Quarta-feira, 12.09.12

DA RTP (14)

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publicado por Carlos Botelho às 11:23 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Terça-feira, 11.09.12

DA RTP (13)

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publicado por Carlos Botelho às 12:00 | comentar | ver comentários (3) | partilhar

Notícias do país que "tem professores a mais"

"Quase um milhão de portugueses não tem qualquer nível de escolaridade. (...) Cerca de 49,1% da população com mais de 15 anos não possui o 9º ano de escolaridade e 25,5% tem apenas o 1º ciclo do ensino básico."

 

Podem continuar sentindo orgulho na Pátria, lendo por aqui.

 

(Perante isto, é impossível não sentir algum alívio: imagine-se como estaríamos, se não houvesse "professores a mais"!... Não sei como será na Áustria, esse exemplo eleito por Nuno Crato [ver video, a partir do min 3], mas caberá perguntar: é admissível comparar-se, como ele faz, de qualquer maneira, o número de professores dos dois países (ou a sempre popular ratio professores/alunos), sem ter em conta multiplicidades curriculares, diferenças históricas e culturais, o estado actual de escolaridade das populações, etc?... A não ser que se varra tudo isso - e caberá, então, perguntar ainda: é sério esse modo de dispor as coisas?... A resposta parece-me evidente.

Entretanto, já sabemos que virá por aí a litania - curiosamente, contraditória com o resto da "argumentação" - segundo a qual não importará a quantidade de docentes, mas sim a sua "racionalização", o que permite sempre aceitar acriticamente qualquer número, independentemente do seu reflexo na qualidade do serviço.)

 

A expressão "professores a mais" é filha de uma perspectiva que, curiosamente, apenas aceita derivações num só sentido. Isto é, para os adoptantes dessa perspectiva, é admissível somente o "a mais", mas nunca o "a menos". Portanto, à primeira vista, se se aparecesse, sem mais, a defender haver "professores a menos", cair-se-ia na mesma miopia infantil. Aparentemente, essa seria uma acusação justa. Mas acontece que, na verdade, tratando-se deste assunto (por mais que assim seja para algumas cabeças simples, os assuntos não são todos equivalentes...), o significado de "professores a menos" não é apenas e simplesmente o reverso de "professores a mais". Por assim dizer, o uso desta última expressão acaba, afinal, por ter uma diferença "qualitativa" e não meramente "quantitativa" relativamente à outra. Isto é, nesse sentido, e cedendo até certo ponto à ridicularia impertinente destas expressões, diga-se que nunca há professores "a mais" e que, pelo contrário, há sempre professores "a menos".

 

Só não seria assim, se o ensino-e-aprendizagem fosse um processo de "engorda" (como se tende, naturalmente, a considerá-lo). Mas não. O "resultado" do ensino não é qualquer coisa como um acrescento finito (a "engorda"), mas antes uma alteração do olhar. Talvez simplificando, é o que acontece quando uma criança deixa de ver, diante de si, traços ininteligíveis e passa a ver, ali, letras (isto é, o seu olhar, não se qualifica, mas, antes, altera-se para um ler); quando se estuda a partir da tabela periódica; quando se reconhecem figuras de estilo; quando se determinam propriedades do espaço antes insuspeitas; quando se descobre a cadência da anáfora; etc. Só se as coisas não se passassem assim, haveria lugar para uma recorrente possibilidade de um "a mais" de professores - acontece que é essa própria possibilidade que não faz, de todo, sentido.

 Pode passar-se na situação presente aquilo que vulgarmente se descreverá como "desperdício". Um professor, enquanto tal, mesmo que enquadrado no serviço público (ou, talvez, precisamente por isso), constitui-se sempre como a (instituída) condição da possibilidade da completação infinita da natural incompletude dos humanos. E essa tarefa é infinda.

Nesse sentido, a simples consideração do "haver professores a mais" (para não falar das decisões políticas mesmas) constitui qualquer coisa como um absurdo antropológico.

publicado por Carlos Botelho às 00:40 | comentar | ver comentários (14) | partilhar
Segunda-feira, 10.09.12

Da RTP (12)

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publicado por Carlos Botelho às 17:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Não uma derrota, mas sim uma extinção

"(...)

Há momentos reveladores. Para Elias Rukla, o professor de literatura norueguesa da Escola Secundária de Fagerborg, foi quando ouviu na sala de aula o suspiro de enfado de um aluno. Ou antes disso, quando se começou a “sentir ofendido porque os jornais e as televisões já não se dirigiam a ele”.  Já não lhe apetecia ler, os debates da televisão não tinham ninguém com quem realmente se identificasse. Sentia-se “à margem”, “fora do jogo”, e magoado por isso. Precisava de encontrar as pessoas diferentes. Alguém que, inesperadamente, uma manhã, lhe citasse Thomas Mann, como acontecera uma vez na sala de professores. Mas  “o espaço  público que uma conversa exige estava ocupado” .

A notícia de encerramento do serviço público de televisão diluiu-se no ruído de fundo da rebentação das ondas de agosto. Uma administradora do regime escreveu na sua página muito fresca do FB que “não estava disposta a pagar os prazeres culturais de 4%”. Elias  também pensou , no início, que o seu mal estar era o de uma minoria que não aceitava a sua derrota. E que era preciso ter a humildade necessária para continuar a acatar as regras da maioria, mesmo quando elas parecem absurdas.
Não se tratava de uma derrota mas sim de uma extinção. Um barco para a deportação, um campo de extermínio, uma câmara de gás, um gulag. Devemos aceitar o garrote em nome da democracia? Da vontade da maioria. Os touros de morte, a festa brava, a nossa marca cozida à blusa, o matadouro.
(...)"
 
Luís Januário, "A resposta de Gregers Werle", A Natureza do Mal
publicado por Carlos Botelho às 00:56 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Sábado, 08.09.12

Da RTP (11)

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publicado por Carlos Botelho às 21:05 | comentar | partilhar

Mistério juvenil

 

"Este Ministério está a olhar para o século XXI. Houve uma ilusão no século XX de que as ideias do século XIX sobre a Educação funcionavam - de não haver avaliação dos estudantes, de não se ser exigente. O século XXI aparece com muito maior conhecimento sobre Educação, da importância da autonomia das escolas, da avaliação, do reforço das matérias fundamentais, de metas curriculares. É um salto para o futuro."

O Ministro da Educação, ontem, ao Sol.

 

É para mim um mistério que Nuno Crato, mesmo não mostrando ter, propriamente, um pensamento sobre a Escola e mesmo sendo dificilmente merecedor de respeito depois de uma entrevista como esta, que ele, um homem inteligente, diga aqueles simplismos grosseiros de feira. Trata-se de superficialidades agora em moda para entreter ignorantes e para conferir um verniz "científico" ao discurso daqueles - abundantes por aí - que não sabem do que falam. Era mesmo preciso?...

publicado por Carlos Botelho às 12:10 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Duas perguntinhas

As medidas apresentadas há poucas horas pelo primeiro-ministro não reincidem, afinal, na inconstitucionalidade denunciada antes pelo Tribunal competente?...

Pretende este governo relapso cometer suicídio?...

publicado por Carlos Botelho às 01:16 | comentar | ver comentários (23) | partilhar

"Uma falsa polémica historiográfica"

A justa perplexidade do Fernando Martins: aqui.

publicado por Carlos Botelho às 00:33 | comentar | ver comentários (16) | partilhar

Da RTP (10)

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publicado por Carlos Botelho às 00:18 | comentar | partilhar
Sexta-feira, 07.09.12

Cabeça de fósforo

Ele aproxima o fósforo aceso do livro e, provocador, pergunta ao outro: tens cinco segundos para me mostrar a importância deste monte de papel, em cinco segundos tens de me mostrar que não devo queimar este livro.

Num certo sentido, ele tem razão. De facto, o livro arde rapidamente - muito mais rápido do que leva lê-lo ou comentá-lo. Queimá-lo é garantido, é seguro, é sempre mais fácil. Está ao alcance de qualquer um. Pelo contrário, tentar pensá-lo é "incompreensível", "ridículo", risível.

Os que aplaudem a política de "educação" do governo presente estão na posição do sujeito que empunha o fósforo.

publicado por Carlos Botelho às 17:30 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Janelas

 

Ouve-se por aí, escuta-se com unção - para mais, agora que começa um ano lectivo -, que um livro "abre janelas para o mundo". Esta piedosa pirosice pretenderá, por certo, atrair os "jovens" e outros em geral para a "leitura". Com isso, consegue-se, talvez, uma aproximação "estatística" dos livros - não qualquer coisa como uma apropriação. Uma leitura não se constituirá, assim, naquilo que ela mesma é: um acontecimento estético.

Um livro não "abre janelas". Um livro rebenta paredes.

Ou acham que, por exemplo, A Metamorfose, ou o Padre António Vieira, ou a Cena do Ódio, ou a Primeira Carta aos Coríntios abrem janelas, se limitam a espreitar por uns buraquinhos que já lá estavam?...

publicado por Carlos Botelho às 15:28 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 06.09.12

Sensatez

 

"(...)

Gostaria, porém, de chamar a atenção para um ponto que, podendo parecer da ordem do lírico ou metafísico, me parece deveras esquecido ou secundarizado. A RTP é uma instituição, uma instituição sedimentada e radicada na sociedade portuguesa, com a qual os portugueses desenvolveram um sentimento de afeição e de pertença. A RTP, enquanto instituição, não é apenas património material do Estado, é património imaterial dos cidadãos. E as instituições, especialmente quando suscitam e concitam essa empatia dos cidadãos, devem ser cuidadas e respeitadas.

 Em Portugal, subsiste este hábito insalubre de, a cada ímpeto reformista, reinventar a roda, desaproveitando todo o esforço material e toda a cultura organizacional que perfazem uma instituição. As nossas reformas vivem sempre sob o espectro da tentação revolucionária, com o seu alegado potencial de destruição criativa. Cada reformador toma-se e imagina-se como o primeiro, o último e o definitivo. E essa recorrente apetência revolucionária gera uma enorme resistência à implantação e à estabilização de verdadeiras instituições, cria uma singular repulsa à instalação de “culturas institucionais”. Portugal precisa de referências, de marcas identitárias, de culturas organizativas e institucionais nas quais se mire e se reveja, especialmente em tempos de grande incerteza e instabilidade, de insegurança e volatilidade. Portugal precisa de instituições, mesmo quando estas carecem ostensivamente de reforma, de aperfeiçoamento e de mudança.

 Ora, nem todos parecem estar conscientes de quão incómodo é para a grande maioria dos portugueses e, nomeadamente, para as depauperadas classes médias um eventual processo de expropriação colectiva da RTP, especialmente se precedido de uma propedêutica de “aviltamento” e “rebaixamento” da instituição. Em política, como na vida, os sentimentos contam. O Governo tem licença democrática para renovar o panorama audiovisual e para o adequar às exigências de um Estado financeiramente responsável. Mas, qualquer que seja a solução, não deve esquecer que a RTP não é apenas uma empresa, é uma instituição. E se é verdade que ela faz parte da mobília, também não é menos certo que ela faz parte da família. E uma coisa é mobília e outra, assaz diversa, é família…"

 

Paulo Rangel, aqui. [Os sublinhados são meus.]

publicado por Carlos Botelho às 01:17 | comentar | ver comentários (10) | partilhar
Quarta-feira, 05.09.12

ΣΚΟΤΟΣ

Τίμων, (οὐ γὰρ ἔτ᾽ ἐσσί) τί τοι, σκότος ἢ φάος ἐχθρόν;

 ‘τὸ σκότος: ὑμέων γὰρ πλείονες εἰν Ἀίδῃ.’

 

Anthologia Graeca, Epigramas, 7, 317.

publicado por Carlos Botelho às 13:28 | partilhar

Da RTP (9)

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publicado por Carlos Botelho às 00:31 | comentar | partilhar
Segunda-feira, 03.09.12

Motivo 17

Leste, estudaste Goethe. Exercitaste as vozes, os casos, as desinências. Definiste as funções trigonométricas. Conheceste cette putain de Bovary. Acompanhaste a mitose. Desencontraste-te com Platão, com Hegel, talvez com Heidegger. Ponto e Linha sobre Plano. Foste lendo o Padre António Vieira, o Camilo, a Sophia de Mello Breyner (esta, em voz alta), o Húmus. Voltaste várias vezes a Camões. Bauen, Wohnen, Denken.

Depois, quiseste... não suportaste que outros o não experimentassem.

Mas nada disso importa. Tu não importas. E a culpa é exclusivamente tua e está em ti. Quem te mandou querer estudar e querer ensinar os outros? Agora, aí tens.

 Já não tens o teu nome individual. Já nem sequer tens um nome específico, como 'professor de Matemática' ou 'professor de Português'. Não. O teu nome, agora, é genérico. Lembra-te, a partir de hoje, chamas-te: Motivo 17 - Cessação por caducidade de contrato de trabalho a termo.

 

publicado por Carlos Botelho às 23:59 | comentar | ver comentários (21) | partilhar

Da RTP (8)

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publicado por Carlos Botelho às 19:00 | comentar | partilhar

Minis zero

 

Impossível não concordar com:

 

"Na Universidade de Verão (...), a JSD (...) continua a insistir na “necessidade de adequar o ensino superior ao mercado de trabalho”, transformando o Ensino Universitário em nada mais que uma escola de formação profissional, condicionada pelas áreas com mais emprego. Retirando, portanto, a liberdade aos jovens para definirem o seu caminho (...). Outra ideia “brilhante” é a dos Mini-Jobs, uma espécie de variante dos recibos verdes."
publicado por Carlos Botelho às 02:01 | comentar | ver comentários (5) | partilhar
Domingo, 02.09.12

Uma dúvida

 
"A troika, desta vez, terá de se avaliar a si própria.

(...)

 Ou a troika reconhece que o programa que nos aplicou tem de ser ajustado à realidade, uma vez que os resultados divergem dos objectivos traçados, ou insiste no cumprimento das metas preestabelecidas e impõe mais austeridade.

No primeiro caso, deixa-nos avançar ao ritmo adequado à realidade, como aconselha o bom senso.

No segundo caso, conduz-nos para um caminho que pode desembocar numa "outra Grécia".

(...)"

Manuela Ferreira Leite, no Expresso, ontem.

 

 

 

 

Pergunto a quem de direito: Manuela Ferreira Leite será "piegas", será... enfim, "histérica" ou entregar-se-á aqui a um incompreensível exercício de "gritaria"?...

publicado por Carlos Botelho às 12:50 | comentar | ver comentários (9) | partilhar

Felix culpa

O que se passou, na verdade, com os professores portugueses nos últimos meses, culminando na Sexta-Feira? Repito: na verdade. Seja qual for a perspectiva em que nos pusermos, não se pode deixar de ver que os professores, todos, foram diminuídos, foram enxovalhados, foram maltratados (- os verbos são adequados). Foram (peso as palavras) sujeitos a uma política de terror. Recordemos sempre que esses assim tratados são, apenas, os responsáveis pela transmissão dos saberes, de um património estruturante. Só isso.

Grande falta terão cometido, para que tenham sido submetidos àquele processo punitivo... (Sim, punitivo.) Qual foi o seu crime, de que são eles culpados?... Acontece que não fizeram isto, nem cometeram aquilo. Fizessem o que fizessem, tinham já uma culpa de fundo que determinava antecipadamente a sua sorte. A sua culpa não está dependente dos seus actos. A sua culpa está, precisamente, inscrita na sua condição enquanto tal. Portanto, sendo professores, estão condenados à partida - porque a sua é uma culpa que não podem evitar, de que se não podem libertar. Só não sendo, seriam inocentes. Mas como podem eles não ser o que são?... As coisas são dispostas de modo que a culpa dos professores não lhes está acrescentada e, ipso facto, não lhes pode ser retirada. Não constitui um acidente. A culpa é objectivamente sua.

Numa palavra, a culpa, a falta, daquelas dezenas de milhar de pessoas é, simplesmente, esta: ensinarem.

publicado por Carlos Botelho às 09:00 | comentar | ver comentários (13) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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