Quinta-feira, 03.05.12

Isto é o que se chama 'estar totalmente alheado da realidade'

Reproduzo aqui um comentário feito ao meu post sobre a ousadia, o verdadeiro despautério que foi a campanha do Pingo Doce no 1º de Maio:

 

«O meu marido trabalha no pingo doce , e nunca foi pressionado para trabalhar , nem no 1º de Maio , nem noutro dia qualquer, aliás sempre que pode trabalha nos feriados porque infelizmente o ordenado ao fim do mês a tempo e horas , como sempre é pago , nos faz falta . Acho muito bem o que foi feito , e sim o dia vai ser pago a triplicar e vão gozar 2 dias extra de folga a escolha do funcionário. Também ninguém sabe que o Grupo tem um programa de ajuda a todos os funcionários que se encontrem em dificuldades , seja ela qual for e da qual infelizmente já beneficiei . Mas cada qual tem a sua opinião e fala como quer , é o pais que temos e o governo que em vez de nos ajudar cada vez mais nos empurra para o fundo.»

Ana Santos.

 

Mas esta senhora, claro, está enganada. Está convencida que a campanha a beneficiou e à sua família, mas não, afinal o marido foi explorado, usado, manipulado, desrespeitado. A minha empregada doméstica (só um exemplo) também foi ao Pingo Doce há dois dias e esteve quatro horas dentro de uma loja Pingo Doce. Parecia felicíssima por ter poupado imenso dinheiro e garantia-me que não, não havia nada passado de validade. Coitada, também não percebeu como foi explorada e manipulada e etc.. E claro que as melhores pessoas para decidirem se ganharam ou não com a promoção não são a Ana Santos nem a minha empregada nem os outros que trabalharam e compraram no Pingo Doce a 1 de Maio; obviamente quem está habilitado a decidir se a acção do Pingo Doce as beneficiou são as pessoas que consideraram aquilo tudo pouco estético e muito de povão, onde é que já se viu estar numa fila horas a fio para aproveitar um desconto ou guerrear pela última margarina da prateleira? (É conveniente, no entanto, informar estas pessoas que têm défice de cosmopolitismo, ou saberiam que os saldos nas lojas das marcas topo de gama por esse mundo fora também são assaz caóticos). Na verdade, as pessoas nem deviam ter rédea solta para comprarem o que bem entendem: mal vêem uma promoção só compram coisas que não precisam e ainda gastam mais do que podem! Urge colocar Paula Teixeira da Cruz ou Assunção Cristas - que tanto desvelo têm dedicado ao sector do comércio - chefiando uma comissão para determinar o cabaz de compras que os consumidores devem comprar, que entregues a si próprios estes manifestamente não têm capacidade para decidir os iogurtes ou os detergentes melhores para as suas casas.

 

Agradeçamos reverentemente estarmos tão bem entregues a políticos e gente pensante que sabe o que é melhor para nós, bem melhor do que nós próprios sabemos. O país, à conta de tanto iluminado, está na falência; mas se as pessoas tivessem tido mais liberdade, estaríamos bem pior, oh se estaríamos.

publicado por Maria João Marques às 13:54 | comentar | ver comentários (16) | partilhar
Quarta-feira, 02.05.12

Tão maçador que é o mercado

Sendo os sindicatos a força mais reaccionária deste país e dos grandes contribuintes para a pobreza crescente dos tais trabalhadores (os que representam e os outros), qualquer actividade que os enfrente está, para mim, no caminho certo, pelo que a decisão do Pingo Doce é, desde logo, de louvar. E é ainda mais de louvar por ter dado oportunidade a tantas famílias em dificuldades financeiras de adquirirem bens essenciais mais baratos. Foi, sem dúvida, um bom tributo aos trabalhadores. Fê-lo em perseguição de lucros futuros? Ainda bem, assim todos ganham.

 

E não posso deixar de lembrar que 'o valor' do que quer que seja é estabelecido nas economias prósperas pelo mercado; dito de outro modo, algo só vale, em termos materiais, o que alguém está em cada momento disposto a pagar por ele. Neste sentido, e tendo em conta os consumidores que acorreram às lojas do Pingo Doce, esta cadeia de supermercados praticou ontem um preço muito aproximado ao valor dos produtos que vendeu.

publicado por Maria João Marques às 12:18 | comentar | ver comentários (28) | partilhar
Sexta-feira, 27.04.12

'A nova intolerância'. Eu diria mesmo mais: o novo obscurantismo

«To judge from what we are reading and hearing almost every day at the moment, it would seem Britain is in the throes of a war of religion. A war, that is, between religion and atheism. Professor Richard Dawkins, the Savonarola of atheism, regularly hurls his thunderbolts at believers. Christianity, says the church, is under siege. Christians are being prevented from wearing the crucifix at work, being barred from adoption panels.[...]At the heart of this great argument lies the assumption on the part of the anti-religion camp that this is a battle between reason and obscurantism, between rationality on the one hand and knuckle-dragging ignorance and prejudice on the other. And of course, that anti-religion camp is on the side of reason, and thus of intelligence, science, progress and freedom; whereas religious believers would undo the Enlightenment and take us all back to the dark ages of credulity, superstition and the shackling of the mind.[...]

So it follows that people who are intelligent can have no religious faith; those who are religious are either imbeciles or insane. Not only that, religious people are narrow, dogmatic, intolerant and unpleasant. Those with no religious faith are broad-minded, open, liberal and thoroughly splendid people whom you'd be delighted to meet at a dinner party. Little casts a chill over a fashionable table more than the disclosure that a guest believes in God. 

 

I have a rather different take on this great division of our age. My view is that while we may be in a post-biblical — and post-moral — age, we have not disposed of belief. Far from it. We have just changed what we believe in. Our society may have junked the Judaeo-Christian foundations of the West for secularism. But this has given rise to a set of other religions. Secular religions. Anti-religion religions.  

These are also based on a set of dogmas. They proselytise. They involve faith. But unlike the Judaeo-Christian thinking they usurp, these secular anti-religions suspend truth and reason. [...]God has been pronounced dead, and in his place have come man-made ideologies — in which people worship not a divine presence but an idea. [...]

 

Rather than being rational, I suggest these are irrational; not tolerant at all, but deeply illiberal; not open to other ideas, but as dogmatic as any medieval pope. Indeed, these atheistic ideologies are reminiscent not just of religion but of medieval persecutions, witch-hunts and inquisitions.

Let me illustrate all this with an anecdote. After a debate in which he took part some time ago, I pressed Richard Dawkins on his belief that the origin of all matter was most likely to have been an entirely spontaneous event — which meant he therefore surely believed that something could be created out of nothing. Since this ran counter to the scientific principle of verifiable evidence which he tells us should govern all our thinking, this itself seemed to be precisely the kind of irrationality which he scorns. 

In reply, he acknowledged that I had a point but said that the alternative explanation — God — was more incredible. But then he remarked that he was not necessarily averse to the idea that life on Earth had been created by a governing intelligence — provided, however, that such an intelligence had arrived on Earth from another planet. Leaving aside the question of how that extra-terrestrial intelligence had itself been created in the first place, I put it to him that he appeared to be saying that "little green men" provided a more plausible explanation for the origin of life on Earth than God. Strangely, he didn't react to this well at all.

However, Dawkins is not the first scientist to have suggested this. It is a theory which was put forward by no less than Professor Francis Crick, one of the discoverers of DNA.

 

A committed atheist, Francis Crick found it impossible to believe that DNA could have been the product of evolution. In 1973, Crick and the chemist Leslie Orgel published a paper in the journal Icarus suggesting that life may have arrived on Earth through "directed panspermia". According to this theory, micro-organisms were supposed to have travelled in the head of an unmanned spaceship sent to Earth by a higher civilisation which had developed elsewhere some billions of years ago. The spaceship was unmanned so that its range would be as great as possible. Life started here when these organisms were dropped into the primitive ocean and began to multiply. Subsequently, Crick abandoned this theory and returned to the idea of the spontaneous origin of life from purely natural mechanisms.

How can someone so committed to reason be so irrational as to entertain such a fantasy?»

 

E muito mais, da sempre recomendável Melanie Philips.

publicado por Maria João Marques às 17:31 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Sexta-feira, 20.04.12

Voltando ao que importa

A propósito das notícias que relacionam os candidatos do PS e PSD ao Tribunal Constitucional com a maçonaria - e não deixa de ser curioso como o PSD entende não averiguar as ligações maçónicas dos candidatos que apresenta, sendo surpreendido quando existem - é conveniente reintroduzir a discussão da necessidade de declaração de interesses de governantes, eleitos, magistrados do ministério público e juízes que inclua a pertença ou não a associações do tipo maçónico. Não podemos ser governados, investigados ou julgados por pessoas cujos interesses não podemos escrutinar.

publicado por Maria João Marques às 14:22 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Terça-feira, 17.04.12

A Igreja só se pode queixar de si própria

O documento que irá ser apresentado amanhã em Fátima, à margem da assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), revela que nos últimos 12 anos os católicos diminuíram 7,4%, passando de 86,9% da população para 79,5%

 

Esta notícia não surpreende, afinal a Igreja (ou, pelo menos, algumas dioceses com Lisboa à cabeça) têm feito um excelente trabalho em perseguir os casos de sucesso na captação de gente nova para as missas e para a própria Igreja. Querem exemplos? Eu dou.

 

Há poucos meses recebi um e-mail convidando para uma missa a celebrar no LX Factory, a Alcântara, para festejar o regresso a Lisboa do Nuno Tovar de Lemos, padre jesuíta e meu amigo. O e-mail começou a circular e houve muita gente a responder afirmativamente, incluindo muita gente de fora dos habituais dos jesuítas. Assim, numa noite a meio de uma semana de Inverno, transidos de frio, mais de seiscentas pessoas estavam no LX Factory para uma missa. Mas não houve missa, tendo o Nuno justificado que havia muita gente desligada da Igreja, pelo que se decidiu por fazer uma 'homenagem a Deus', com testemunhos vários e mais umas coisas. Correu bem, claro, apesar do evidente improviso. A história que corre, sem confirmação dos envolvidos, é que não é uma bonita homenagem a Deus: aparentemente o sucesso do convite para a missa no LX Factory incomodou um certo movimento conservador, que fez chegar as suas objecções ao inevitável Cardeal Patriarca de Lisboa que, por sua vez terá ligado ao provincial dos jesuítas proibindo uma missa num local profano como o LX Factory. É isto que se pretende, portanto: uma Igreja que se reúne em locais assépticos, que não vai de encontro ao mundo, que não se dá a conhecer, uma comunidade de puros que olha com desconfiança tudo o que é novidade pelo facto de ser novidade (não que uma missa num local diferente de uma igreja seja novidade; eu própria já participei numa missa presidida por D. José Policarpo na alameda da cidade universitária). Uma Igreja de fariseus, portanto. Uma Igreja que se envergonha - só pode! - de Jesus, que tudo fez para ir de encontro àqueles que mais dEle estavam afastados. E uma Igreja que não percebe que Deus está em toda a parte da Sua Criação, incluindo num centro comercial de arquitectura industrial. Curiosamente, várias organizações profanas trabalharam para possibilitar aquela concorrida missa, enquanto a Igreja a inviabilizou.

 

Outro exemplo é a missa dominical do CUPAV, aos domingos na Igreja do Colégio de São João de Brito, mais uma vez celebrada pelos jesuítas ligados ao CUPAV. A igreja está sempre à cunha (e é grande) e, sendo uma missa destinada a universitários, tem uma percentagem de gente nova que não se deve encontrar noutra missa em Lisboa. As missas são alegres, animadas, com grande participação dos leigos. Os padres dizem coisas inteligentes, têm sentido de humor, evidentemente não vivem numa redoma. Ora o sucesso desta missa também incomodou algumas almas, que lá se deslocaram para vigiar o que se passava. Como não havia heresias a que se pudessem agarrar, causou celeuma a disposição da Igreja, que tem o altar no meio da Igreja e da assembleia, levando a que durante a missa um dos lados da assembleia apresente as suas costas ao Sacrário. (Durante uma missa, refira-se, o centro é o altar, não o Sacrário). Não faz mal que em inúmeras igrejas antigas o Sacrário seja lateral e as costas de algumas pessoas que participam na missa também se dirijam ao Sacrário, agora que isso suceda numa missa de grande sucesso é que não pode ser.

 

A diocese de Lisboa (no Porto, dizem-me, o bom senso é uma realidade conhecida) e, porventura, outras no país têm boa solução se querem ter resultados mais agradáveis a Deus: é darem menos importância aos delatores (para usar uma palavra ainda assim simpática), é não promover as invejas nem os egozinhos pequenos e mesquinhos e aproveitar - e até copiar - quem não tem falta de gente nas missas e noutras actividades.

 

Nota, não vá o que escrevi afligir mais umas almas: o que escrevo implica-me apenas a mim e não tenho dúvidas que, se lhes tivesse perguntado, os jesuítas que me são mais chegados me teriam dito para não escrever nada. Mas eles sabem que eu gosto muito de fazer uso de uma característica maravilhosa que Deus felizmente me deu: o meu espírito crítico.

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Segunda-feira, 16.04.12

PS corteja o voto de todos os incompetentes do país e de todos aqueles que se endividaram mais do que conseguiam pagar e faliram

PS arranca jornadas parlamentares com homenagem a Sócrates e Paulo Campos.

 

Eu faço uma sugestão para o cenário desta homenagem - sabe-se como o PS socrático (que, vê-se, é ainda o actual) era exigente com estas coisas da imagem propagandística. Por que não usar frases do relatório do tribunal de contas, bem escolhidas, sobre a Parque Escolar? Afinal a Parque Escolar foi uma festa, não foi?

 

PS - Curriculum de Paulo Campos.

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Segunda-feira, 02.04.12

Ideia para se cortar onde se deve

Se calhar nesta revisão seria muito bom - e reporia alguma justiça na alocação de dinheiros dos contribuintes - rever a espécie de subsídio de maternidade, pago a 100% durante um mês, que recebem as mulheres que fazem um aborto.

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Terça-feira, 13.03.12

Com gente como esta não vamos lá

Ainda a propósito do assunto do post aqui em baixo, não deixo de me espantar com a quantidade de vezes que esbarro com opiniões (e com notícias) em que os autores de opinião ou da notícia só podem ser considerados ou de profundamente burros ou de profundamente intelectualmente desonestos. É o que sucede com este texto do i. Para todos os opinadores, Cavaco ou dissolvia o parlamento na altura da tal deslealdade de Sócrates ou se calava para sempre. Bom, não nos detenhamos nesta ausência de possibilidade de Cavaco vir a posteriori dar uma opinião sobre um facto que viveu - já de si uma burrice sem tamanho - para analisarmos esta pérola da obrigatoriedade de dissolução do parlamento de cada vez que Cavaco fica amuado com razão com o primeiro-ministro. Já se sabe - pela quantidade exorbitante de governos que gostamos de coleccionar - que a estabilidade não é um valor que apreciemos e temos pago bem caro este pouco apreço. Para os nossos eminentes polítólogos, de cada vez que há desagrado do PR, dissolução da AR ou demissão do governo são os únicos caminhos. Mas o mais hilariante no texto do i e nas opiniões que contém é que toda a gente defendia a dissolução da AR ou demissão do governo pelo PR no primeiro semestre de 2011, quando estávamos já numa situação financeira deplorável e se percebia perfeitamente que a necessidade de ajuda externa era uma questão de (pouco) tempo. Ora nenhum dos comentadores contactados pelo i refere a situação conjuntural em que o PR decidiu não dissolver a AR nem demitir o governo, e a jornalista que redigiu a notícia entendeu seguir o mesmo caminho. Em suma: para comentadores e jornalista do referido texto, o PR só pode provocar uma crise política de cada vez que se desagrada com o governo e deve fazê-lo mesmo que, para isso, nos coloque, com a sua iniciativa, numa situação de falência declarada. Um PR que pese os efeitos da sua actuação e que decida em função do interesse nacional e não do seu ego é teoria absurda para esta gente.

 

Será muito pedir a esta gente que emigre? E depressa?

publicado por Maria João Marques às 13:43 | comentar | ver comentários (11) | partilhar

Que o PS não pense que já tem as contas saldadas com o país só porque perdeu as eleições

O mal que a governação PS fez ao país - a de Guterres e, sobretudo, a de Sócrates - vai ser pago pelos contribuintes portugueses por muitos e bons anos. É bom, portanto, que os socialistas parem de ensaiar indignação de cada vez que os brilhantes executivos Sócrates são (muito justamente) atacados. É bom que se convençam que ainda há muitas contas a acertar com as supremas vergonha e rebaldaria que patrocinaram nos últimos dezasseis anos; terem perdido eleições não basta por vos livrar de prestar essas contas.

 

É, por isso e porque Sócrates prepara a sua absurda candidatura presidencial (a criatura não sabe fazer mais nada do que dedicar-se à propaganda e intriga política e ainda é novo para se reformar), conveniente que Cavaco Silva dê em tempo útil (i.e., agora e nos próximos anos), com precisão, a sua versão do que sucedeu nas relações institucionais com Sócrates. Este é dos maiores serviços que pode prestar ao país. É também de vital importância que o Correio da Manhã continue com o bom trabalho que tem desenvolvido, tanto na divulgação das regalias dos ministros e secretários de estado socráticos enquanto afogavam o país com aumentos de impostos como na publicação das escutas que envolvem Sócrates pelo menos nas franjas de vários processos estranhos, e que outros mostrem também que não se esquecem do desvario socrático.

 

Claro que do Ministério Público - que fez todos os possíveis para garantir que Sócrates nunca tivesse sido verdadeiramente investigado (ainda não se sabe se a 'investigação' sobre a licenciatura foi feita com base nos originais, que Rui Verde afirma deter, ou em meras fotocópias) - nada se deve esperar. Mas o julgamento de Sócrates não pode ser só judicial, tem de ser também político. E, mais uma vez, não terminou com o julgamento político das últimas eleições.

publicado por Maria João Marques às 12:35 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Quarta-feira, 07.03.12

'[E]m Portugal, ocorreram 80 mil abortos. [...] Este número corresponde a um estádio da luz cheio ou ao número de crianças em 500 escolas primárias.´

«Hoje, alimentados pela dúvida legítima sobre o momento exacto do início da vida, temos duas opções. A primeira opção é assumir-se pró-vida e arriscar-se, quando a dúvida for desfeita, a ser acusado de ter contribuido para a limitação da liberdade das mulheres.  A segunda opção é defender a liberdade de escolha e arriscar-se, se vier a haver consenso de que a vida de facto começa no momento da concepção, a ter sido cúmplice de uma das maiores chacinas da história da humanidade. Entre as duas opções, a que me aterroriza mais é a segunda. No primeiro caso poderemos sempre argumentar que a liberdade da mulher utilizar o seu corpo esteve sempre presente, mas apenas até ao momento da concepção. Aterroriza-me muito mais pensar que poderei estar hoje no papel do pequeno funcionário público alemão que despachava as roupas dos judeus assassinados. Aterroriza-me pensar que ao aceitar o aborto como um acto legal e, pior do que isso, banal, fui cúmplice menor no assassinato de 80 mil vidas humanas. Quando daqui a 40 anos se realizar o aborto 1,000,000, e me questionarem porque fui complacente, irei mostrar este texto. Temo que não me irá absolver por completo.»

Carlos Guimarães Pinto, honesto como poucos, n´O Insurgente.

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Segunda-feira, 05.03.12

O desastre que é a política de Justiça deste governo

Paula Teixeira da Cruz é um dos expoentes do socialismo no PSD. Sendo apoiante desde o início de Passos Coelho tornou-se inevitável que chegasse ao governo. Com a nomeação para a pasta da Justiça eu, que tenho apenas uma experiência de leiga do funcionamento da InJustiça portuguesa, pensei que ia para uma pasta onde o bom senso conta mais do que a inclinação ideológica e sendo PTC, segundo contam, uma pessoa inflexível até poderia fazer boa figura como ministra. Erro crasso meu. O ministério de PTC tem abrigado legislação que nem o assumidamente de esquerda PS teve a ousadia de implementar, como foi o caso da vergonhosa lei do enriquecimento ilícito aplicada a toda a gente e não apenas a titulares de cargos públicos, que apropria para a actual maioria o ódio visceral e a propensão persecutória do PCP a quem consegue acumular riqueza e quem é bem sucedido. Vem agora a ministra da Justiça propôr esta enormindade que o Pedro já aqui referiu. E o mais grave nem é a discriminação entre empresas comerciais com rendimentos para apresentar queixas e as que não têm. O mais grave é mesmo a mensagem que se transmite, que é praticamente a legalização do pequeno roubo nas lojas: o estado está-se marimbando para o pequeno crime se para o combater tiver de usar recursos seus.

 

E isto provém precisamente da inclinação ideológica da ministra. Como se sabe e se verifica, um estado tentacular e socialista, no seu afã de chegar a todo o lado e participar em tudo, deixa de fazer aquilo que a tem obrigação primordial: as suas funções nucleares, que contêm a Justiça. O que PTC diz é isto: virem-se sozinhos, pequenos empresários, que o estado tem mais do que fazer do que proteger-vos. E o alvo dos pequenos empresários - aquele grupo que geralmente não anda pendurado nos orçamentos do estado e que não tem dimensão para precisar de dar graxa aos políticos - também não é irrelevante, já que a esquerda (que inclui PTC) os vê com um absoluto desprezo e como merecedores de pagar bem o atrevimento de um dia terem arriscado e posto uma empresa em funcionamento. No caso, têm de pagar os roubos que lhes fazem que o estado está entretido com outros brinquedos. Sucede que os pequenos empresários, e bem, consideram que as suas empresas não são instituições de caridade e que não têm de suportar os custos acrescidos que o estado lhes impõe. Por enquanto estamos numa crise económica e as lojas, grandes ou pequenas, sobrevivem à conta das promoções que fazem, mas quando a conjuntura melhorar um bocadinho, caros consumidores, pensem que quando estão a comprar algo estão a pagar mais porque as empresas estão a diluir em quem compra os custos dos roubos que, com a ausência de risco, se tornarão crescentes. E agradeçam a Paula Teixeira da Cruz e a este governo.

 

Isto, claro, se o Presidente da República não puser onde convém os devaneios proto-comunistas da actual ministra da Justiça.

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Quinta-feira, 01.03.12

Alguém anda a fumar coisas assaz estranhas

Há uns anos houve um valente reboliço - sobretudo das gentes à esquerda - com a proposta de Santana Lopes de instalar um casino no Parque Mayer. Parece que levantava gravísssisssimas questões de segurança (apesar da aparente acalmia que sempre rodeou o casino do Estoril). Agora temos um presidente da autarquia lisboeta - onde eu resido - que estuda fornecer um edifício camarário para instalação de um bordel livre, com sexo seguro e acompanhamento psicológico às senhoras que lá trabalharão. Bom, vamos deixar de lado o facto de a CML não estar a fornecer um edifício para acolher prostitutas que querem ter outra ocupação mais saudável e não vamos questionar para que precisarão as prostitutas de ajuda à saúde psíquica se afinal a prostituição é uma profissão como outra qualquer (porque a CML não ajudaria pessoas a manterem-se numa profissão que lhes é altamente lesiva, pois não?). Questionemo-nos apenas: em Lisboa, as pessoas que vão jogar uns trocos nas slotmachines são vistas como mais perigosas do que as pessoas que vão a um bordel pagar por sexo? É que da última vez que reparei, a Mouraria era no centro de Lisboa. Ou, para os senhores que tanto se preocuparam com a Avenida da Liberdade e as montras da Louis Vuitton, para os chineses e paquistaneses que agora se instalaram na Mouraria qualquer coisa serve, até um bordel?

publicado por Maria João Marques às 13:13 | comentar | ver comentários (10) | partilhar
Sexta-feira, 10.02.12

Quando, mas quando, é que este governo supostamente de centro-direita termina com a gratuidade do aborto no SNS?

«"É vergonhoso que o Ministério da Saúde ou se tenha esquecido ou não tenha tido a coragem de impor uma taxa moderadora no aborto recorrente. Não há qualquer explicação. É absolutamente indesculpável", sublinhou.

O médico questiona: "Uma mulher paga para ir a uma consulta de esterilidade e não paga para ir a uma consulta de aborto recorrente?".

Segundo um estudo da Federação Portuguesa Pela Vida (FPV)feito com base nos dados oficiais disponíveis, desde 2007 realizaram-se em Portugal mais de 80 mil abortos "por opção da mulher", dos quais perto de 13.500 foram repetições.»

 

E esta opinião vinda de quem acha 'uma vergonha' que 33% dos abortos sejam feitos em clínicas privadas em vez de pagas pelos contriuintes. (É que, sabem?, uma mulher pode escolher terminar ou não com uma vida que tem dentro da barriga, mas já poder escolher entre um hospital público e uma clínica privada é liberdade em demasia. Digam lá se isto não é o apogeu do socialismo?).

 

E se o CDS parece ter alguma sanidade nesta questão, já este PSD - tão moderno! - indicia pretender seguir o caminho do PS: não se realizam os estudos prometidos aquando do referendo, que assim nunca se vai poder discutir o aborto precisamente por falta de estudos.

 

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Quinta-feira, 09.02.12

O estado da nossa comunicação social

Num programa da TVI24, Fernando Rosas insulta Pedro Santana Lopes comparando-o a Salazar. Mas a notícia é a reacção inteiramente justificada de Pedro Santana Lopes. Entende-se: para a maioria da comunicação social, qualquer pessoa que não se proclame de esquerda tem a obrigação de carregar as culpas dos pecados de um ditador que morreu há quarenta anos. Até porque é a memória desse ditador a única legitimação da actual esquerda (o mesmo é dizer que não têm qualquer legitimação) para impor ao país o socialismo que, como se vê, nos arruinou.

 

Mas nada disto é novo. No debate televisivo entre Carrilho e Carmona Rodrigues também se equiparou a reacção de Carmona Rodrigues à recusa de Carrilho de o cumprimentar no final do debate. E perante as faltas de educação reiteradas de Mário Soares para com Cavaco Silva na campanha para as presidenciais, feitas sem dúvida com a convicção que o país inteiro o acompanhava e à maioria da comunicação social (lembro-me de um debate televisivo em que até Judite de Sousa tratava Cavaco Silva por 'ele' e se ria como uma colegial das faltas de educação de Mário Soares) na opinião de que Cavaco Silva era uma criatura a quem apenas se podia desprezar. Isto para nem irmos para o manancial infindável das grosserias de José Sócrates durante os seus seis anos de má memória à frente do país, tendo estas grosserias sido quase, quase, quase até ao fim apresentadas como mostra das capacidades argumentativas do nosso querido líder.

 

Gente de direita, convençam-se: são umas espécie de intocáveis das castas políticas portuguesas; têm a obrigação de aceitar com resignação os insultos que a gente, superior, da esquerda vos dirige - recordem-se que estão a expiar pecados de vidas passadas.

publicado por Maria João Marques às 14:59 | comentar | ver comentários (11) | partilhar
Segunda-feira, 30.01.12

Sabem quando escrevemos sobre outros para afinal descobrirmos que escrevemos sobre nós próprios? Pois aqui fica um retrato de Miguel Sousa Tavares.

«No último mês de Dezembro, Miguel Sousa Tavares publicou um artigo laudatório do antigo Primeiro-Ministro José Sócrates, com o título O Fantasma de Paris,  que tem sido replicado em vários blogues socratistas. Raras vezes vi um artigo com tantos erros factuais. Só na primeira metade do artigo, temos isto:

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 (...) José Sócrates começou a governar em 2004, recebendo um país com défice de 6,2% (...)
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Começou a governar em Março de 2005 e recebeu um défice de 3,4%.
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(...) após dois governos PSD/CDS, numa altura em que não havia crise alguma nem problema algum na economia e nos mercados. (...)
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Portugal esteve em recessão em 2003, e o crescimento do PIB vinha em queda desde 1998.
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 (...) Manuela Ferreira Leite e Bagão Félix, foram pioneiros na descoberta de truques de engenharia orçamental para encobrir a verdadeira dimensão das coisas: despesas para o ano seguinte e receitas antecipadas (...)
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A antecipação de receitas foi prática corrente dos governos de Guterres – a começar pelo Pagamento Especial por Conta. A principal alínea de desorçamentação – as SCUTS – despesas atiradas para o futuro, foi também uma invenção dos governos de Guterres.»

 

O resto estáneste post de JCD.

publicado por Maria João Marques às 14:00 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Terça-feira, 24.01.12

Este país é para tolinhos

As palavras de Cavaco Silva foram infelizes, e mesmo estranhas em quem se conta que um dia demitiu um ministro por este afirmar não ganham para os charutos que fumava. Cavaco Silva já reconheceu isso mesmo, o que parece assanhar mais os tolinhos do país (a estratégia defendida pelos tolinhos em todas as ocasiões é permanecer no erro, falar mais alto que os adversários e nunca reconhecer que se errou).

 

Mas as reações das palavras sobre a reforma e as despesas de Cavaco Silva também ajudam a mostrar o número e a qualidade dos tolinhos do país. É que, sendo muito infelizes, as palavras de Cavaco Silva referiam-se às suas finanças privadas e se o senhor entende gastar mensalmente mais do que os oito ou nove mil euros que recebe ou lá o que é, isso é assunto do próprio, ainda que passível de julgamento político pelos eleitores (quem não sabe gerir o seu orçamento privado também não saberá gerir o dinheiro dos outros e Cavaco até sempre cultivou uma imagem de prudência por isso mesmo).

 

Inteiramente diferentes foram, por exemplo, as palavras de Jorge Sampaio há uns anos, e essas sim sem qualquer respeito pelos portugueses e inteiramente motivadas pela trica partidária, em que pretendeu dar uma lição de moral a Manuela Ferreira Leite afirmando que 'há vida para além do défice'. Isto perante uma tentativa de consolidação das contas públicas que pecou por timidez. Ora se as palavras de Cavaco Silva se referem à gestão do seu próprio dinheiro, já Jorge Sampaio foi irresponsável com o dinheiro dos outros, pecado imensamente mais grave. E foi à conta da espertice saloia revelada por Sampaio que nós estamos falidos. Mas, curiosamente, os tolinhos do país na altura elogiaram muito Sampaio contra o ogre MFL. Depois foi o que se viu.

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Esclarecimentos a quem não percebe ironias

Eu tenho grande consideração por quem lê o Cachimbo, mas afinal há muitos leitores que não entendem ironias. Não é que este meu post me transformou em alguém que apoia, promove, aceita, e etc., as nomeações para cargos públicos por critério partidário? Bem, quanto à substituição de Mega Ferreira, que exalta fortemente a esquerda, só me leva a tomar mais atenção ao senhor e a verificar se não haverá uma câmarazita socialista que acorra a dar-lhe novamente que fazer em prol, apenas e sem qualquer interesse político, da cultura nacional.

 

Já quanto à questão do director da ASAE, quem haja percebido que eu defendo a substituição por critérios partidários ou nunca na vida leu nada do que escrevi ou então, de facto, não entende ironias. Para que fique claro: a ASAE é uma instituição dedicada a atrapalhar a vida às empresas. A ASAE não trata de fiscalizar se um restaurante tem uma cozinha infestada de baratas;  trata de fazer inspecções a restaurantes na hora de pico de movimento (para causar mais transtorno e fazer perder mais receitas) esperando que na azáfama alguém se esqueça de fechar devidamente a porta do frigorífico (a ser aberto um minuto depois, pelo que nada se estragaria) e controlando se alguém na correria de servir um cliente depressa se esquece de anotar umas burocracias quaisquer junto da comida ou se um coitado de um empregado de mesa (ainda que seja o coitado do proprietário a pagar a multa) trouxe um fiambre para o almoço e o colocou no frigorífico da comida a servir no restaurante; e se algum destes pormenores sem importância e que nada diminuem a qualidade da comida se verificar, lá está a ASAE para aplicar a multa mais pesada que a legislação permite. A ASAE não trata de verificar se os brinquedos contém substâncias tóxicas para as crianças; a ASAE trata de verificar se uma loja usa a palavra promoção sem estar acompanhada de algumas outras palavras mágicas (ainda que seja uma promoção legítima) ou a palavra saldos fora das datas legalmente estabelecidas, ou se baixa em demasia os preços, ou se as montras têm os preços dos produtos expostos (na maioria das capitais europeias não se vêem preços em lado nenhum), os se alguma loja perdeu algum rótulo de algum produto que toda a gente sabe utilizar (estou a lembrar-me das velas, que precisam de informação que praticamente cobre a vela toda; não sei como a civilização sobreviveu tantos séculos antes do advento da luz a gás e da electricidade), e um largo etc.; e se algum pormenor sem importância tiver sucedido, mesmo que nenhum consumidor tenha sido prejudicado, lá está a ASAE a aplicar a multa máxima legalmente estabelecida. Sempre multas máximas, porque extorquir os empresários está no ADN da ASAE.

 

Podem argumentar que a culpa não é da ASAE - já não podem argumentar que a culpa não é de António Nunes, que evidentemente se regozija com a actividade empresarialmente inquisitória da ASAE e claramente trabalha para o mediatismo - afirmando que a culpa é da legislação. A legislação é, sem dúvida, um grande problema (tentarei escrever sobre isto brevemente). No entanto, perante uma lei estúpida, quem de bom senso que esteja encarregue de aplicar a lei estúpida só tem uma solução: a inércia. Em suma: a substituição de António Nunes é fundamental; coloquem lá quem quiserem, mesmo que seja uma nomeação partidária; a minha sugestão até seria pegarem na pessoa lendariamente mais indolente da função pública, de qualquer partido ou apartidária, e nomearem-na director da ASAE; isto, claro, se não se tomar a melhor decisão, que é extinguir a ASAE.

 

Só um último ponto. Não pensem que burocracias que aumentem o tempo de trabalho dos trabalhadores de uma empresa ou que levem a maiores custos (com equipamento, com embalagens,...) ficam por conta das empresas. As empresas não são nem devem ser instituições de caridade e se a ASAE lhes impõe maiores custos, isto reflecte-se no preço final ao consumidor. A ASAE não nos sai grátis nem mesmo depois da dotação orçamental.

 

(Podem ler tambémeste meu post para se irritarem mais um bocadinho, que a minha campanha pela demissão de António Nunes não se inciou hoje).

publicado por Maria João Marques às 14:01 | comentar | ver comentários (7) | partilhar
Segunda-feira, 23.01.12

Em boa hora

se substitui Mega Ferreira - uma daquelas personagens que apenas o tinha a recomendar ter estado do lado 'certo' e com as pessoas 'certas' do status quo esquerdizante que entusiasma a nossa classe política e maioria dos jornalistas e comentadores oficiais (e que nos levou ao descalabro actual) - por Vasco Graça Moura, que além da qualidade intelectual intrínseca tem ainda a vantagem de irritar a esquerda que não lhe perdoa tal qualidade.

 

O governo que não se esqueça, no entanto, de substituir também António Nunes à frente da ASAE. Neste caso, qualquer nomeação política seria mais benéfica do que a recondução do senhor. Enquanto não o substituem, aconselhem-no a dar pouco que fazer às empresas que ainda vão sobrevivendo nesta crise. Olhem que esta e outras gulas por receitas provenientes de multas também provocam descontentamento. E em quem até poderia em princípio apoiar as reformas do governo.

publicado por Maria João Marques às 08:54 | comentar | partilhar
Quarta-feira, 11.01.12

Meus caros: os contribuintes têm de saber algumas coisas das pessoas a quem pagam ordenados

A maçonaria em si  mesma não tem nada de mal e muito boa gente há que é maçon. Há mesmo na maçonaria tão boa gente que - e não me refiro apenas às declarações públicas que têm surgido por estes dias - se indigna com as intenções de usar a maçonaria para benefício próprio de alguns membros. E toda a gente é, e deve ser, livre de pertencer a qualquer associação a que lhe apeteça pertencer, secreta ou não. E também não é a pertença à maçonaria ou a outra sociedade secreta que implica que se use determinado cargo público em benefício próprio em detrimento do bem comum, nem os que não são membros da maçonaria estão imunes à tentação de usar um cargo público para defender os seus próprios interesses em vez do bem comum.

 

Isto é tudo verdade. Eu só não percebo o que tem isto a ver com a recusa da obrigatoriedade de declaração por detentores de cargos públicos - concretamente, detentores de cargos políticos, juízes e magistrados do MP - de pertença à maçonaria ou a qualquer outra associação secreta. Lamento, mas a pertença a uma associação que nada tem a ver com a vida pessoal e íntima de quem ocupa um cargo público é e deve ser do conhecimento do público em geral. Considero muito mais intrusivo que um deputado tenha de declarar quanto ganha e de onde lhe vem o rendimento e o que possui - para não falar que se pretende que comece também a justificar as suas despesas se o imbróglio do enriquecimento ilícito se concretizar - do que declarar que pertence a uma qualquer associação. Lamento, mas as instituições políticas têm de estar preparadas para proteger os cidadãos de más intenções de quem governa o estado e não pressupor que somos todos anjinhos; é assim que um sistema gera confiança, e não exigindo-a à priori. Quem pretende ocupar um cargo público e é membro de uma organização como a maçonaria, sim, deve ter de declará-lo. (Também para protecção da imagem da maçonaria e da gente boa que lá há, mas isso já não é problema meu). Claro que uma pessoa pode entender não ter de declarar quanto ganha ou a que associações pertence, e muito legitimamente. Agradece-se, nesse caso, que essa pessoa faça carreira profissional paga pelos dinheiros privados e não pelos públicos.

publicado por Maria João Marques às 16:46 | comentar | ver comentários (12) | partilhar
Terça-feira, 03.01.12

À atenção dos senhores da troika: lei do arrendamento é mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma

Alterar a lei do arrendamento é fundamental para desfazer uma distorção estrutural importante, o governo tem razão, e a ministra Assunção Cristas apresentou-se, como é hábito, segura e competente e soube responder muito bem a quem tentava a todo o custo acusá-la de mandar uma geração inteira de pensionistas para debaixo da ponte.

 

É conveniente, no entanto, que se tenha noção que esta legislação apresentada não só não resolve qualquer problema estrutural do mercado do arrendamento - só deixar o mercado funcionar, protegendo o estado (não os proprietários, atenção) idosos e deficientes, o faria - como ainda cria uma enorme injustiça adicional a ser carregada pelos inevitáveis proprietários.

 

Vejamos o que propõe a nova lei para as rendas anteriores a 1990: se proprietário e inquilino não chegarem a acordo sobre o novo valor da renda, para o proprietário reaver a casa tem de pagar ao inquilino uma indemnização! Uma indemnização! Depois de décadas (que esta injustiça já não se mede em anos) a subsidiar o inquilino nas suas rendas, o proprietário terá de indemnizar o inquilino se quiser ter a sua casa de volta. E a indemnização não é calculada sequer pelo valor da renda paga anos a fio pelo inquilino, mas sim pelo valor médio das rendas propostas por inquilino e proprietário. Se o proprietário quiser ter a sua casa, então terá que despender em qualquer caso alguns milhares de euros e pelos vistos, para este governo, tal como para o PCP e para o BE, qualquer pessoa que já comprou uma casa para arrendar tem sempre vários milhares de euros à disposição e, se não tem, tinha obrigação de ter e deve ser tratado como se tivesse.

 

Deixando de lado a injustiça da proposta, é mais ou menos evidente que os senhorios não terão dinheiro para indemnizar os inquilinos e que não irão recorrer ao crédito para obter fundos para a indemnização - parece que o crédito bancário é escasso e que nestes tempos se deve pensar mais em poupar do que em endividarmo-nos. Pelo que será sempre do interesse do inquilino não chegar a acordo com o senhorio. E assim se perdeu tempo criando uma lei que não terá qualquer efeito.

publicado por Maria João Marques às 16:51 | comentar | ver comentários (14) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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