Terça-feira, 19.06.12

Vão-lhe tratar da saúde...

 

Um dos próximos acontecimentos a seguir com interesse nos EUA é a decisão do Supremo Tribunal sobre o Obamacare - deve estar para sair ainda em Junho.

É relevante por vários motivos: o primeiro, porque o assunto da saúde, em si, tem entidade; segundo, porque politicamente é o maior projecto de Obama, e espera-o uma vitória importante ou uma derrota amarga; terceiro, porque a partir deste evento se vai delinear uma parte importante dos confrontos na campanha para as presidenciais que se avizinham.

Se Obama perde esta decisão, os Republicanos ganham força (e logo com um assunto que os une), mas também serão obrigados a elaborar melhor qual é a sua alternativa para a saúde.

Por outro lado, vê-los a ganhar no Supremo, com a força que já têm no Senado e no Congresso, pode levar muitos democratas preguiçosos a sair de casa no dia das eleições para garantir que não ficam também com a Presidência. E nos EUA há muita abstenção - conjunturas que acordem abstencionistas de um dos lados podem ser bombas nas eleições.

Dizem os entendidos que vai sair chumbo, mas que não é pacífico saber que parte da complexa lei de Obama é para ser declarada inconstitucional - toda, ou só um bocadinho. É que cortar esse "bocadinho" que justifica a inconstitucionalidade é como cortar a cabeça da lei. E o Supremo não deve querer deixar a saúde dos americanos nas mãos de um cadáver...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 12:11 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Segunda-feira, 18.06.12

Obrigado, Nani!

 

Obrigado, Nani, por saberes centrar. É tão raro haver jogadores de futebol portugueses, nomeadamente extremos, que saibam centrar. Correm, fintam, tiram o adversário da frente... e depois sai aquela trajectória aleatória que só por acaso encontra um jogador da nossa equipa.

O João Pereira era o triplo do jogador que é se soubesse centrar. Mas a gente perdoa-lhe porque teve aquele momento Iniesta ontem, no primeiro golo.

O Fábio Coentrão é um grande jogador, e só lhe falta... centrar um pouco melhor. Também fez um grande jogo ontem.

Há outro jogador português que sabe centrar - Cristiano Ronaldo. É pena não poder estar a centrar e, ao mesmo tempo, a receber a bola no centro da área. Claro que ele pode centrar para o Postiga mas, como dizê-lo?, não é a mesma coisa.

Foi bonito ontem ver o Ronaldo a centrar primorosamente para o Nani (que falhanço!), e o Nani a centrar primorosamente para o Ronaldo, primeiro para a cabeça, depois o passe do segundo golo: contra-ataque, Ronaldo aponta para onde quer a bola, Nani está de cabeça levantada e faz aquela bola curva pela frente da defesa. Ronaldo recebe a bola com um toque que é também a finta que tira o defesa da jogada. Assim até parece fácil.

Bem, e já chega, que tenho de ir procurar aquela bandeira portuguesa de pôr à janela.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 12:27 | comentar | partilhar

Obrigado, Francisco!

 

louca-syriza

 

 

Partido de esquerda radical Syriza favorito nas sondagens na Grécia; Francisco Louçã viaja à Grécia e dá o seu contributo; Syriza afinal perde as eleições.

Não está ainda provado que tenha havido causalidade - em princípio deve ter sido só coincidência...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 12:06 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Sábado, 16.06.12

Em quem é que os gregos vão pôr a cruz?

 

 

Depois de seguirmos, em Portugal, a eleição de Obama em 2008 como se ele fosse o salvador do mundo, este Domingo estaremos atentos a outras eleições estrangeiras que nos afectam, desta vez de uma forma muito mais real, e com contornos de pesadelo acordado em vez de sonho idílico. Na Grécia, se as coisas correrem bem, podemos (nem isto é certo) ter mais um pequeno adiamento para a ruptura do euro. Se correrem mal, tudo se vai precipitar…
Por limitações próprias do modo como funciona a democracia, tudo isto sucederá sem que nenhum político decida, e sem que nenhum cidadão grego se possa pronunciar sobre o que pensa da permanência no euro ou na UE, ou de um eventual default da dívida, etc.
O pessoal simplesmente chega lá e põe a cruzinha num partido, e depois sai aquele circo que se viu lá nas últimas eleições, para ver quem consegue formar governo, e que raio de hipótese terá esse governo… entretanto os dinheiros vão-se mexendo de um lado para o outro sem pedir autorização a nenhum governo. O barco do euro está tão instável que se vira se demasiadas pessoas correrem ao mesmo tempo para o mesmo lado. A cruz dos gregos será carregada por essa Europa fora...

Se havia um tempo para decisões com pés e cabeça, esse tempo já passou. Este Domingo temos uma espécie de totoloto sobre o futuro da Europa, vamos lá ver o que é que nos sai.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 11:04 | comentar | partilhar
Sexta-feira, 15.06.12

The Dø

Os The Dø são uma banda de indie-pop formada por Olivia Merilahti e Dan Levy. Ela vem da Finlândia e foi viver para Paris, onde o encontrou a ele. Ela canta e toca guitarra, gosta de pop e de música tradicional. Ele toca uma pancadaria de instrumentos, e gosta de jazz, música clássica e quase tudo menos pop. À medida que os vou conhecendo, começo a suspeitar que ele é um grande músico.
Começam a consumir-se por On My Shoulders e At Last, e fica-nos um pop suave, com um jeito próprio e bons pormenores. São músicas do A Mouthful, álbum de 2008, que eles definem como "solar, bright".


A voz de Olivia é estranhamente caseira, estreita, vem da garganta sem muito pulmão, é frágil e arrisca muitas vezes ir à beira do defeito. Com tudo isto, é uma voz doce que não enjoa, e é expressiva e muito criativa. É uma excelente voz pop, se nos lembrarmos que as vozes pop não têm de ser boas sozinhas, têm é de funcionar com as canções. Afinal, se uma música pergunta 50 vezes "why?" o melhor é mesmo dispensar o casting tipo Voz de Portugal, e até fica bem alguma vacilação e acanhamento.
Depois vem o outro álbum, Both Ways Open Jaws (2011), que já é mais "moon-like". Daqui se tira este Slippery Slope, aqui numa excelente versão live in studio com um longo solo de saxofone de Dan Levy, aos 4m15s.


Nada mau, para alguém que não é especialista. Não é um solo de jazz, de virtuosismo; é um solo de criação de tensão, selvagem e hipnótico. É diferente da versão que está no álbum, e é fácil encontrar no Youtube versões das músicas deles com orquestrações diferentes, porque com músicos destes as músicas estão vivas.
O resto dos dois álbuns é um prazer de descobrir. São criativos, estes The Dø. Trazem lá dentro muitas paisagens, são amplos e variados. Parecem sempre maiores do que as suas (grandes) canções.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 11:43 | comentar | partilhar
Quarta-feira, 13.06.12

Nuno Crato no bom caminho?

 

É estranho sentir um certo alívio ao ler notícias sobre os maus resultados dos exames de Matemática no 4º e 9º ano. Mas depois de alguns anos em que não havia problemas em comprometer a qualidade da educação para garantir resultados, descansa-me ver que o actual Ministério prefere comprometer os resultados para garantir a qualidade.

Os exames têm várias funções: seriar alunos, chumbar os quer não cumprem mínimos, permitir comparações internacionais, avaliar os vários intervenientes no ensino (não só os alunos). Também têm uma função essencial: obrigar a estudar, pôr metas "dolorosas" para os alunos, puxar por eles... e pelos vários intervenientes no ensino.

Como sabe bem quem já ensinou, isto requer um ajuste, um equilíbrio, para que a exigência ajude, e não desanime. Talvez esse equilíbrio ainda esteja por conseguir para estes exames de matemática. Mas temos motivos para acreditar que está a ser procurado, atendendo às várias funções dos exames. Sem eleger como função principal dos exames a glorificação do governo...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 12:39 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Domingo, 10.06.12

3 segundos de Cinema

Da primeira vez que vi O Caçador, de Michael Cimino, era novo demais, e a principal impressão foi… este filme tem três horas. Ah, e tem umas cenas brutais de roleta russa.
Agora acho que o filme tem três segundos, talvez os três melhores segundos de Cinema, com maiúscula, que consigo isolar. Estão para o cinema como está, para a pintura, aquele ponto entre o dedo de Deus e o de Adão, na criação do homem de Michelangelo, no tecto da Capela Sistina. Esse ponto é o fulcro da imagem, está lá tudo, e no entanto não tem nada lá pintado, é um vazio... é como estes segundos ali ao minuto 1:13 deste trecho:

 

 

Não parece muito. Mas se tínhamos aturado aquele início interminável antes de chegar à guerra, se tínhamos estado com os presos naquela água podre com ratos e sanguessugas, e sofrido o terror de uma fuga que envolvia acrescentar balas na pistola que se vai disparar contra a cabeça, era para chegar aqui.
Neste filme de guerra as personagens têm 1h para se desenvolver, em casa, antes da guerra. Nick (Christopher Walken) tinha pedido a Mike (Robert de Niro) para prometer: "don't leave me over there".
Quando chegamos ao helicóptero já percebemos o peso todo da esperança que há naquele "me", porque conhecemos a sua vida em casa; e do desespero que há naquele "over there", porque aquela prisão metia mesmo impressão.
Nesta cena, Nick já está a salvo, mas Steven (John Savage) está completamente quebrado (física e psicologicamente) e não consegue acabar de se içar para o helicóptero. Mike solta as pernas do trem de aterragem para tentar segurar Steven, tenta tudo, mas este cai ao rio. Segundos depois, vemos Mike a cair também.
É uma imagem inusitadamente singela de uma amizade que aceita voltar a descer da salvação ao inferno para recuperar, improvavelmente, o caco que resta de um amigo…
E o que nos dá o realizador? Vazio cinematográfico. O ruído do helicóptero que nos aturde, e a frieza do plano distante. Não há música a puxar sentimento, close-ups à expressão de angústia, câmaras lentas para o momento de hesitação. Tudo é contenção e subtileza para nos trazer este heroísmo discreto e desinteressado. Mike nunca chamará a atenção para o seu gesto, e o realizador Michael Cimino sabe que só o retratará cabalmente deste modo. Arrisca que nem reparemos, dispõe-se a perder o espectador…
Cimino sabe que os grandes caçadores reservam, para as presas nobres, balas singulares. One shot.

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publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 21:41 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Sábado, 09.06.12

Fiscalizar a ASAE

 

É com algum alívio que vou lendo notícias sobre o modo como a ASAE vai sendo reconduzida, lentamente, ao seu lugar.

Ontem o Público noticiava o parecer da Procuradoria Geral da República que indicava que a investigação de crimes informáticos é da exclusiva competência da Polícia Judiciária. "Está vedada à ASAE a pesquisa de dados informáticos armazenados em sistemas informáticos", lê-se no parecer.

E ainda há umas frases para recordar à ASAE que se cinja a coisas como ao número de vezes que o óleo é reutilizado nas barracas de farturas e o reaproveitamento de restos nos restaurantes chineses (ok, estou a satirizar).

Acho muito bem que se chateie os vendedores de DVD's piratas e sou a favor de que não se pirateie software. Mas não fico nada descansado com a criação destas espécies de polícias glorificadas, que podem entrar pelas nossas empresas adentro, pesquisar os computadores todos e levá-los a seu bel-prazer (por exemplo, por encontrar lá um mp3 de música, sem saber se eu tenho o CD em casa e aquilo é fair-use. E porque é que hão de poder ver todos os meus ficheiros? Não há privacidade, assume-se que o cidadão é um potencial infractor?

É que a nossa União Europeia fez-nos o favor de criar tantas regras que não é nunca possível cumpri-las todas. Ora isso dá um poder arbitrário aos fiscalizadores que é muito tentador para aqueles senhores incógnitos que estão lá sentados na ASAE a decidir onde é que os rapazes vão chatear hoje.

Obrigadinho, mas prefiro o Estado de Direito, a presunção de inocência, os mandatos emitidos por juízes, etc. O resto cheira-me a máfia, àqueles senhores que entram na loja, partem, multam porque está partido e depois vendem protecção porque a vizinhança está muito perigosa.

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Sexta-feira, 08.06.12

Amanhã à noite...

 

... é que vamos ficar a saber se afinal a Alemanha quer pôr Portugal fora do Euro ou não...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 21:32 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Quarta-feira, 06.06.12

Ceci n'est pas une révolution

 

O Público de hoje tinha boas notícias: despacho surpresa de Nuno Crato revoluciona organização das escolas. E o sub-título é de puxar à lágrima, de alegria: palavra de ordem de Crato é "autonomia".

Depois de décadas de revoluções na Educação, emanadas do Gabinete de Inovação (!) do Ministério, sustentadas pelo já famoso eduquês, as crianças portuguesas já estão doutoradas em serem cobaias educativas. Aulas mais curtas, aulas mais longas, dois professores na sala, dinâmicas não-sei-quê e auto-aprendizagens não-sei-que-mais, o Ministério acenava com a batuta e o país engolia.

Esta revolução, que não é tão vasta como o título faz supor, é de outro género. É para dar autonomia. Para deixar as pessoas pensar e agir pela sua cabeça. Para confiar nos professores e dirigentes escolares por esse país fora. Para que as decisões estejam em quem conhece as crianças concretas, e em quem é acessível às queixas e à colaboração dos pais. Para devolver alguma hipótese de controlo a quem se preocupa mesmo pelas crianças porque se a experiência educativa falhar, sabe que não haverá uma segunda educação para os seus filhos.

É só um começo, mas demonstra que Nuno Crato quer mesmo mexer no status quo e quer mesmo dar mais liberdade. Devia ser evidente, mas vamos ver como esperneiam com isto tantos que se dizem sempre amigos (exclusivos) da liberdade. Acusá-lo-ão de impôr a sua ideologia sem discussão prévia, de não alinhar com os teóricos da educação (os que eles lêem, claro). O meu conselho: que se juntem, abram uma escola com os outros que pensam como eles, puxem do seu melhor eduquês e inovem diariamente. Em princípio, o Nuno Crato deixa, e depois já veremos quantos pais inscrevem lá os seus filhos.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 11:21 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Terça-feira, 05.06.12

Leitura recomendada

No artigo sobre a Espanha no Economist desta semana, discute-se a tese de que o problema na Espanha está nos Bancos e não no déficit; e discute-se a ideia de haver auxílios externos directos aos Bancos, em vez de aos Estados, em casos como este.

Não sei o suficiente de Economia para dizer se seria boa ideia; mas diverte-me imaginar os títulos dos jornais sobre o dar dinheiro aos ricos, etc.

Crise, a quanto nos obrigas...

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 18:11 | comentar | ver comentários (3) | partilhar
Segunda-feira, 04.06.12

Andrew Bird

Andrew Bird

 

Já andei hipnotizado por 3 álbuns do Andrew Bird: Mysterious Production of Eggs (2005), Armchair Apocrypha (2007), e o excelente Noble Beast (2009).

Anda aí agora um álbum novo (Break it Yourself), que ainda não ouvi.

O homem compõe, canta, assobia (muito, e muito bem), toca violino (arco e pizzicato em partes iguais) e vários outros instrumentos. A sua música, que podíamos classificar de alternativa, à falta de melhor etiqueta, não é difícil de ouvir nem de gostar: geralmente é suave e melódica, em formato canção. Mas também não desilude ouvidos mais exigentes: é rica em matizes, composta com mestria, instrumentações invulgares, criativa e sem cair em soluções fáceis.

Há referências históricas e literárias, um vocabulário amplo, e a maior densidade de palavras de mais de 4 sílabas alguma vez registada na música pop. Não há aqui pretensiosismo, mas sim veneração pelas palavras e o seu poder evocativo. As letras das músicas não são para se perceber, mas estão longe de serem casuais ou vazias.

Para ele as palavras começam por ser sons, sílabas, vocalizações que rebolam por cima da melodia, e é muito importante sentir-lhes as arestas: (love of hate acts as an axis…), e mais ainda encontrar-lhes as partes redondas: (ten-u-ous-ness-less…).

A sua música é artesanato, é aperfeiçoada, burilada, aprimorada até ter a densidade que o ouvido de Andrew Bird exige, e o nosso agradece. Cada sílaba vem apontada para fazer um rodopio preciso numa curva concreta do nosso ouvido, e uma vez cá dentro, seguir um dos muitos caminhos que ligam umas palavras às outras, e ir dançar com outra palavra que ele plantou cuidadosamente num dos versos anteriores.

 

 

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 14:39 | comentar | partilhar
Domingo, 03.06.12

Cultura em tempos de crise

viegas2

Estive no Sábado nesta conferência do Secretário de Estado da Cultura Francisco José Viegas, na Residência de Estudantes Montes Claros, em Lisboa.

(Já agora, engraçado o cartaz com a nota de "sem escudos"!)

Foi a primeira vez que o ouvi falar e fiquei com boas impressões. Criou um ambiente informal e houve muitas perguntas. Falou-se dos estudos de humanidades vs. ciências (empregabilidade das pessoas com vocação para cursos de letras), de património, financiamento da cultura por subsídio ou pelo mercado, o lugar da cultura na educação...

Para salientar apenas uma ideia interessante: falou da "captura" da cultura dentro do entretenimento, este fenómeno actual em que se deixa reduzir a cultura a objecto de consumo de lazer...
publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 22:23 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Sábado, 02.06.12

Desmorrer

desmorrer

Já foi há bastante tempo que me surpreendi com a primeira coluna que o Miguel Esteves Cardoso dedicou ao cancro da sua mulher, "a Maria João". Era um texto desconfortável de ler, pisava terreno interdito – do cancro da própria mulher não se fala num jornal, mesmo com a autorização da própria.

E depois, o Miguel (já que ele nos admite à sua família, trato-o só assim) é o colunista da piadinha, da descrição genial do pequeno gesto do português, das nossas idiossincrasias nacionais, do fútil elevado a peça de joalharia que ele faz brilhar diante dos nossos olhos. As colunas dele uns dias passam-se à frente, outras lêem-se na diagonal e deixam um sorriso. Mas cancro? Pode vir no jornal, mas na segurança de uma estatística, no conforto da discussão de uma política de saúde pública… Mas o cancro como perspectiva real e próxima da morte de uma pessoa muito amada?

Depois foram muitas colunas sobre isto, intercaladas com o mesmo banal do costume. Há dias, "Desmorrer", com o casal e a médica a chorar em grupo com as boas notícias.

O Miguel não aguentava escrever todos os dias sem falar do que lhe roía a alma. E a sua terapêutica também nos está a curar alguma coisa. A morte está ali de vez em quando, na penúltima página do Público, a conversar connosco. Quase sem respostas, mas com boas perguntas, sobre o sofrimento, sobre Deus, sobre o amor, sobre o sentido dos tais gestos do dia-a-dia em que o Miguel é doutorado.

Não é a morte tal como se lê nos filósofos nem nos poetas. Também não é a dos médicos, que aparecem aqui na sua verdadeira dimensão: muito bons, muito humanos, competentes, mas terrivelmente pequenos diante da tarefa que lhes encomendamos de nos defender da morte. O Miguel escreve apenas sobre a morte comum, a que nos tocará a todos, com encolheres de ombros nos corredores de um hospital, visitas sem nada de jeito para dizer, preces desajeitadas e aquela luta perdida com as coisas que não podem ficar por dizer, e depois ficam mesmo.

É a perspectiva da morte, felizmente ainda adiada, que sai da pena de uma pessoa como o Miguel. Uma súplica humilde ao universo, a Deus, aos outros, seja a quem for, que lhe deixem ficar a sua Maria João. Nunca nos diz que seria mau ela partir. Diz que é bom ela viver. E quando o tempo parecia curto dizia: é bom ela viver, hoje. Que alívio saber que o tempo já parece outra vez mais longo…
publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 12:23 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Sexta-feira, 01.06.12

Relvas, Inimigo Público

A brincar, a brincar, eis a melhor síntese dos últimos dias de polémica...

 

"Relvas é demasiado grande para cair, e o risco de contágio seria enorme"

 

(no Inimigo Público de hoje)

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 10:00 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Quinta-feira, 31.05.12

Democracia Liberal - A Política, o Justo e o Bem

livro-pf

 

Terminei recentemente de ler “Democracia Liberal - A Política, o Justo e o Bem”, interessante conjunto de ensaios de Pedro Rosa Ferro. Recomendo. São apenas 147 páginas, portanto, para ciência política, diria que é um livro ligeiro, mas rico de conteúdo e muito bem escrito.

 

João Carlos Espada desfaz-se em elogios no prefácio, como é normal em prefácios; chega a dizer que o autor é um gentleman: penso que é o elogio máximo no seu léxico… Mas, finda a leitura tenho de concordar com as suas observações: gostei da "erudição que nunca se torna pesada nem pretensiosa", e é verdade que o livro, sendo um conjunto de ensaios, "tem uma coerência interna que não escapará ao leitor".

 

Tem ainda dois equilíbrios bem conseguidos que gostaria de referir: por um lado, é feliz no modo como trata temas de actualidade política recuando na história das ideias e das nações, sem se perder; e, por outro, sabe conduzir o discurso de forma equidistante, imparcial, dialogante, para no final chegar a tomar posição, sem se ficar por diplomacias ideológicas. É o tipo de livro que pode ser lido com proveito mesmo por quem não concorda.

 

Deixo aqui apenas uma citação do livro, tirada de um divertido ensaio intitulado "Importa-se que fume? Liberdade, Razão e Tabaco". O autor confessa-se assim: "sou fumador, hábito de que não tenho especial orgulho ou vergonha. Não reclamo o 'direito de fumar'. Peço apenas a liberdade de o fazer (…). Palavras medidas, conceitos claros, serenidade. Pedro Ferro pode puxar do cigarro que nós ficamos, com gosto, à conversa com ele.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 14:42 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quarta-feira, 30.05.12

Quem decide a Economia

Os fenómenos colectivos só podem ser explicados racionalmente remetendo para fontes de racionalidade e de liberdade. Estas fontes são as pessoas, os indivíduos. É o que estes pensam e decidem que forma as «decisões», com aspas, da sociedade, da Economia, dos povos.

Ora quando passamos para a narrativa económica e política, temos maneiras de simplificar a complexidade envolvida, centrando-nos nalguns actores principais. Assim, descrevemos as «acções» dos países pelas decisões dos seus governantes ou dos seus maiores empresários. E focamo-nos naquela selecção e ângulo dos eventos que nos é reportada pelos media. O resto tende a ficar esquecido. Se não se pode descrever com unidade e racionalidade, como falar sobre isso?

Por isso é que ultimamente nos tem baralhado tanto as conversas a relevância dos «mercados», que nos estragam o esquema, por terem a desfaçatez de não nomearem representantes, e não comparecerem às mesas de negociações nas cimeiras europeias. É giro ver alguns a personificarem desesperadamente «os mercados» só para lhes conseguirem atribuir alguma culpinha pelos males da Economia.

Custa-nos aceitar quando ninguém decide, porque são demasiados, e desalinhados, os que decidem. Mas a verdade é essa, o efeito da Sra. Merkel no euro é real, mas está longe de ser total ou definitivo. O efeito do nosso governo na Economia portuguesa é crucial, mas muitíssimo limitado.


Constato que mesmo as pessoas que sabem perfeitamente isto, que devia ser o «bê-á-bá» das ciências sociais, às vezes no meio da conversa resvalam e começam a tratar a parte do problema que é governável e discutível como sendo a totalidade do problema...

 

Se alguma coisa nos mostra a actual crise é isto: são estreitos os limites do poder dos políticos, para sonharem e fabricarem as instituições e as nações, à margem dos dados da vida. Aliás, milhões de vidas.

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 18:35 | comentar | ver comentários (7) | partilhar

Bernhoft

Antigamente os one-man band eram artistas de circo ou de feira, cuja arte consistia no equilibrismo de tocar em simultâneo uma carrada de instrumentos. Qualquer cotovelo dava para mais uma pandeireta, e qualquer tornozelo servia funções múltiplas.

 

Agora com as pedaleiras de loops, o norueguês Jarle Bernhoft faz tudo sozinho, mas não ao mesmo tempo. Vai construindo a música por partes, liga partes, desliga, troca de guitarra, tira a palheta do bolso de trás das calças, e faz harmonias de voz consigo próprio. O batuque é feito nas costas da guitarra ou com a voz, em beat-box. Toca piano, guitarra, canta normal e em falsete. É ele mesmo o baixo e os pratos da bateria. A imagem de marca são os óculos Ray-ban Wayfarer com lentes claras – ouvi dizer que estão na moda.

 

O que é extraordinário é que o homem é mesmo muito bom músico – consegue ser funky e bluesy na guitarra, nos ritmos, tem uma voz de soul excelente e um falsete seguríssimo e nada afectado. Escreve boas músicas. Tudo com alma.

 

Várias almas, às voltas, em repetição.

 

 


Quem gostar, sugiro que siga por aqui: C'mon Talk; esta fantástica versão do hit dos eighties dos Tears for Fears, Shout, e esta Streetlights (excelente aquela entrada do… cavaquinho).

publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 13:17 | comentar | ver comentários (1) | partilhar
Terça-feira, 29.05.12

Ou uma coisa ou outra

Interessante, a capa e o editorial do The Economist esta semana sobre a opção que a Europa enfrenta: ou se sai da crise desmantelando o Euro, ou se avança para uma maior integração. O que tem piada é a revista manifestar-se a favor da via da integração relutantemente. Normalmente não o defenderiam mas, como as coisas estão, a alternativa de desfazer a moeda única parece-lhes a mais devastadora.

Propõem duas medidas (assim como quem conversa com a Sra. Merkel): uma de integração financeira (grandes bancos), e integração fiscal (uma das formas já propostas há uns tempos de mutualização das dívidas soberanas). Ambas definidas como minimalistas: o mínimo que conseguem imaginar de perda de soberania e independência para conseguir os efeitos pretendidos e indispensáveis.

O projecto europeu constrói-se de muitas maneiras. Agora estamos na fase da construção por via da «fuga para a frente».
publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 22:06 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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