Como vimos no caso das obrigações a taxa fixa, a sua cotação vai baixar fortemente por dois motivos: 1) porque as taxas de juro vão subir muito; 2) porque vai haver uma desvalorização significativa.

 

Em princípio o imobiliário teria uma vantagem sobre as obrigações a taxa fixa, no sentido em que o preço final não está fixo, mas subiria, em geral, pelo menos em linha com a inflação.

 

Mas não vamos atravessar tempos normais e o preço do imobiliário não vai acompanhar, de maneira nenhuma, a evolução da inflação. Haverá inúmeras pressões que conduzirão a uma baixa muito significativa daqueles preços. Antes de mais, convém esclarecer que já nos encontramos numa zona de clara diminuição do valor do imobiliário, que já atingiram cerca de 20% em certas zonas do país, nomeadamente no Norte. Mesmo em Lisboa as habitações mais baratas já caíram 17% face ao seu máximo (INE).

 

As empresas imobiliárias estão a queixar-se de que os bancos estão a fazer concorrência desleal, oferecendo imóveis a preços baixíssimos, mas a verdade é que os bancos estão a fazer o mercado imobiliário descer à realidade.

 

Quem está a entregar mais casas aos bancos, que se apressam a vendê-las, não são famílias em dificuldades, mas promotores imobiliários que não conseguem vender as casas cuja construção encomendaram. Há promotores que ainda não entregaram as suas casas por vender, mas quando os juros dispararem, para valores de, digamos, 15%, pouquíssimos poderão ficar à espera de melhores dias. Haverá então uma pressão vendedora avassaladora.

 

Há depois aqueles que querem comprar casa para viver. Mas, com a subida drástica das taxas de juro, eles não terão qualquer hipótese de comprar casa, a menos que o preço das casas desça de forma dramática.

 

Há, por fim, aqueles que compram casas para alugar. Tendo em atenção a subida drástica dos juros dos depósitos, a única forma de eles permanecerem no mercado, é um aumento, também muito expressivo, das taxas de remuneração deste investimento. Dada a impossibilidade económica de subida das rendas, a única forma de conseguir isto é através de uma descida brutal do preço das casas.

 

Ou seja, o mercado imobiliário sofrerá pressões de todos os lados, para uma queda drástica dos preços das casas, provavelmente superior a 50%. As segundas habitações e as casas nos subúrbios menos interessantes deverão sofrer perdas ainda maiores. Quando a crise chegar em força, as segundas habitações (que atingiram um número muito elevado) serão um dos encargos a abater, pelo que o mercado será inundado destes imóveis.

 

Em Portugal tem havido sempre uma inércia muito grande no ajustamento do preço das casas, argumento que é repetidamente ventilado. No entanto, a inflação que se vai seguir à introdução da nova moeda vai ajudar em muito a concretizar este ajustamento.

 

Imaginemos o caso de uma habitação que está hoje à venda por 100 mil euros num subúrbio desinteressante de Lisboa. A depreciação de 20% (um exemplo) da nova moeda provocará logo um rombo significativo no preço, que não poderá subir acima dos 100 mil novos escudos. Mesmo assim o vendedor não consegue vender. Passam-se dois anos, com uma inflação média de 12%, e o preço de venda mantém-se. Ao fim desse tempo, a queda do preço do andar, em termos reais, já é de 36%. Se o vendedor persistir em não baixar o preço nominal de venda, ao fim de quatro anos a perda real já seria de 49%.

 

Os vendedores de imobiliário podem persistir na inércia de não baixar o preço de venda, mas a inflação vai-se encarregar de forçar o ajustamento, em termos reais. Quem é que ainda acredita que não vai haver um crash imobiliário depois de sairmos do euro? Julgo que não estarei a exagerar se prever que o mercado imobiliário terá uma década muito negativa à sua frente.

 

Mesmo dentro do euro as perspectivas são muito negativas. Portugal não teve uma bolha imobiliária nos preços, mas teve-a na quantidade de construção, que se encontra vazia na ordem das centenas de milhar. Os preços das casas não puderam subir porque os rendimentos estão estagnados há uma década, mas existe um brutal excesso de oferta. Em resumo, quem imagina que agora não é boa altura para vender está muito enganado, porque daqui a um ano vai ser pior e nos anos seguintes a deterioração dos preços deverá prosseguir.

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Quarta-feira, 07.03.12

Fim do euro (21) Incumprimento da dívida pública?

São cada vez mais as vozes que recomendam que Portugal restruture a sua dívida pública. Será possível Portugal escapar a esta restruturação? Antes de mais convém esclarecer que, apesar da palavra “restruturação” soar bem, ela é uma versão mais ou menos suave (dependendo dos termos negociados) de incumprimento da dívida, algo que tem consequências graves.

 

Perguntar se Portugal precisa de restruturar a dívida pública é equivalente a perguntar se esta dívida é sustentável. Há quatro dados relevantes para aferir da sustentabilidade da nossa dívida pública: o actual nível da dívida, “a” taxa de juro, o potencial de crescimento da economia portuguesa e o saldo orçamental necessário para garantir a sustentabilidade, dadas as restantes condições.

 

O actual nível da dívida é elevado (110% do PIB) e não é susceptível de ser alterado imediatamente. O potencial de crescimento é muito baixo (talvez inferior a 1%), poderá ser aumentado através das reformas estruturais em curso, mas os resultados são incertos, só poderão ser obtidos a médio prazo e muito dificilmente poderão alterar de forma radical as condições de sustentabilidade da dívida. Conseguir aumentar este potencial de crescimento para valores entre 2% e 2,5% seria um resultado excelente, mas isso seria muito difícil de conseguir dentro do euro e nem isso alteraria de forma significativa a sustentabilidade da dívida.

 

Em termos de taxa de juro da dívida é que há margem para melhorias substanciais, que poderão ser obtidas através da negociação com a troika. Há aqui dois aspectos a negociar. Por um lado, Portugal deveria pedir para beneficiar de taxas de juro de médio prazo mais baixas, como a Grécia conseguiu recentemente. Por outro lado, em relação às taxas de juro de curto prazo, não faz sentido que Portugal pague mais do que a taxa de referência do BCE, que está actualmente em 1% e que pode vir a baixar no futuro próximo.

 

Aqui há claramente margem para obter melhorias, sendo importante salientar que conseguir a redução da taxa de juro em um ponto percentual tem efeitos equivalentes a conseguir aumentar o potencial de crescimento em um ponto percentual, quando este segundo efeito é muitíssimo mais difícil de concretizar.

 

Alguns argumentarão que estou a sugerir o caminho fácil. Em primeiro lugar, quero enfatizar que isto não nos dispensaria de fazer as reformas estruturais que poderão aumentar o nosso potencial de crescimento, apenas nos libertaria de estarmos tão dependentes de algo que tem um impacto tão difuso, incerto e do qual só poderemos esperar resultados a médio prazo. Em contrapartida, a renegociação das taxas de juro poderia ter um efeito imediato, concreto e facilmente mensurável.

 

Em segundo lugar, é importante chamar a atenção para o facto de que o eventual fracasso da ajuda a Portugal, espelhado na necessidade de restruturar a dívida pública, não afectar apenas o nosso país. O fracasso da ajuda à Grécia é também um fracasso da troika e ter mais um resultado desastroso seria péssimo para todos os envolvidos. É do máximo interesse da troika que a ajuda a Portugal tenha condições que contribuam para o seu sucesso e não que sejam mais uma hecatombe adiada.

 

O que estou a propor em concreto? Pedir à troika para podermos ter financiamento até três anos, tal como o BCE concede aos bancos e nas condições em que o concede, mas que este dinheiro venha do fundo europeu do ajuda e não do BCE. Para não sairmos completamente do mercado, poderíamos continuar a pedir emprestado fundos no curto prazo em apenas, digamos, 20% das necessidades.

 

[Publicado no jornal “i”]

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Segunda-feira, 05.03.12

Fim do euro (20) Bundesbank aflito com fim do euro

Wolfgang Münchau publica hoje mais um importante artigo no Financial Times, em que considera que o Bundesbank não tem razões para se mostrar surpreendido com os seus problemas actuais, que decorrem da acumulação sucessiva de superavits externos da Alemanha.

 

O Bundesbank emprestou 500 mil milhões de euros ao Eurosistema (composto pelo BCE mais os restantes bancos centrais nacionais do euro) e começou a ficar nervoso, com medo que um colapso do euro coloque estes fundos em risco. Um colapso súbito do euro pode trazer perdas ao Bundesbank de cerca de 20% do PIB alemão.

 

O presidente do Bundesbank veio propor que estes créditos sejam titularizados, com colateral, isto é, com garantias reais sobre, digamos, imobiliário na Grécia e Espanha. Num momento alto do artigo, Münchau escreve que, já agora, o dirigente alemão poderia ter sugerido enviar a Luftwaffe para resolver a crise do euro.

 

Mas o mais importante vem a seguir: ao procurar um seguro tão extremo o Bundesbank está a dizer-nos que não considera que o fim do euro seja um evento com probabilidade zero de ocorrer. E se o Bundesbank está a procurar um seguro contra o fim do euro, então todos nós o deveríamos fazer também.

 

Este artigo, que aqui resumi, vem relembrar-nos que a crise do euro continua sem solução à vista, ou, melhor dizendo, que a resolução da crise pode dar-se com o fim do euro.

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Sexta-feira, 02.03.12

Fim do euro (19) Barcos salva-vidas

Estamos no meio de uma forte tempestade e o capitão do barco onde vamos, o governo, tem vindo a dizer-nos que não só não iremos precisar de usar os barcos salva-vidas, como nem sequer é necessário termos barcos salva-vidas no navio.

 

Quais são os barcos salva-vidas que devemos ter? Em primeiro lugar, todos os bancos devem ter os sistemas informáticos já preparados – e testados – para fazer a mudança de moeda num fim-de-semana.

 

Em segundo lugar, é necessário imprimir novas notas e cunhar novas moedas e distribuí-las já por todas as agências bancárias do país.

 

Um governo deve desejar o melhor, mas estar preparado para o pior. O actual governo parece que só está preparado para o melhor ou, talvez, para o assim-assim. Caso Portugal seja apanhado de calças na mão e se instalar um caos tremendo com a saída do euro, temo que uma das primeiras vítimas seja o próprio governo, cuja imprevidência terá agravado muitíssimo o sofrimento de todos. 

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Quinta-feira, 01.03.12

Fim do euro (18) Resultados da votação

A 28 de Janeiro coloquei aqui no blog uma votação sobre o nome da nova moeda, que terminou ontem. A votação inicial revelou-se muito abaixo do número de visitantes do blog, mas lá foi subindo. Nas primeiras semanas, o “luso” esteve num claríssimo primeiro lugar, seguido do “novo escudo” e do “cruzado”.

 

No entanto, a 9 de Fevereiro o texto “Os Piratas das Canavilhas (II)” recebeu uma chamada de atenção no Sapo, o que catapultou o número de visitas ao blog, dos habituais valores à volta dos 1500 visitantes diários para quase 18 mil. Estes clientes não habituais mudaram a votação por completo, fazendo subir imenso o número de votos e passando a dar a primazia ao “novo escudo”. Mesmo assim, o “luso” acabou em segundo lugar, com 29% dos votos, não muito longe dos 36% do “novo escudo”, de um total de 2020 votos.

 

O terceiro lugar foi para a “pataca”, com 14%, que coloquei devido à expressão muito positiva de “árvore das patacas”. O “cruzado”, nome que tinha sugerido anteriormente e que suscitou tanta controvérsia que acabou por provocar a criação desta votação, ficou-se pelo quarto lugar, com apenas 11%. Finalmente, o quinto lugar foi para o “real” (8%) e o sexto lugar para a “dobra” (3%).

 

Aproveito a oportunidade para agradecer a todos os votantes e a partir de agora vou passar a referir-me à nova moeda portuguesa, que deverá entrar em circulação ainda em 2012, como “novo escudo”, por respeito para com os resultados desta votação.

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Quarta-feira, 29.02.12

Fim do euro (17) Nova ajuda a Portugal

Têm-se multiplicado os comentários sobre se Portugal precisa de um novo pacote de ajuda. Do lado das autoridades, portuguesas e europeias, o discurso é que uma nova ajuda não é necessária, mas isto é muito mais uma mensagem política do que uma análise objectiva da situação.

 

O segundo pacote de ajuda à Grécia foi genericamente aprovado a 21 de Julho do ano passado, mas só há muito pouco tempo é que os termos da ajuda foram definidos e, mesmo assim, de forma ainda não completamente conclusiva. Talvez mesmo só depois das eleições legislativas de Abril é que possa haver fumo branco e isto se os resultados eleitorais não forem de acordo com as últimas sondagens, que indicam que a Grécia se pode tornar ingovernável a partir daí.

 

Como é óbvio, a última coisa que a crise do euro precisa é que se comece já a discutir uma nova ajuda a Portugal. Os fracassos da ajuda à Grécia são demasiado evidentes, pelo que assumir mais um descalabro, desta feita em Portugal, provocaria um contágio muito para além do nosso país, algo a evitar a todo o custo.

 

No entanto, uma análise objectiva da situação portuguesa conduz à conclusão de que será necessário um novo pacote de ajuda, embora esta necessidade deva ser desdramatizada.

 

O actual pacote de ajuda prevê que em meados de 2013 Portugal possa voltar aos mercados e deixe de precisar de auxílio. No actual contexto, esta condição parece totalmente irrealista. Mesmo que Portugal cumpra todos os requisitos – uma hipótese heróica – é altamente improvável que possamos regressar aos mercados tão cedo.

 

Na versão mais benigna, Portugal enfrentará uma recessão mais profunda do que o previsto, o que implicará um défice mais elevado do que o previsto, mas as necessidades de financiamento poderão manter-se se se conseguirem receitas extraordinárias em 2012 ou se conseguirem maiores receitas das privatizações.

 

Genericamente, não se recomenda a venda das jóias de família para financiar despesas correntes, mas se estas despesas forem de alimentação, estaremos perante um mal menor. Em 2012 enfrentamos uma situação semelhante a esta. A recessão maior do que o esperado e o facto de no ano passado não termos diminuído o défice de forma estrutural torna a meta orçamental do corrente ano quase impossível de alcançar. No entanto, se conseguirmos receitas extraordinárias que permitam respeitar as necessidades de financiamento negociadas com a troika, estaremos a cumprir parte das nossas obrigações.

 

Se não pedirmos mais dinheiro, mas apenas ajuda durante mais tempo, isso poderá ser encarado com enorme benevolência, como o ministro das finanças alemão já deu a entender.

 

Mesmo que precisemos de mais dinheiro, isso também poderá ser olhado com alguma bonomia se as necessidades adicionais resultarem exclusivamente de uma recessão mais profunda do que o inicialmente antecipado, devido à recessão europeia.

 

Neste momento estima-se que os fundos disponíveis para emprestar a Portugal e aos outros países em dificuldades sejam aumentados para 500 mil milhões de euros a partir de Julho. Os líderes europeus têm vindo a dizer que agora estamos mais fortes, mas o G20 insistiu com os países europeus para que estes reforcem o FEEF e o seu substituto, o MEE. 

 

É um pouco chocante que sejam os países do G20 a ter uma visão mais lúcida sobre as necessidades para enfrentar a presente crise do euro. E é também muito irónico que, se os fundos acessíveis ao FEEF fosse muito aumentados, talvez não fosse sequer necessário usá-los.

 

De momento, a oposição alemã a este reforço do FEEF já fez abortar a reunião prevista para esta sexta-feira. Com tantas falsas partidas é muito estranho que os líderes europeus se tenham convencido que estão agora mais fortes e que a crise está controlada.

 

[Publicado no jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 18:38 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sexta-feira, 24.02.12

Fim do euro (16) Obrigações a taxa fixa

Vou finalmente retomar a subsérie de posts sobre a queda dos preços dos activos. As obrigações a taxa fixa são o exemplo mais fácil para se perceber porque é que uma subida das taxas de juro leva a uma queda do seu preço.

 

Vou fazer algumas simplificações para tornar a explicação mais acessível, inicialmente ainda no contexto do euro. Vamos considerar o caso mais simples, o de uma obrigação com o prazo de um ano. Imaginemos uma obrigação com o valor nominal de 100 euros e que paga um cupão anual fixo de 5%. Isto significa que ela paga um juro de 5 euros ao fim de um ano, mais o capital de 100 euros, totalizando 105 euros.

 

Suponhamos que há um aumento súbito das taxas de juro de mercado a um ano, de 5% para 15%. Então ninguém estaria disponível para continuar a pagar 100 euros por esta obrigação. A única forma de garantir compradores é que a cotação desta obrigação descesse para 91,30€. Se fizerem as contas verificarão que se pagarmos 91,30€ agora e recebermos 105€ daqui a um ano, estaremos a receber uma taxa de juro de 15%.

 

Suponhamos agora que as taxas de juro subiam, não para 15%, mas para 20%. Nesse caso a cotação daquela obrigação teria que cair para 87,50€. Podem fazer as contas de novo e verificar que uma cotação de 87,50€ assegura a nova taxa de juro de 20%. Como verificamos deste exemplo, quanto mais subirem as taxas de juro mais cairão os preços das obrigações.

 

Façamos agora uma outra simulação. Vamos manter a subida dos juros de 5% para 15% e verificar o seu impacto na cotação de diferentes obrigações, com prazos crescentes. Como já vimos, uma obrigação a um ano veria o seu preço descer de 100€ para 91,30€. Para uma obrigação a 2 anos as perdas seriam necessariamente maiores, mais exactamente para 83,74€. A verificação destes cálculos é um pouco mais complicada e não a vou detalhar aqui.

 

Por maioria de razão, quanto maior o prazo, maiores as perdas. Uma obrigação a 5 anos veria o seu preço baixar para 56,55€ e uma obrigação a 10 anos sofreria perdas muito superiores, passando a ter uma cotação de apenas 30,30€.

 

Se considerarmos agora a saída do euro, teremos dois efeitos a diminuir fortemente as cotações das taxas de juro a taxa fixa. Em primeiro lugar, a depreciação de valor, devido à mudança de moeda. Em segundo lugar, a perda de valor associada à subida das taxas de juro, detalhada neste post.

publicado por Pedro Braz Teixeira às 14:58 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Quarta-feira, 15.02.12

Fim do euro (15) A queda da Grécia

Se quisermos ter uma visão abrangente, teremos que reconhecer que a crise do euro se iniciou há mais de vinte anos, quando os parceiros europeus exigiram como condição para aceitarem a reunificação alemã, que este país prescindisse do marco alemão. A Alemanha aceitou essa exigência, mas também colocou condições, nomeadamente que nunca haveria qualquer tipo de ajuda a um país em dificuldades.

 

Da negociação europeia que conduziu à criação do euro surgiu todo um outro conjunto de fragilidades estruturais, para além da ausência de um orçamento significativo, imposto pela Alemanha.

 

Para além dos problemas estruturais, foi-se permitindo a acumulação de problemas, como os défices externos, que as regras existentes defendiam que não deveriam existir.

Permitiu-se inclusive que os Estados membros fornecessem informação falsificada, como foi o caso da Grécia e também o de Portugal (em 2001).

 

A crise do euro no seu sentido restrito iniciou-se após as eleições legislativas na Grécia, em Outubro de 2009, após as quais o novo governo do PASOK revelou a falsificação das contas públicas levada a cabo pelo anterior governo, tendo a estimativa de défice para esse ano subido inicialmente para 12,7% do PIB, posteriormente revisto para 15,8% do PIB.

 

É importante relembrar que a Grécia só conseguiu entrar no euro porque prestou declarações falsas sobre as suas contas públicas e os parceiros europeus nada fizeram para impedir a repetição deste facto, o que permitiu a “surpresa” de 2009.

 

A partir daí a Grécia tem liderado a crise do euro quase o tempo todo, tendo sido o primeiro país a pedir uma primeira ajuda, o primeiro a ver os seus programas de austeridade agravados, o primeiro a fazer uma restruturação da dívida (leia-se, a não honrar as suas dívidas), o primeiro a pedir um segundo pacote de ajuda.

 

A renegociação da dívida foi dificílima e chegar a acordo sobre uma nova assistência financeira ainda custou mais. Após uma maratona negocial em que parecia que tudo já estava resolvido, eis que os parceiros europeus insistem em que ainda falta esclarecer 325 milhões de euros de cortes. Julgo que é muito importante tomar consciência que este montante final representa apenas 0,15% do PIB grego (de 2011). Os gregos tiveram uma dificuldade brutal em conseguir fazer aprovar o novo pacote de austeridade e os negociadores europeus mantiveram uma inflexibilidade e insensibilidade total, exigindo o cumprimento das condições impostas, sem a menor margem de manobra.

 

Esta dificuldade grega e esta intransigência da troika é um terrível prenúncio de catástrofe. É possível que a nova ajuda ainda chegue a tempo para a amortização da dívida que deve ocorrer a 20 de Março, mas qualquer contratempo futuro pode despoletar o desastre.

 

Haverá novas eleições legislativas em Abril e as sondagens apresentam resultados muito preocupantes. Os partidos à esquerda dos socialistas do PASOK, que se opõem à ajuda externa, têm vindo a ganhar peso, estando próximos da maioria.

 

Se a extrema esquerda passasse para o poder iniciar-se-ia um processo de albanização da Grécia, começando logo com a saída do euro. Mas estes partidos não se entendem entre si, pelo que será impossível constituírem uma coligação de governo. E se os outros partidos precisarem dos deputados dos partidos mais à esquerda para conseguirem uma maioria? Como conseguir o apoio para aplicar medidas de austeridade de partidos cujo inédito sucesso eleitoral se deve à oposição a essas mesmas medidas?

 

Em resumo, é altamente provável que as eleições da primavera produzam um país ingovernável. Parece que nenhum governo será capaz de cumprir as condições de ajuda externa e chumbe logo nos primeiros exames trimestrais. Quando isso acontecer, a ajuda será interrompida e a Grécia deixará de pagar a sua dívida e será forçada a sair do euro.

 

Os líderes europeus estão convencidos que vão conseguir suster o contágio da saída da Grécia a outros países, em particular a Portugal, mas, dado o cadastro destes dirigentes políticos durante os dois últimos anos, é melhor não nos fiarmos na Virgem…

 

[Jornal “i”]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 16:15 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Sexta-feira, 10.02.12

Fim do euro (14) Análise positiva versus normativa

As caixas de comentários desta série têm várias confusões entre análise normativa e análise positiva, talvez porque eu não esteja a fazer uma distinção suficientemente clara entre elas.

 

Quando um médico diz que, a continuar a alimentação que tem seguido, o colesterol vai aumentar, está a fazer análise positiva, sobre como as coisas são, independentemente do que pensamos sobre elas. Quando o médico recomenda que deixe de comer queijo da serra e outro tipo de produtos que aumentam o colesterol é que está numa atitude normativa, de recomendação sobre como as coisas deveriam ser.

 

Quando falo no fim do euro, escrevo-o numa análise positiva, no sentido que falei acima (por amor de Deus, não venham com a confusão de dizer que eu acho que o fim do euro é uma coisa positiva!). Prevejo que o euro deixe de ser a moeda portuguesa em 2012, independentemente de também achar que isso vai trazer gravíssimos problemas económicos e sociais. Apesar de achar que o fim do euro será uma calamidade, considero que a falta de decisões dos líderes europeus vai levar ao fim do euro em Portugal. Posso estar certo ou errado, mas é uma afirmação no plano positivo, não é uma recomendação.

 

Quando escrevi que a saída da Grécia não implicava a saída de Portugal, mas a saída de Itália sim, estava a fazê-lo no plano positivo. Quando estamos na presença de um tsunami, o facto de não gostarmos dele não afecta em nada o facto de sermos arrastados por ele.

 

Quando defendo que, após a saída do euro, devemos voltar às restrições de circulação de capitais que vigoraram até 1992, já estou a fazer uma afirmação normativa, de recomendação. Quem sugere outra política está também a fazê-lo no plano normativo.

 

Quando sugeri um nome para a nova moeda portuguesa, também estava numa atitude normativa, embora seja um ponto sobre o qual não faço grande questão, razão pela qual até criei uma votação sobre essa designação, que decorre até 27 de Fevereiro.

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:00 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Quinta-feira, 09.02.12

Fim do euro (13) Queda drástica dos preços dos activos

Continuando a responder às questões dos leitores, que muito agradeço, retomo o tema da queda drástica dos preços dos activos, já referido aqui.

 

Uma primeira ideia central para pensar neste assunto é que nós vamos fazer o caminho inverso ao da entrada no euro, de forma muito mais rápida, mas com uma variante muito importante na taxa de desvalorização. O caminho para a entrada no euro terá começado já na primeira metade dos anos 90, em que as taxas de juro portuguesas iniciaram a sua convergência (redução) para as taxas de juro alemãs.

 

A variante importante é que a última desvalorização do escudo ocorreu em 1995 e foi muito modesta, de apenas 3,5%. Agora, vamos voltar para uma moeda portuguesa com uma desvalorização inicial de, pelo menos, 20%.

 

A segunda ideia central diz respeito ao próprio preço dos activos. Esta é uma ideia genérica, que não tem que se verificar a cada momento, mas pode ser encarado como o preço para que os activos tendem. O caso do imobiliário apresenta uma inércia excepcional e os preços podem demorar muitos anos a atingir os novos preços de equilíbrio, mas é importante perceber para onde eles se dirigem, mesmo se variam muito lentamente.

 

O preço de um activo será tanto maior quanto maiores forem os rendimentos que ele proporcionar e tanto menor quanto mais elevada for a taxa de juro de referência e tanto menor quanto mais elevado for o prémio de risco.

 

A primeira influência parece óbvia, mas o impacto da saída do euro sobre ela depende do tipo de activos. No caso das obrigações a taxa fixa, por definição o rendimento permanece fixo, pelo que não haveria alteração. No caso das acções de uma empresa exportadora os rendimentos até podem aumentar devido à saída do euro.

 

Quanto às duas outras influências, taxa de juro de referência (em geral a do Estado) e prémio de risco, subirão imenso e é isso vai estar na base da queda drástica da generalidade do preço dos activos.

 

Assinalo que vamos passar de taxas Euribor inferiores a 1,5% para taxas de juro Lisbor em torno dos 15%. Uma subida tão forte tem que ter consequências muito negativas nos preços dos activos.

 

Em relação ao prémio de risco este pode ser encarado como o “preço do risco”, tanto mais elevado quanto mais arriscada for uma aplicação. Portugal vai passar de ter uma das moedas mais fortes e estáveis do mundo (o euro), para uma nova moeda portuguesa, que se deverá estrear com perda muito significativa de valor. Ou seja, a nossa nova moeda vai ser muito mais arriscada do que o euro e os investidores vão estar dispostos a pagar muito menos por activos denominados na nova moeda.

 

Para além disso, o próprio processo de saída do euro deve envolver um qualquer tipo de reestruturação das dívidas portuguesas (públicas e privadas), o que deverá ser encarado como um outro significativo factor de risco.

 

Estas são as razões porque prevejo, genericamente, que a saída do euro deverá levar a uma queda drástica do preço dos activos. Nos posts seguintes irei debruçar-me sobre cada tipo particular de activo, com exemplos numéricos, para ser mais sugestivo.  

publicado por Pedro Braz Teixeira às 18:23 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Quarta-feira, 08.02.12

Fim do euro (12) Os fracassos do euro

O euro nasceu muito mais por razões políticas do que económicas e, por isso, é em termos políticos que deve ser avaliado em primeiro lugar.

 

A construção europeia teve – e tem – como objectivo último a paz na Europa, para evitar a repetição dos desastres das duas primeiras guerras mundiais. Para os mais duros (ou mais lúcidos?) o verdadeiro objectivo da UE é conter a Alemanha, que iniciou aquelas guerras.

 

Com a queda do muro de Berlim, em 1989, abriu-se o caminho para a (natural) reunificação alemã, cuja concretização encontrou (inesperadas?) resistências por parte dos seus parceiros europeus. Após negociações tensas e difíceis, a Alemanha foi forçada a abdicar do marco alemão, a ser substituído por uma nova moeda europeia, que tinha o objectivo (mal escondido) de conter o poder de uma Alemanha reunificada. Só com uma enorme dose de voluntarismo é que o chanceler Helmut Kohl conseguiu “vender” esta ideia a um desconfiadíssimo eleitorado alemão e a um ainda mais reticente Bundesbank.

 

Façamos então uma avaliação política do euro. O euro tem contribuído para a paz na Europa? De maneira nenhuma. Desde que se iniciou a crise do euro, em 2009, apenas uma década após o seu início, temos assistido a uma escalada de conflitos, por enquanto apenas verbais, entre os países europeus, numa escala nunca antes vista.

 

O euro tem ajudado a conter a Alemanha? Podem parar de rir. Mesmo os mais distraídos têm que confessar que o euro ofereceu um protagonismo totalmente desproporcionado aos alemães, que nunca teria existido se se mantivessem as moedas nacionais.

 

Temos assim que concluir que, em relação ao objectivo supremo da construção europeia, quer este objectivo seja lido na sua vertente mais idílica (a paz), quer na sua vertente mais pragmática (a contenção da Alemanha), o euro se tem revelado um fracasso total e completo.

 

E em termos económicos? O primeiro problema com que nos defrontamos nesta avaliação é a dificuldade em encontrar referenciais, porque, em termos económicos, o euro é uma solução para um problema que não existia.

 

A falsa sensação de segurança proporcionada pelo euro levou a banca dos países superavitários a comprar a dívida dos países deficitários. Para os que estão iludidos sobre os grandes ganhos económicos que a Alemanha teria obtido com o euro, é importante salientar que a Alemanha vendeu muito ao Sul, mas o problema é que este Sul pediu emprestado à Alemanha para lhe pagar os produtos alemães.

 

No caso da Grécia, em que vai haver um perdão da dívida de cerca de 70%, foi um péssimo negócio exportar para esse país e agora só receber 30% do valor que se vendeu. Se tivesse permanecido fora do euro, a Grécia nunca teria chegado ao ponto a que chegou, nunca teria recorrido tanto a investidores externos, porque os sinais de alarme já teriam soado há imensos anos e nunca teriam permitido que a situação se degradasse até ao nível que foi revelado em 2009.

 

O caso da Grécia é o mais exemplar dos problemas económicos do euro. A moeda única permitiu um acumular avultadíssimo de desequilíbrios, que não poderiam acontecer se eles ainda tivessem o dracma. Mas agora que estão em condições péssimas não podem usar o instrumento precioso da desvalorização, porque estão no euro. É difícil imaginar uma combinação mais ingrata do que aquela que o euro trouxe à Grécia. Primeiro deixou-os acumular problemas e depois priva-os de instrumentos para os corrigir. Esta ausência dos instrumentos cambial e monetário torna o instrumento orçamental quase o único disponível, obrigando a um ajustamento muito mais violento nas contas públicas.

 

Esta violência pode trazer um novo fracasso político ao euro. Fala-se na hipótese de um novo golpe militar na Grécia, trazendo o fim da democracia, o que seria a suprema ironia, dado este país ser o berço do conceito – e da palavra – “democracia”.

 

O projecto do euro fracassou em tantas frentes que a única solução razoável poderá ser o fim negociado do euro, havendo dúvidas – fundadas – que talvez já seja tarde demais para isso. 

 

[jornal "i"]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 08:20 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 02.02.12

Fim do euro (11) Desvalorização, adenda (act.)

Em comentário ao post anterior diz-se que não poderemos controlar os movimentos de capitais quando sairmos do euro, porque isso contrariaria os princípios da UE.

 

A primeira observação, genérica, é que nos últimos dois anos têm sido inúmeros os casos em que se desrespeitou as normas comunitárias, inclusive os Tratados europeus, desde logo na concessão de ajuda à Grécia, Irlanda e Portugal. Por maioria de razão, quando os países saírem do euro, uma situação tão excepcional que nem sequer estava prevista nos Tratados, muitas mais excepções serão inevitáveis.

 

Passando agora ao comentário mais específico, é importante referir que já está amplamente demonstrado, inicialmente por Stiglitz e depois pelo próprio FMI, que a liberdade de circulação de capitais de curto prazo não só não traz vantagem visível em termos de crescimento, como aumenta a instabilidade macroeconómica. Donde não fazer nenhum sentido que Portugal seja forçado a tal coisa.

 

Mas o pior de tudo é que seria escaparmos das garras do leão para enfiar a cabeça na boca do crocodilo. Nos últimos tempos Portugal tem estado numa luta desesperada com os mercados financeiros para conter as taxas de juro da dívida pública. Se mantivéssemos a liberdade de circulação de capitais trocaríamos a actual luta por outra, para conter a depreciação da nossa nova moeda.

 

Parece-me que já chega de luta com os mercados financeiros e todas as lutas que pudermos evitar, devemos fazê-lo. Por isso, defendo que, após sair do euro, Portugal deve abolir, durante alguns anos, a liberdade de circulação de capitais de curto prazo. Relembre-se que esta era a situação que vigorou até 1992. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 19:41 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Quarta-feira, 01.02.12

Fim do euro (10) Desvalorização

Se, por qualquer razão, Portugal for forçado a sair do euro, a nossa nova moeda sofrerá uma desvalorização de, no mínimo, 20%. É possível que esta desvalorização seja até superior, sobretudo se a saída ocorrer de forma caótica. No entanto, prefiro falar em 20%, já que há imensas pessoas que se estão a proibir de pensar nestes temas e quanto pior for o cenário, maior resistência oferecerão. Esta desvalorização terá consequências imediatas em, pelo menos, duas variáveis: a taxa de inflação e a taxa de juro de curto prazo.

 

A desvalorização deverá fazer saltar a taxa de inflação dos actuais valores, em torno de 3%, para valores próximos dos 12%, provocando uma descida súbita do poder de compra. Todos os produtos chamados transaccionáveis (sobretudo agrícolas e industriais) deverão ver os seus preços subir numa percentagem semelhante à taxa de desvalorização. Os outros produtos, chamados não transaccionáveis (sobretudo serviços), sentirão uma muito menor pressão para subir de preço. O canal através do qual a desvalorização fará subir estes outros preços é através dos salários, que muito dificilmente terão margem para subir, um tema a que voltarei.

 

Com uma taxa de inflação de cerca de 12%, a desvalorização não poderá ficar-se pelos 20%, terá que ser seguida por uma desvalorização deslizante (crawling peg), que compense o diferencial de inflação entre Portugal e o que restar da zona do euro. Em números redondos, com uma inflação em Portugal de 12% e de 2% na zona do euro, será necessário uma desvalorização anual de 10%, ou seja, uma depreciação de 0,8% ao mês.

 

Com esta inflação em Portugal e a perspectiva de uma depreciação anual de 10%, a taxa de juro de curto terá que ser superior a 12%. Para quem fique surpreendido com estes números talvez seja útil recordar que as taxas Lisbor (primas das Euribor), criadas em Dezembro de 1992, registaram então taxas acima dos 16% nos prazos inicialmente disponíveis (1, 3 e 6 meses). Relembre-se que a inflação média de 1992 foi de 9,4%, inferior aos 12% que deverão prevalecer quando Portugal sair do euro.

 

Se a desvalorização inicial for superior aos 20% aqui sugeridos como mera base de simulações, todos os outros valores serão necessariamente superiores.

 

Esta subida drástica das taxas de juro terá inúmeras consequências, que detalharei posteriormente.

publicado por Pedro Braz Teixeira às 21:57editado por Paulo Marcelo em 02/02/2012 às 10:26 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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