Quarta-feira, 20.06.12

Camarada Pestana Bastos

Confesso que não partilho a tua mágoa pelas supostas injustiças dos sistemas eleitorais grego e francês. Em primeiro lugar, o arrefecimento das expectativas do Syriza e da Frente Nacional prova que a democracia na Europa está de boa saúde, apesar de tudo, e consegue gerar legalmente os anticorpos necessários para conter os radicais. Não ajuda muito cair no erro de ver estes partidos como apenas uma alternativa entre as várias que vão a votos. Uma coisa é estar atento às preocupações de tão larga percentagem dos eleitores, outra é  alterar as regras do jogo para evitar chatices. O sucesso dos extremistas é infeccioso: contagia toda sociedade com a sua retórica tribal. Uma das coisas mais deprimentes da última campanha em França foi o namoro de Sarkozy e Hollande ao ressentimento contra a emigração, tal como foi deprimente a perspectiva de entregar o poder na Grécia ao Sr. Tsipras e aos seus delírios de nacionalizar a banca.

Além disso, as regras estavam definidas à partida e ninguém as contestou quando as sondagens eram favoráveis às vítimas. Qualquer pessoa percebe que essas regras existem para assegurar maiorias estáveis, o que não tem formalmente nada de antidemocrático. Passa-se o mesmo em Inglaterra e ninguém (suponho) põe em causa a democraticidade da política britânica. Se não há regimes políticos perfeitos, também não há sistemas eleitorais perfeitos. As razões do bipartidarismo na Câmara dos Comuns são as mesmas que levam a Frente Nacional a ter só dois deputados na Assembleia Nacional ou a Nova Democracia a receber meia centena mandatos de bónus por ter ganho as eleições. Que isto aconteça à custa de gente perigosa só prova, desculpa-me o excesso de franqueza e a falta de aritmética, que ainda há justiça no mundo.

publicado por Pedro Picoito às 14:00editado por Paulo Marcelo às 17:26 | comentar | ver comentários (21) | partilhar

Convite


 (Clique para ver melhor: vale bem a pena.)

 
publicado por Pedro Picoito às 13:59 | comentar | partilhar
Terça-feira, 19.06.12

Convite


(Clicar para ver melhor.) 
publicado por Pedro Picoito às 17:24 | comentar | partilhar
Segunda-feira, 18.06.12

Exceptuando todos os outros


Tudo somado, os piores receios não se concretizaram. Não, não me refiro à nossa continuidade no Europeu da bola, mas às eleições em França e na Grécia. O partido de Madame Le Pen só elegeu dois deputados, o que esvazia por uns tempos o balão da extrema-direita gaulesa, e o Syriza não ficou a governar Atenas, apesar (ou por causa) das suas promessas de partir a euroloiça toda. 

É por estas e por outras que a democracia continua a ser, como dizia Churchill, o pior sistema exceptuando todos os os outros. O povo nem sempre é sereno, mas gosta pouco de extremistas. O voto ainda é uma arma - contra as armas do ódio e do absurdo. Com algumas excepções históricas, de que Hitler representa o mais proverbial exemplo, a democracia inventada pelos gregos e modernizada pelos franceses tem dado conta do recado. No Ocidente, pelo menos.

Business as usual, dirão alguns. Talvez, mas é o que nos separa da barbárie.
publicado por Pedro Picoito às 21:01 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

Cachimbos de lá


Cornelius Saftleven, Homem com elmo fumando cachimbo, s. XVII.
publicado por Pedro Picoito às 13:09 | comentar | partilhar
Sexta-feira, 15.06.12

Épater le bourgeois

Camaradas, façam moções de censura, cocktails-molotov, manifestações, panfletos, revolta, danças, gritos, povo, façam a revolução, uma terra sem amos, amanhãs que cantam, a sociedade sem classes, o amor e não a guerra, façam o que quiserem, mas, por favor, não tentem fazer poesia. Já nos chega a crise.

publicado por Pedro Picoito às 19:43 | comentar | partilhar
Quinta-feira, 14.06.12

Para os nostálgicos de São Martinho do Porto (ainda a cores)


publicado por Pedro Picoito às 16:58 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Quarta-feira, 13.06.12

Diário de um cínico

 

Paralela à guerra civil na Síria, há uma outra guerra - de palavras - que se trava nos media internacionais entre a Rússia, aliada de Assad, e a América, favorável aos revoltosos. No Conselho de Segurança da ONU, à Rússia junta-se a China, empenhada em limitar a todo o custo o "imperialismo" americano. Ontem, Hillary Clinton subiu de tom e acusou os russos de venderem armas ao regime sírio, alimentando o conflito. Um quarto de século depois da queda do Muro, parece que voltámos à Guerra Fria. Alguém falou em fim da História? 

publicado por Pedro Picoito às 22:58 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Cachimbos de lá


Eugène Delacroix, Árabes fumando à porta de casa, s.d. 
publicado por Pedro Picoito às 08:33 | comentar | ver comentários (1) | partilhar

The Queen

"The Queen has prepared for or performed her present role since December 1936, wnen her uncle David abdicated. In the entire history of the world, there can be half a dozen others of whom something similar could be said. In theory, these 75 years devoted to one grat thing make the Queen a wonderful subject for interview. Obviously it is prudent of her never to have submitted to cross-examination, but also I suspect that if she did, she would not play by the rules of the game. She would not like or even understand the inevitable "How does it feel?" question. It is part of the secret of her success that she always quietly repudiate its premise, which is that one´s feelings in this matter are of any account."

Charles Moore, "The Spectator`s Notes", in The Spectator, 2 June 2012. 

publicado por Pedro Picoito às 08:24 | comentar | partilhar
Terça-feira, 12.06.12

Para os nostálgicos de São Martinho do Porto (agora a cores)


 



 
publicado por Pedro Picoito às 15:19 | comentar | partilhar

Convite

publicado por Pedro Picoito às 14:21 | comentar | partilhar

Crónicas da Renascença: Vinho Maduro*


Há semana e meia, em Milão, Bento XVI reuniu-se com milhares de participantes no Encontro Mundial das Famílias. No dia 4, respondeu às perguntas de alguns dos presentes, entre as quais a de um casal de namorados de Madagáscar que lhe disse querer unir-se pelo matrimónio, mas ter medo das palavras "para sempre". A resposta do Papa lembra-nos a todos, casados e solteiros, leigos e consagrados, católicos e não católicos, a grandeza do casamento, esse sacramentum magnum, como lhe chamou São Paulo.
No Ocidente, depois do século XIX, o casamento já não é um acordo entre famílias, mas uma escolha pessoal em que a liberdade do homem e da mulher conta mais do que todas as conveniências sociais. O casamento passou a ser "por amor", um sentimento que, pelo seu valor absoluto,  garantiria o valor absoluto do compromisso. Mas a experiência ensina que os sentimentos resistem mal à passagem do tempo e que uma união "por amor" nem sempre é uma união "para sempre". Por isso, sublinhou o Papa, "no rito do matrimónio a Igreja não pergunta estás apaixonado?, mas aceitas? queres?, estás decidido?"
Na verdade, esta fórmula contratual, aparentemente tão pouco romântica, traduz a essência do amor "para sempre" - o amor como projecto de vida. A paixão provoca a decisão de casar, mas só a vontade assegura a decisão de continuar casado. Quando me caso, caso-me com alguém e não com as suas circunstâncias. Ou com todas as suas circunstâncias. Caso-me com esta pessoa e não apenas com as qualidades que, um dia, desejei possuir eternamente (e ternamente). Caso-me com um ser humano e, portanto, também com os seus defeitos. Caso-me com o encanto da juventude, o brilho que a paixão aumenta, o sorriso de quem transporta todas as esperanças do mundo, mas também com a rotina, o cansaço, o peso dos anos, as inevitáveis desilusões, as pequenas e grandes dificuldades, os pequenos e grandes sofrimentos de uma vida a dois. Num poema intitulado "Quando fores velha", Yeats dirige-se assim à mulher amada:
Quantos amaram os teus momentos de graça e alegria
e a tua beleza com amor falso ou verdadeiro,
mas só um homem amou a tua alma peregrina
e as tristezas do teu rosto passageiro.  **
É um poema que termina com uma nota de melancolia. O amor foge e "esconde o seu rosto entre as estrelas". Em Milão, o Papa usou outra imagem: o vinho das bodas de Caná, bodas que Jesus abençoou com um milagre. "O primeiro vinho que veio para a mesa era óptimo: é a paixão. Mas não durou até ao fim. Veio então um segundo vinho, mais forte e maduro. Um amor definitivo é melhor do que aquele que não dura. É esse que devemos procurar."
Não há aqui qualquer irrealismo. Irrealismo é pensar que o próximo amor será sempre melhor. Mas o amor, diz-nos o Papa, é um vinho maduro: melhora com o tempo.
 
*10/10/2012.   
** No original: How many loved your moments of glad grace,
                          And loved your beauty with love false or true,
                          But one man loved the pilgrim soul in you,
                          And loved the sorrows of your changing face.          
publicado por Pedro Picoito às 11:43 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Mistérios românicos

Em Espanha, uma notícia surpreendente está a agitar a opinião pública, os meios políticos e a academia. Um historiador de arte, Gerardo Boto, descobriu o que parece ser um claustro românico em excelente estado de conservação numa quinta perto de Girona, na Catalunha, mas ninguém conhece a sua origem. O actual proprietário diz que o monumento foi transferido para o local nos anos 50,  pedra por pedra, e que estava ao abandono num armazém de Madrid. A grande questão, entretanto, é saber de onde vêm as ditas pedras e como é que foram lá parar. A acompanhar aqui e aqui.

publicado por Pedro Picoito às 10:29 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Sexta-feira, 08.06.12

Da série "A concorrência faz melhor"

"Maria José Oliveira demitiu-se porque o jornal onde trabalhava revelou a natureza da inexistenete ameaça que um ministro jurou não lhe ter feito. Já não me recordava de um filme tão bom desde A mulher que viveu duas vezes."

publicado por Pedro Picoito às 18:34 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

A minha única surpresa

A minha única surpresa com as palavras de D. Januário é haver quem ainda se surpreenda com as palavras de D. Januário.

publicado por Pedro Picoito às 18:28 | comentar | ver comentários (5) | partilhar

Cachimbos de lá


Sam Weber, Captain Beatty (Fahrenheit 451), 2012.
publicado por Pedro Picoito às 14:47 | comentar | partilhar

Ontens que cantam

Por esta altura, já toda a gente viu as imagens do deputado grego da extrema-direita a agredir, em pleno debate televisivo, uma deputada comunista e outra da esquerda radical. Na Grécia, o repúdio foi generalizado e o incidente pode sair caro ao partido do rufia, a Aurora Dourada, nas próximas eleições. Por cá, o editorial do Público de hoje invoca a velha imagem do "ovo da serpente" do neonazismo e aqui e aqui, previsivelmente, há alguma comoção com a violência à solta.

Está tudo muito bem, ou muito mal, mas, cínico que sou, persisto em desconfiar de indignações selectivas. Não me recordo da mesma veemência quando as tropas de choque dos partidos das agora agredidas puseram as ruas de Atenas a ferro e fogo, há pouco tempo, em protesto contra a austeridade, a troika, o sistema, a democracia e demais injustiças do universo. Pelo contrário, os críticos da extrema-direita que distribui sopapos mostravam-se muito compreensivos para com a extrema-esquerda que atirava cocktails-molotov a polícias e bancos, às vezes com os trabalhadores lá dentro.

Aqui para nós, quer-me parecer que a violência é condenável em ambos os casos. Mas eu, como todos sabem, sou determinado pela lógica burguesa da não contradição, esse preconceito reaccionário que me leva a aplicar a mesma moral (outro preconceito reaccionário) à direita e à esquerda - ou melhor, aos porcos fascistas da direita e aos libertadores do povo da esquerda. Quando a revolução triunfar, isto passa-me. Talvez com um cocktail-molotov. Em directo.

publicado por Pedro Picoito às 14:09 | comentar | ver comentários (40) | partilhar
Quinta-feira, 07.06.12

Ray Bradbury (1920-2012)


Para mim, Bradbury é um livro: Fahrenheit 451. Ele, que fez dos últimos seres verdadeiramente humanos da sua distopia homens-livro, não teria desgostado do BI. Ainda lhe li outras coisas menores (O Homem Ilustrado e as célebres Crónicas Marcianas), mas nada me provocou o impacto profundo da história de Montag, o bombeiro que queima clássicos à "temperatura a que um livro se inflama e consome", e  da sua conversão à comunidade textual dos "homens que se recordam". Uma cena, entre todas, ficou-me para sempre. É aquela em que Montag lê o poema Dover Beach, de Mathew Arnold, ao pânico silencioso da mulher e das amigas, "no deserto incolor que rodeava as três mulheres, sentadas no centro de um vácuo abafante", mais porque alguém lhes lesse poesia e as obrigasse a pensar por segundos na alienação a que haviam devotado a sua vida do que por ser proibido ter e ler livros:  

The sea of faith/ was once, too, at the full, and round earth´s shore/ lay like the folds of a bright girdle furl´d./ But now I only hear/ its melancholy, long, withdrawing roar,/ retreating, to the breath/ of the night wind, down the vast edges drear/ and naked shingles of the world./ Ah, love, let us be true/ to one another! for the world, which seems/ to lie before us like a land of dreams,/ so various, so beautiful, so new,/ has really no neither joy, nor love, nor light,/ nor certitude, nor peace, nor help for pain,/ and we are here as on a darkling plain/ swept with confused alarms of struggle and flight/ where ignorant armies clash by night. 

Foi quando li estas linhas, muito antes de conhecer o poema todo, mais longo e ainda mais deslumbrante, que compreendi para que serve a poesia.

"A Sra. Phelps soluçava. As outras, no meio do deserto, viam-na chorar de rosto desfeito. -Então, então - disse Mildred. -Acabou-se, Clara, domine-se um pouco! Mas o que é que se passa? -Eu...Eu... -soluçava a Sra. Phelps - não sei, não sei, realmente não sei... A Sra. Bowles levantou-se e fixou em Montag um olhar de censura. -Vê? Eu já sabia, é o que eu estava a dizer. Já sabia que isto ia acontecer. Sempre disse: poesia e lágrimas, poesia e suicídio, poesia e neura, a poesia faz-nos mal! É só disparates! Agora tenho a certeza. O senhor é mau, Montag, o senhor é um homem mau!"

Não, não era.

E depois houve o filme de Truffaut, outra revelação. Truffaut lia a obra de Bradbury com um olhar surpreendente. A escolha da mesma actriz,  a magnética Julie Christie, para fazer ao mesmo tempo de Mildred e de Clarice, assim evidenciando a duplicidade asfixiante da vida de Montag, bombeiro e leitor, guardião do sistema e herege em fuga, era simplesmente um golpe de génio. Truffaut punha a psicologia errante de um Montag em plena crise existencial no centro do filme, desvalorizando a feroz crítica à political correctness e à alienação tecnológica da sociedade moderna de Bradbury. Mas, na minha memória, Montag foi desde então Oskar Werner, um actor hoje esquecido e com queda para personagens torturadas, e Julie Christie, até a rever no Dr. Jivago, foi o outro lado inocente ou perverso do bombeiro queimador.

Obrigado, Mr. Bradbury. No céu dos escritores, onde certamente te encontras, imagino-te rodeado pelos teus companheiros de ofício que "tocaram a vida com os dedos". E estarão a escrever um grande e belo livro resistente a todos os fogos do mundo.
publicado por Pedro Picoito às 13:42 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Terça-feira, 05.06.12

Happy End

Maria José Oliveira, a jornalista do Público ameaçada pelo ministro da comunicação social, demitiu-se ontem. Fecha-se um ciclo. Agora só falta a ERC concluir que não há prova de pressões, mas que Miguel-palmadinhas-nas-costas-bela-gravata-Relvas devia abster-se de telefonar a jornalistas porque a promiscuidade entre política e jornalismo é coisa horrorosa e tal.

O brave new world. 

Entretanto, o Governo anunciou outra vez a privatização da RTP, dando o que julga ser um sinal de força. Acho bem. Acho muito bem. Acho mesmo muitíssimo bem.  A Ongoing vai concorrer?

publicado por Pedro Picoito às 11:01 | comentar | ver comentários (4) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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