Sábado, 28.01.12

Fim do euro (9) Votação do nome da nova moeda

A partir de hoje e até 2ª feira, 27 de Fevereiro, está aberta aqui no blog a votação do nome da nova moeda portuguesa. Cada leitor só pode votar uma vez. As hipóteses são apresentadas por ordem alfabética e são designações históricas de moedas portuguesas (não necessariamente a base do sistema monetário), com a excepção de “luso”, uma ideia vinda de várias fontes. A nova moeda não vai poder chamar-se “escudo”, porque isso criaria um pesadelo legal (o paraíso da chico-espertice) de potenciais confusões com uma moeda que ainda há pouco tempo era usada. Conto com a colaboração dos leitores para salientarem as vantagens e desvantagens das diferentes designações e também de nomes alternativos. Podem dar largas ao “engraçadismo”, para usar a expressão do Pacheco Pereira, que terá o destino que merecer.

publicado por Pedro Braz Teixeira às 19:43editado por Paulo Marcelo em 30/01/2012 às 10:42 | comentar | ver comentários (18) | partilhar

Fim do euro (8) Ainda a falência do BCE

Nos comentários ao post anterior o Nuno Teles sugeriu que se tomasse em consideração não os capitais próprios do BCE, mas de todo o Eurosistema. Não concordo e tenho a certeza que pelo menos um dos membros do Eurosistema, o Bundesbank, estará radicalmente contra uma tal leitura.

 

O Bundesbank tem-se oposto sempre às compras de dívida soberana pelo BCE e isto já conduziu à demissão de Jürgen Stark, representante do banco alemão no BCE. O Bundesbank opôs-se a que o BCE tomasse risco dessas compras, mas o risco seria sempre do BCE. Se o Bundesbank estivesse a assumir explicitamente risco associado a estas compras tinha-as pura e simplesmente vetado.

 

Mas é óbvio que, como maior accionista do BCE, o Bundesbank tem estado a assumir implicitamente este risco. O dia em que o risco passar de implícito para explícito não vai ser nada bonito. Neste momento os alemães já são os mais poderosos em termos económicos, mas a partir daí vão ganhar outro poder: a autoridade moral. Não custa nada imaginar os alemães a quererem assumir o controlo muito mais explícito de tudo no BCE, como já o estão a tentar fazer no lado orçamental. Para além de que a fúria que isso vai criar no eleitorado alemão não vai ajudar em nada a construir soluções para a sobrevivência do euro.

 

De acordo com esta notícia, que indica que a Grécia planeia uma saída ordeira do euro, aquele dia pode não estar longe. No dia em que a Grécia sair do euro já não vai ser possível esconder mais nada. As perdas do BCE com a Grécia não só terão que ser assumidas, como virão agravadas com o facto de, quase de certeza absoluta, a dívida grega passar a ser denominada em dracmas, uma moeda que deverá sofrer uma depreciação brutal face ao euro.

 

A falência técnica do BCE terá que ser tornada pública então. Mas o problema não é, em primeira aproximação, económico. As perdas de 30 mil milhões de euros que o BCE sofreu (provavelmente avaliando a dívida aos preços de mercado) significam apenas 0,3% do PIB da zona do euro, pelo que não há nada de dramático nesta vertente. Não haverá a mais leve dificuldade em repor a solvência do BCE.

 

O problema principal é de outra natureza, política e simbólica. O BCE cometeu erros de tal magnitude que a saída (que jamais aconteceria) de um país minúsculo (representando apenas 2% do PIB da zona do euro) o colocou em situação de falência técnica. Do ponto de vista simbólico isto é catastrófico.

 

Quem é que ainda poderá acreditar que as pessoas que conduziram o BCE a esta situação são capazes de salvar o euro? Aqui é que entram de novo as questões económicas. A queda abrupta de confiança no euro deverá explodir a expectativa de desagregação da moeda europeia, levar a uma escalada de taxas de juro de longo prazo e o BCE já não poderá fazer nada para a conter porque, como é óbvio, vai ficar proibido de aplicar o instrumento que o conduziu à falência técnica.

 

O FEEF poderá substituir o BCE nessas compras, como deveria tê-lo feito muito antes, permitindo ganhar algum tempo (meses? semanas?). Este episódio não será ainda o final do euro, mas estaremos muito próximo do fim. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 18:43 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Sexta-feira, 27.01.12

Fim do euro (7) O BCE já está falido

No post anterior desta série defendi que era um exagero que Portugal provocasse o fim do euro, porque neste momento só havia 120 mil milhões de dívida pública portuguesa no mercado, muito menos do que os 750 mil milhões de fundos europeus que deverão estar disponíveis dentro de pouco tempo.

 

Esqueci-me de referir que o próprio BCE já comprou uma quantidade significativa de dívida soberana portuguesa. De acordo com um estudo do Barclays, o BCE já terá comprado cerca de 20 mil milhões de euros desta dívida, o que significa que já só restam no mercado cerca de 100 mil milhões. Também neste caso é provável que o BCE continue a comprar dívida portuguesa ao longo do ano, diminuindo ainda mais o que sobra para comprar num caso de aflição.

 

A propósito, este estudo do Barclays também estima que o BCE esteja a perder cerca de 30 mil milhões de euros com o total de compras (213 mil milhões) que já fez de dívida soberana dos países em dificuldades, quase tudo por causa da Grécia (entre 20 a 25 mil milhões). Isto ajuda imenso a explicar a relutância do BCE em assumir as perdas em relação a este país nas negociações em curso. É que o BCE tem de capitais próprios apenas 10 mil milhões de euros. Ou seja, se assumisse as perdas com a dívida grega ficava todo o mundo a saber que o BCE está falido, o que não é a melhor das notícias que um banco central pode dar.

 

As consequências dessa notícia seriam infindáveis: uma profunda perda de confiança no euro e uma forte depreciação; o fortalecer da ideia do fim iminente do euro; a proibição de qualquer compra futura pelo BCE de mais qualquer dívida pública; a necessidade de injectar doses maciças de capital no BCE, provocando a ira de inúmeros eleitorados, porque têm que pagar uma conta que sempre lhes disseram que nunca existiria.

 

Já tinha explicado aqui alguns detalhes sobre a falência do BCE e uma forma alternativa de intervenção, que teria evitado esta mesma falência. Parece que emprestar directamente aos Estados viola os Tratados. E levar o BCE à falência não viola os Tratados? Nem viola o bom senso?

 

Para além de tudo isto, a verdade é que o BCE já está tecnicamente falido. Só não foi é ainda declarado oficialmente falido, ou insolvente, um termo mais técnico e rigoroso, mas que esconde uma realidade dramática. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 15:17 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quinta-feira, 26.01.12

Fim do euro (6) Um exagero

No Jornal de Negócios de ontem Matthew Lynn, presidente executivo da Strategy Economics, afirma: "Esqueçam a Grécia. É Portugal que vai destruir o euro".

 

“A única coisa que poderia evitar o incumprimento seria uma ampla ajuda financeira por parte do resto da Zona Euro. Isso estabilizaria a dívida e daria à economia uma hipótese de crescer. Mas isso não vai acontecer – por isso, o ‘default’ é a única opção. É apenas uma questão de tempo”.

 

Se, como este investidor antevê – e bem –, a queda de Portugal a seguir à da Grécia implicaria a implosão do euro, então há todas as razões para supor que os líderes europeus fariam tudo e mais um par de botas para impedir a queda de Portugal. Será que isso é possível?

 

Segundo o IGCP, no final de 2011, a dívida directa do Estado elevava-se a 174,9 mil milhões de euros. Deste total, 35,9 mil milhões já eram fornecidos pelo Programa de Assistência Financeira (PAF). Descontando outra dívida não cotada (sobretudo Certificados de Aforro), já “só” havia 120 mil milhões de euros de dívida pública portuguesa nos mercados financeiros. À medida que formos avançando no ano assistiremos ao aumento do montante fornecido pelo PAF e diminuição dos montantes de dívida soberana portuguesa cotada nos mercados.

 

O Mecanismo Europeu de Estabilidade (ESM), cuja actividade se iniciará a 1 de Julho, com a capacidade de mobilizar 500 mil milhões de fundos, poderá herdar os 250 mil milhões do actual Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF), havendo já sinais de alguma abertura alemã para isso.

 

Ou seja, neste momento estão disponíveis 250 mil milhões de euros de recursos europeus, que aumentarão para 500 mil milhões em Julho e poderão mesmo crescer para 750 mil milhões nessa data. Isto significa que existem amplos recursos para comprar toda a dívida pública portuguesa que está actualmente no mercado. Já o mesmo não se pode dizer se houver subidas das taxas de juro não só em Portugal, como também em Espanha e Itália.

 

Portugal pode ser salvo, mas a Itália não (é demasiado grande), por isso insisto que é a Itália que vai levar a algum tipo de desagregação do euro, e não Portugal. A não ser que os líderes europeus tenham enlouquecido de vez, o que também não é uma hipótese a descartar. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:37 | comentar | ver comentários (6) | partilhar
Quarta-feira, 25.01.12

Fim do euro (5) Dois fins

O fim das colónias e o fim do euro têm em comum o facto de quem tiver saído a tempo poderá sair incólume

 

A 25 de Abril de 1974, a revolução triunfou e Movimento das Forças Armadas (MFA) que a liderou conseguiu alcançar o seu objectivo de terminar a guerra colonial. O programa do MFA viria a assentar nos três DD: democratizar, descolonizar e desenvolver. Assim, desde o início do novo regime que ficou claro o objectivo de descolonizar, com a generalidade das independências dos novos países a ter lugar em 1975.

 

A generalidade das centenas de milhares de portugueses que se tinham instalado nas colónias desde 1961, início da guerra colonial, acreditou que poderia ficar nos novos países. Infelizmente, ainda antes da independência, estalou uma guerra civil em Angola, que foi tornando insustentável a permanência dos portugueses, que se viram obrigados a regressar a Portugal, em muitíssimos casos sendo obrigados a deixar todos os seus haveres para trás, porque mal havia transporte para as pessoas.

 

Ouvi falar no caso de um “retornado” que voltou ainda em 1974 (julgo que de Moçambique) e que trouxe tudo o que quis, não perdeu rigorosamente nada e, possivelmente o mais curioso, tinha vergonha de dizer que não tinha perdido nada. Ele era “retornado” como os outros, mas não tinha sofrido nem a guerra nem as perdas financeiras dos outros centenas de milhares, porque tinha saído a tempo.

 

Gostaria agora de estabelecer uma ponte entre o fim das colónias e o fim do euro. Há, desde logo, uma diferença abissal entre os dois casos. No caso das colónias, o novo regime assumiu, não exactamente desde as primeiras horas, mas passado pouco tempo, que queria dar a independência às colónias. Em termos legais, o sinal é dado de modo inequívoco pela Lei constitucional 7/74 (de 27 de Julho), que permite o reconhecimento das independências das colónias africanas.

 

No caso do euro, não só não há nenhum objectivo assumido de acabar com o euro, como todos os líderes europeus juram que estão dispostos a tudo para o defender, embora as suas palavras tenham quando vez menor credibilidade.

 

Esquecendo esta diferença de base, a partir daí faz sentido a analogia que primeiro vai haver um período em que se pode sair sem o mais leve problema, para depois se seguir um período altamente tumultuoso, em que as condições de saída se dificultam extraordinariamente e já quase nada se pode salvar.

 

Neste momento ainda estamos a viver este primeiro período do fim do euro, em que se pode tirar os euros de Portugal, até a tempestade passar, para depois os trazer de volta como divisas, que serão recebidas como algo precioso, que nos ajudará a retomar a normalidade, depois da saída do euro.

 

Daqui a alguns meses já podemos ter passado para a segunda fase, devido a problemas na Grécia ou em Itália, e já será tarde de mais para qualquer tipo de protecção.

 

Há muitas pessoas que continuam a recusar-se a contemplar a hipótese do fim do euro. Argumentam que isso traria tantos problemas que é algo que não pode acontecer. Mas há dois anos que os líderes europeus têm permitido que a crise do euro cresça em bola de neve, pelo que é possível que a partir de determinado momento já não seja mais possível suster a avalanche.

 

Os barcos tem embarcações salva vidas não porque acreditam que vai haver um naufrágio, mas como segurança para o caso disso acontecer. Podem olhar para as medidas de protecção contra o fim do euro nesta perspectiva de salva vidas. Se não chegar a ser necessário usá-los será óptimo, mas se for preciso usá-los e não os tiverem, arrepender-se-ão amargamente por isso. 

 

[Publicado no jornal "i"]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 15:00 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Segunda-feira, 23.01.12

Fim do euro (4) Recomendações práticas, adenda

O post anterior desta série suscitou dúvidas – inteiramente legítimas – porque falei em três seguros diferentes sem ter o cuidado de os diferenciar. Gostaria, desde logo, de renovar os meus agradecimentos a quem colocou as dúvidas, que me têm ajudado imenso a pensar melhor sobre estes temas.

 

O risco de saída de Portugal do euro tem associado múltiplos riscos, dos quais gostaria de salientar três: o risco do colapso temporário do sistema de pagamentos, o risco do colapso temporário do sistema de distribuição de produtos e o risco de perda – definitiva – de valor de inúmeros activos (depósitos à ordem e a prazo, obrigações, acções e imobiliário, entre outros).

 

O post anterior foi dedicado quase exclusivamente aos dois primeiros riscos. O risco do colapso do sistema de pagamentos levou-me à recomendação, meramente indicativa, de ter em casa notas no montante equivalente a um mês de rendimento. Esta recomendação tem o benefício secundário de proteger também, de forma muito limitada e parcial, contra o terceiro risco que referi acima: o de perda de valor dos depósitos à ordem.

 

Este terceiro risco é um tema vastíssimo, que deverá ocupar inúmeros posts posteriores, sobre o qual não me irei debruçar agora.

 

O segundo risco, o do colapso temporário do sistema de distribuição de produtos, levou-me à recomendação, de novo meramente indicativa, de ter em casa na despensa o equivalente a um mês de consumo de bens não perecíveis.

 

Retomando agora o tema do primeiro risco, o do colapso temporário do sistema de pagamentos – um dos temas centrais do post anterior –, gostaria de salientar que os moldes da saída de Portugal do euro são incertos. Gostaria de contemplar quatro cenários: a) Portugal sai do euro (ou é forçado a sair) individualmente pouco depois da saída da Grécia; b) Portugal sente-se obrigado a acompanhar a saída – forçada – da Itália; c) os países fortes decidem sair do euro, porque as medidas necessárias à sobrevivência do euro o descaracterizariam por completo; d) dá-se a implosão total do euro, com todos os países a voltarem a moedas nacionais.

 

Os cenários a), b) e d) são relativamente semelhantes em relação ao risco de colapso do sistema de pagamentos. Para nos protegermos contra estes cenários, devermos ter euros em casa. Isso protege-nos contra o risco de colapso do sistema de pagamentos e parcialmente contra o terceiro risco, o da perda de valor.

 

No cenário c) o euro continua a ser a moeda portuguesa, embora se desvalorize face ao novo marco. Neste caso não haverá sequer risco de colapso do sistema de pagamentos, que se manterá. Nesta hipótese seria inútil ter os euros em casa e estes euros também já não seriam uma reserva de valor como nos cenários anteriores. Neste caso só dólares e outras divisas é que serviriam como refúgio. Mas dificilmente poderíamos comprar pão e outros produtos essenciais com dólares, pelo que os dólares podem ser bons na perspectiva de reserva valor (que não é o tema aqui), mas não tanto para acudir a uma situação temporária de problemas de pagamentos.

 

Resumindo: ter alguns euros em casa previne contra o colapso do sistema de pagamentos, mas pode ou não proteger contra a perda de valor da moeda que circula em Portugal. Mas este outro risco merece muito mais atenção, nos próximos posts.

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:14 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Segunda-feira, 16.01.12

Fim do euro (3) Recomendações práticas

Parece que as mais altas instâncias europeias consideram que a Grécia deverá sair do euro em algum momento dentro dos próximos meses. Quando isso acontecer, é possível – mas não necessário – que Portugal saia também do euro, talvez alguns meses depois.

 

Neste momento, considero que todos os portugueses devem “subscrever” um seguro contra essa eventualidade, tal como fazem um seguro contra o incêndio da sua própria casa. Quando se compra este seguro, o que nos move não é a expectativa de que a nossa casa sofra um incêndio nos próximos meses, um acontecimento com uma probabilidade muito baixa, mas sim a perda gigantesca que sofreríamos se a nossa habitação ardesse. A esmagadora maioria dos portugueses vive toda a sua vida sem sofrer qualquer incêndio nas suas casas mas, mesmo assim, a maioria de nós tem um seguro contra incêndio.

 

A probabilidade de Portugal sair do euro em 2012 é muito superior à probabilidade de termos um incêndio nas nossas casas durante toda a nossa vida. Por este motivo é que considero que todos os portugueses deveriam “subscrever” o tal seguro contra a saída do euro.

 

Quais são as consequências imediatas de Portugal sair do euro? A nova moeda portuguesa, o cruzado, sofreria uma desvalorização face ao euro de, pelo menos, 20%. Todos os depósitos bancários seriam imediatamente transformados em cruzados, perdendo, pelo menos, 20% em valor. Todos os depósitos ficariam imediatamente indisponíveis durante algum tempo (dias? semanas?) e não haveria notas e moedas de cruzados, porque o nosso governo e o Banco de Portugal não consideram necessário estarmos preparados para essa eventualidade.

 

O mais provável é que a saída do euro fosse anunciada numa sexta-feira à tarde, havendo apenas o fim-de-semana para tratar da mudança de moeda. Logo na sexta-feira os bancos retirariam todas as notas de euros das máquinas de Multibanco e quem não tivesse euros em casa ou na carteira ficaria sem qualquer meio de pagamento.

 

Durante algumas semanas (ou mais tempo) teríamos um colapso do sistema de pagamentos e, provavelmente, também um corte nos fornecimentos. As mercearias e supermercados ficariam incapazes de se reabastecer, devido às dificuldades associadas à troca de moeda.

 

Este “seguro” de que vos falo, contra este cenário catastrófico, não pode ser comprado em nenhuma companhia de seguros, mas pode ser construído por todos os portugueses, estando ao alcance de todos, adaptado à sua realidade pessoal.

 

O que recomendo é algo muito simples que – todos – podem fazer. Ter em casa dinheiro vivo num montante da ordem de um mês de rendimento e a despensa cheia para um mês. Esta ideia de um mês de prevenção é indicativa e pode ser adaptada à realidade de cada família.

 

Não recomendo que façam isso de forma abrupta, mas lentamente e também em função das notícias que forem saindo. De cada vez que levantarem dinheiro, levantem um pouco mais do que o costume e guardem a diferença. De cada vez que dizerem compras tragam mais alguns produtos para a despensa de reserva. Aconselho que procurem produtos com fim de validade em 2013 ou posterior mas, nos casos em que isso não seja possível, vão gastando os produtos de reserva e trocando-os por outros com validade mais tardia. Desta forma, sem qualquer ruptura, vão construindo calmamente o vosso seguro contra o fim do euro.

 

Mas se, entretanto, a Grécia sair do euro, o caso muda de figura e é necessário acelerarem a constituição das vossas reservas. Se surgirem quaisquer outras notícias que indiquem algo de mais grave, darei aqui conta disso e actualizarei estas recomendações.

 

Quanto custará este seguro? Pouquíssimo. Em relação ao dinheiro de reserva, o custo é deixarem de receber os juros de depósito à ordem que, ou são nulos, ou são baixíssimos. Em relação aos produtos na despensa de reserva, é dinheiro empatado, que também deixa de render juros insignificantes.

 

Quais são os benefícios deste seguro? Se o euro acabar em 2012, como prevejo, o dinheiro em casa não se desvaloriza, mas o dinheiro no banco perderá, no mínimo, 20% do seu valor. Para além disso terão o benefício de poder fazer pagamentos no período de transição, que se prevê extremamente caótico. A despensa também vos pode prevenir contra qualquer provável ruptura de fornecimentos, garantindo a alimentação essencial no período terrível de transição entre moedas. Parece-me que o benefício de não passar fome é algo de significativo.

 

E se, por um improvável acaso, a crise do euro se resolver em 2012 e chegarmos a 2013 com o euro mais seguro do que nunca? Nesse caso – altamente improvável – a resposta não podia ser mais simples: basta depositar no banco o dinheiro que têm em casa e ir gastando os produtos na despensa à medida das vossas necessidades. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 08:30 | comentar | ver comentários (26) | partilhar
Quarta-feira, 11.01.12

Fim do euro (2) Grécia e Itália

A Grécia e a Itália são, neste momento, os dois maiores riscos à integridade da zona do euro. Segundo uma notícia desta segunda-feira, publicada no jornal i, a saída da Grécia do euro já é um dado adquirido. Este país tem tido uma dificuldade enorme em cumprir as metas orçamentais, para além das reformas estruturais. Cada nova etapa parece mais difícil do que a anterior e a dívida pública grega não pára de aumentar, não só devido aos défices elevados, mas também devido à descoberta de novos buracos escondidos.

 

Para se ter uma noção do que estamos a falar, é importante lembrar o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC), apresentado em Janeiro de 2010, já pelo novo governo socialista de Papandreou, que se viu confrontado com contas públicas descontroladas e escondidas, deixadas pelo anterior governo conservador. Neste PEC, ainda antes do pedido de ajuda da Grécia, que ocorreria em Maio desse ano, o governo previa que o ano findasse como uma dívida pública de 120% do PIB. Passaram apenas dois anos e a Comissão Europeia, nas suas previsões de Novembro, provavelmente já desactualizadas, antecipa que a Grécia acabe o corrente ano com uma dívida pública de praticamente 200% do PIB. É difícil imaginar uma deterioração mais grave.

 

A Grécia só entrou no euro porque enganou os seus parceiros comunitários, pelo que a sua saída do euro poderá ser lida como a retirada de um abcesso. Num primeiro momento, talvez essa possa ser a leitura do processo, mas não será preciso deixar escoar muito tempo, até que se tome consciência de que se abriu uma caixa de Pandora. Se um país já saiu do euro, quem será o elo mais fraco? Infelizmente, esse país é Portugal.

 

Os nossos parceiros europeus podem fazer o máximo para nos ajudar, o que se deverá traduzir em mais facilidades de financiamento. O mais interessante seria emprestarem-nos dinheiro para o próprio Estado português comprar a nossa dívida pública nos mercados e impedir as taxas de juro de subirem loucamente. De caminho, até conseguíamos reduzir a dívida pública, por a conseguirmos comprar a preços de saldo.

 

Se podemos receber ajuda dos nossos parceiros para resistir ao contágio da Grécia, também seríamos forçados a um cumprimento ainda mais escrupuloso dos compromissos com a troika, possivelmente ao tal “ir além da troika”, que o governo tem prometido, mas não tem feito. Ou seja, é possível que Portugal consiga resistir, até porque a UE terá o máximo interesse em impedir que a saída helénica contagie qualquer outro país. Esperemos que tenham aprendido a lição, com o que não fizeram ao longo dos últimos dois anos.

 

Mas o risco de contágio mais grave está em Itália. Quando pediram ajuda, as taxas de juro da dívida pública a 10 anos da Grécia, Irlanda e Portugal estavam, em média, nos 8,5%. Este valor é meramente indicativo, mas sugere o ponto a partir do qual o dique rebenta. As taxas de juro italianas já chegaram aos 7,5% em Novembro de 2011, a principal razão para convocar a tal cimeira europeia “decisiva” do mês seguinte, que não resolveu quase nada.

 

Infelizmente, o que não faltam são pretextos para o dique sofrer duras investidas. Nos primeiros problemas, poderá haver ajuda europeia, mas o primeiro-ministro italiano Monti já se queixou que o fundo europeu de ajuda era “insuficiente”. Pode acontecer que o fundo europeu esgote as suas munições ou, antes disso, perceber que, ao ritmo a que está forçado a fazer compras, as esgotará ao fim de pouco tempo. 

 

Seja como for, o final desta história deverá ocorrer mais ou menos da seguinte forma: haverá uma semana louca, de subida vertiginosa das taxas de juro italianas em todos os prazos, tipicamente mais nos prazos mais curtos. No final de sexta-feira, após o fecho dos mercados, a Itália anunciará a saída do euro na segunda-feira seguinte. Durante esse mesmo fim-de-semana, Portugal, Irlanda e Espanha juntar-se-ão a Itália e anunciarão a saída do euro, também na segunda-feira seguinte. Mesmo que estes países não se tenham preparado para sair, serão obrigados – pelas circunstâncias – a sair.

 

[versão adaptada da publicada hoje no jornal i]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 13:35 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Segunda-feira, 09.01.12

Fim do euro (1) Contagem decrescente

Há pouco mais de um mês comecei a escrever um livrinho sobre o fim do euro, com algum medo de que este fim se concretizasse antes de o livro estar concluído.

 

Infelizmente, parece que tenho que me apressar:

 

Um representante sénior da máquina administrativa europeia afirmou esta semana, numa reunião com jornalistas em Lisboa, que a saída da Grécia era dada como certa, faltando o tempo necessário para erguer uma protecção maior contra o contágio para o resto da zona euro.

 

Fui contactado para comentar esta informação e, para além do texto no link, aparece uma peça adicional (sem link), em que digo que Portugal pode ficar no euro se a Grécia sair, mas jamais poderá ficar se a Itália se retirar, um tema a desenvolver em breve.

 

Entretanto, irei colocando aqui alguns dos textos que vou escrevendo para o livro (sem ordem), tendo já beneficiado dos argumentos e dúvidas publicados nos comentários deste blog por alguns leitores, a quem volto a agradecer e a quem peço para colocarem mais dúvidas. Aviso, no entanto, que em geral não as responderei nas caixas de comentários, mas em novos posts.

 

Todos estes textos deverão ter a “tag” (etiqueta) “fim do euro”, pelo que será fácil aceder a eles, na sequência em que foram publicados.

 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:33 | comentar | partilhar
Sexta-feira, 06.01.12

Propostas interessantes mas discutíveis (2)

Este post pretende ser uma resposta a alguns dos comentários feitos aqui, que aproveito para agradecer, às minhas observações sobre a proposta de João Ferreira do Amaral de uma saída negociada do euro, em particular a ideia de os depósitos nos bancos em Portugal preservarem o valor em euros, após a nossa saída. O argumento daquele economista é que essa condição é essencial para evitar uma fuga de depósitos durante as negociações.

 

Essa garantia custaria cerca de 25% do PIB português, no caso da depreciação negociada ser de apenas 20%, sendo que parece que a depreciação a negociar deveria ser superior a isso, o que colocaria o custo desta garantia em níveis ainda mais elevados.

 

Considero que, antes das negociações se iniciarem, Portugal deveria ter feito muito trabalho de casa, de molde a que as negociações ficassem concluídas num único fim-de-semana, pelo que nem sequer haveria o risco de fuga de depósitos, o que eliminaria a necessidade de suportar qualquer encargo com a garantia dos depósitos.

 

Mas imaginemos que o governo iniciava as negociações, anunciando – um absurdo – que estas deveriam estar concluídas ao fim de 30 dias. Para evitar a tal, mais do que previsível, fuga de depósitos, o governo declararia o compromisso solene de garantir o valor dos depósitos em euros.

 

Esta promessa, tendo em atenção o custo elevadíssimo que lhe estaria associada, teria uma credibilidade muito reduzida. Ou seja, teríamos o custo elevadíssimo de garantir os depósitos, sem o benefício de evitar uma fuga dos mesmos. É difícil imaginar uma combinação pior.

 

Para evitar este problema, o governo anunciaria que esta garantia seria paga pelos parceiros europeus. Mas como é que o governo pode garantir algo sobre os parceiros europeus no início das negociações? Como é óbvio, esta garantia não sossegaria ninguém, e continuaríamos a ter fuga dos depósitos.

 

Imaginem o cenário, em que durante um mês o governo pedia uma desvalorização de 30% e os parceiros europeus só estariam dispostos a aceitar uma de 15%, sendo esta questão – gravíssima – discutida todos os dias na praça pública. Quem é que não retiraria todos os seus depósitos de Portugal? Os mais pobres levavam-no para casa e os mais ricos para a Suíça.

 

Há uma outra questão, que merece ser salientada, que é que, com a saída do euro, todos os preços dos activos sofrerão uma queda brutal. Os preços do imobiliário sofrerão um crash brutal, de mais de 50%, os preços das acções cairão brutalmente (com a provável mas rara excepção das empresas exportadoras), os preços das obrigações cairão de forma drástica. Porquê este preocupação com os depósitos, cuja garantia envolveria custos tão elevados?

 

Há a ideia – errada – de que a garantia dos depósitos impediria a falência generalizada dos bancos portugueses. A verdade é o oposto: a garantia dos depósitos em euros é que provocaria a falência dos bancos portugueses.

 

Os bancos portugueses têm um elevadíssimo excesso de crédito em relação aos depósitos. Para garantir a sobrevivência dos bancos portugueses o que é necessário é garantir que esse excesso passa a ser denominado na nova moeda portuguesa. Para isto é que seria utilíssimo garantir a ajuda europeia, não para garantir os depósitos.

 

Resumindo, não faz sentido que se peça ajuda europeia para garantir a protecção dos depósitos, mas antes para garantir a sobrevivência do sistema bancário português.

 

Quanto aos depósitos, estão condenados a grandes perdas, tanto maiores quanto maior for a depreciação da nova moeda portuguesa. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 17:21 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quarta-feira, 04.01.12

Não se preparem, não

Após algumas semanas, eis que a Grécia volta a recuperar a ribalta, desta feita com o porta-voz do governo a avisar que a Grécia pode sair do euro se não houver acordo com a troika.

 

É evidente que estas declarações devem ser lidas como uma forma de pressão sobre a troika, em especial sobre o BCE e a Comissão Europeia, no sentido de acentuar a ideia de que existe uma forte externalidade negativa no caso de falhanço das mesmas. Os parceiros europeus devem ceder mais do que o estritamente necessário, porque a saída da Grécia do euro provocará um abalo sistémico muitíssimo grave nesta moeda, com repercussões económicas mesmo para lá da UE e consequências políticas não menos graves dentro da UE.

 

De acordo com a Economist Intelligence Unit, a economia grega deverá cair 7,5% em 2012, depois de já ter caído 5,3% em 2011, devendo registar uma queda acumulada do PIB de uns astronómicos quase 20% desde 2007.

 

Pressionar mais austeridade num quadro económico destes é já profundamente contraproducente. Mas fazê-lo, quando isso coloca em risco, mais do que a Grécia, a integridade da zona do euro, é do domínio da mais pura irresponsabilidade.

 

Infelizmente, os líderes europeus já nos habituaram a isso e não deve ser posto de parte que eles deixem partir a corda. As declarações da Comissão Europeia, em resposta ao aviso grego, de que "não há nenhum plano para a saída de membros da zona euro em 2012 e adiante" são um susto. Alguma alma piedosa acreditará que isto é dito assim, para não alimentar especulações, e que alguma preparação está em curso, mas o que temo é que estas declarações sejam mesmo verdadeiras. Se a saída da Grécia é má, uma saída sem preparação é terrível.

 

Em resumo, se não for agora, pode ser daqui a três meses ou daqui a seis meses, mas a verdade é que há um risco muito elevado de a Grécia se ver obrigada a sair do euro. E se a Grécia cair, Portugal será o “senhor que se segue”. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 09:20 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Quinta-feira, 29.12.11

Propostas interessantes mas discutíveis

João Ferreira do Amaral defende que Portugal saia do euro, de forma "negociada e com apoio comunitário". Já defendi o mesmo, aliás, que Portugal saísse em conjunto com os países mais fracos, que seria uma opção mais interessante, porque significava que os mais fortes se livraram dos problemas todos de uma só vez. Infelizmente, a degradação da crise do euro, com o contágio a chegar a França, parece indicar que o tempo para isso já se esgotou.

 

Aquele economista defende ainda que o Estado a garanta a sua dívida "em euros e não na nova moeda" e "que quem tivesse investimentos em euros no sector bancário os mantinha em euros". Estas duas ideias é que já acho muito discutíveis, sobretudo a segunda.

 

Em primeiro lugar, a depreciação da nossa moeda, o “cruzado”, como sugiro que se chame, deveria ser, no mínimo, da ordem dos 20%. Menos que isso, nem vale a pena falar, porque não justificaria tanto trabalho por uma correcção cambial insuficiente para equilibrar as contas externas.

 

Vamos ainda admitir que, devido ao peso do sector não transaccionável, esta depreciação provocava uma queda do PIB (medida em euros) de cerca de 10%.

 

Em números redondos, a nossa dívida pública no final de 2011 deve ser 100% do PIB e os depósitos de residentes deverão ser de cerca de 140% do PIB. Os créditos dos bancos aos portugueses têm que ser convertidos em cruzados, caso contrário teríamos falências generalizadas. Se os bancos fossem obrigados a garantir os depósitos em euros, eram os próprios bancos a ir à falência, o que os impediria de cumprir essa obrigação. Resta o Estado, cuja dívida pública já teria subido para 110% do PIB. Se o Estado assumisse esta perda com os depósitos, a dívida pública dispararia para 135% do PIB.

 

Para além deste grave problema poderia ocorrer outro ainda, que seria os depositantes não residentes (com um montante de cerca de 50% do PIB) exigirem um tratamento idêntico, agravando ainda mais a nossa dívida soberana.

 

Esta proposta tem também um grave problema de justiça. Enquanto milhões de portugueses iam ver os seus salários e pensões fortemente desvalorizados, o Estado iria aumentar enormemente o seu endividamento para os mais ricos depositantes não perderem nada. O objectivo até pode não ser esse, mas o resultado é.

 

Também vejo aqui uma grande desproporção entre o custo e o benefício desta proposta. Para evitarmos um problema temporário de fuga de capitais criaríamos um problema permanente de contas públicas.

 

A Grécia, que está na berlinda há dois anos, está a sofrer uma fuga de capitais que, por enquanto, ainda só envolveu 25% do total. Para além disso, o BCE criou em Dezembro novas linhas de financiamento aos bancos, a 3 anos, o que lhes permitiria lidar de forma muito mais fácil com uma eventual fuga de capitais.

 

A minha proposta seria uma negociação muito rápida. No caso de os países fracos decidirem negociar em bloco (ou individualmente) a saída do euro, teriam que iniciar as negociações com um acordo de princípio e concluir as mesmas num único fim-de-semana. Se por acaso fossem necessários mais uns dias, podia-se ainda decretar feriado bancário e limitar os levantamentos e transferências entre países. A partir do momento em que se iniciarem as negociações do fim do euro é impensável que estas se prolonguem por várias semanas. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:26 | comentar | ver comentários (8) | partilhar
Quarta-feira, 28.12.11

Cruzado

Parece que há razões políticas, económicas e logísticas para que o euro não acabe. Em termos políticos diz-se que os governos europeus tudo farão para garantir a sua sobrevivência. Infelizmente, o euro tem sido a maior fonte de conflitos dentro da Europa, pelo que é duvidoso que mereça ser salvo. Para além disso, tivemos a cimeira europeia neste mês que não só não resolveu a crise do euro, como criou uma nova crise, na UE, que pode bem ter iniciado o fim desta. Em particular, temos assistido a uma posição alemã que não é a defesa firme do euro, nem o fim negociado do euro, mas um meio-termo onde não há qualquer virtude. O pior é que este meio-termo acarreta um risco muito elevado de gerar o pior dos cenários: o fim caótico do euro.

 

Diz-se também que o euro terá gerado grandes benefícios económicos, que não podem ser colocados em causa. Que benefícios? Onde? Uma coisa é clara, quer Portugal quer a Itália passaram a crescer pouquíssimo desde o início do euro. Aliás, Itália é, neste momento, o elo mais fraco do euro, porque não é salvável. A saída – intempestiva – da Itália provocará um tsunami financeiro que destruirá qualquer objecção logística ao fim do euro e que deverá contagiar outras paragens, leia-se Portugal.

 

O nosso governo até pode dar o seu melhor, diminuir os défices público e externo, inclusive através de medidas estruturais, mas isso não impedir que Portugal seja atingido por uma catástrofe europeia, com origem num qualquer outro país (e, infelizmente, o que não faltam são pretextos).

 

Curiosamente, neste mês a probabilidade de fim do euro como moeda portuguesa aumentou, mas o custo de se falar abertamente em planos de contingência diminuiu. A cimeira europeia deste mês, que se esperava decisiva e que esteve muito longe de o ser, aumentou por isso a probabilidade de o euro acabar.

 

Em contrapartida, na sua reunião deste mês, o BCE tomou, entre outras, duas importantes medidas. Por um lado criou linhas generosas de financiamento para a banca, num prazo inédito de três anos. Por outro lado, alargou o âmbito dos activos que podem ser dados como garantia para obter financiamento junto do BCE. Estas duas medidas significam que se se registar algum tipo de desvio de depósitos de bancos portugueses para outros bancos, instalados em Portugal ou não, os bancos nacionais têm agora uma enorme facilidade em substituir os recursos que possam deixar de estar disponíveis. Um dos maiores riscos de se traçar cenários, ainda que hipotéticos, de fim do euro é a possibilidade de isso gerar algum tipo de fuga de depósitos. Com as novas medidas tomadas pelo BCE, este eventual desvio de depósitos tornou-se muito menos preocupante.

 

Mas neste momento, apenas peço ao governo e ao Banco de Portugal que assumam que a probabilidade do euro deixar de ser a moeda em Portugal é de uns meros 10%, uma probabilidade muito inferior à que considero plausível. Para fazer face a esta eventualidade, deveríamos ter notas e moedas numa outra moeda.

 

Proponho que a nova moeda portuguesa, se o euro acabar, se chame “cruzado”, quer para evitar uma expressão muito comprida como “novo escudo”, quer para evitar confusões com memórias passadas de preços. O cruzado foi cunhado em Portugal entre os séculos XV e XIX (com abundantes referências nas novelas do Camilo) e também já foi usado no Brasil, entre 1986 e 1989.

 

As notas de 50€ representarão cerca de 18% da circulação de notas e menos de 1% dos montantes levantados no Multibanco, sendo o peso das notas de denominação superior quase insignificante. Ou seja, é essencial a emissão de notas de 5, 10 e 20 cruzados, sendo útil a emissão da nota de 50 cruzados, até porque a saída do euro seria acompanhada de uma significativa subida de preços.

 

Em relação às moedas, pode-se dizer que se daqui a dez anos o euro se revelar de boa saúde, então as moedas de cruzado poderão sempre ser fundidas e o metal reaproveitado para outros fins. O custo deste seguro seria ainda mais pequeno.

 

Não criar condições mínimas de resistência a um cenário de naufrágio, poderá provocar imenso sofrimento inútil, como o que se abateu também este mês sobre seis pescadores das Caxinas, por não irem equipados com um simples GPS, cujo custo era ínfimo.

 

[Jornal de Negócios]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 12:47 | comentar | ver comentários (4) | partilhar
Quarta-feira, 14.12.11

Nem carne nem peixe

A Alemanha está com uma atitude que não é carne nem peixe que, a continuar, poderá produzir o pior dos resultados: o fim caótico do euro.

 

Como muito bem sintetizou Wolfgang Münchau no Financial Times, depois da cimeira europeia da semana passada, em vez de uma crise, temos duas: a do euro e a da UE. Mas centrê-mo-nos ainda na crise do euro.

 

A Alemanha poderia criar os mecanismos que permitissem a sobrevivência do euro, o que, no imediato, implicaria permitir ao BCE emprestar aos Estados, depois de estes se comprometerem a certas condições, para não beneficiar os infractores.

 

Não concordo com a ideia de o BCE comprar dívida soberana no mercado por duas razões. Em primeiro lugar, porque isso não ajuda directamente os Estados, porque quem recebe os fundos é quem já tinha comprado a dívida. Em segundo lugar, porque esta compra é um risco elevadíssimo para o balanço do BCE. É preciso recordar que o BCE só tem dez mil milhões de euros de capitais próprios e é altamente provável que já tenha perdido muito mais do que isso nas compras de dívida soberana que já realizou até agora. Por outras palavras, o BCE já deve estar falido e ficaria ainda em piores lençóis ao comprar mais dívida soberana.

 

Deve esclarecer-se que a falência de um banco central não deve ser lida da mesma forma que a falência de outro banco. Os accionistas do BCE são os bancos centrais nacionais, entre os quais está o Banco de Portugal, que não estão falidos e que podem fornecer capital adicional ao BCE. Se os bancos centrais nacionais falirem os Estados respectivos podem sempre emprestar mais capital a estes bancos, como já fizeram com bancos privados. Em última instância, o próprio BCE pode emitir moeda para ajudar os Estados a financiar estes sucessivos aumentos de capital, com a contrapartida, neste momento moderada, de uma aceleração da inflação, que é actualmente o menor dos problemas que a zona do euro enfrenta.

 

A intervenção do BCE que defendo é este emprestar directamente aos Estados em dificuldades, a taxas próximas da sua taxa de referência (actualmente em 1%), para realizar duas funções. Em primeiro lugar, para substituir todo o financiamento de curto prazo, que é actualmente realizado a taxas absurdamente elevadas, em torno dos 5%, contribuindo assim de forma imediata e significativa para reduzir a factura com juros, ajudando a reduzir o défice orçamental. Esta redução drástica dos juros traria uma ajuda preciosa à sustentabilidade das contas públicas, devendo reduzir também, por isso, as taxas de juro de longo prazo.

 

Em segundo lugar, o BCE deveria emprestar directamente aos Estados para estes comprarem a sua própria dívida pública, nos casos em que a sua taxa de juro de longo prazo atinja níveis perigosos, acima de, digamos, 7%. A diferença – radical – é que estas taxas de juro correspondem a preços da dívida pública que chegam a ser 50% inferiores ao seu valor nominal e que isso constitui uma poupança extraordinária para os Estados que o fizessem. No limite, se os Estados pudessem comprar toda a sua dívida pública a metade do seu valor, isso significaria ficar com metade da dívida pública original. A diferença – essencial – é que, para o BCE, comprar dívida pública que se pode desvalorizar é um risco brutal, enquanto os Estados comprarem a sua própria dívida a preços de saldo significa reduzir a sua dívida pública, o que é excelente em termos da sustentabilidade das contas públicas. Seja qual for o tipo de intervenção do BCE, esta é absolutamente imprescindível para evitar o colapso do euro no curto prazo.

 

Mas a Alemanha poderia também assumir que lhe é politicamente intolerável (pelo horror que alemães têm à inflação) criar mecanismos essenciais à sobrevivência do euro e decidir, em alternativa, negociar o fim organizado do euro. Poderia inclusive decidir sair (eventualmente acompanhada dos outros países fortes) do euro, o que seria o tipo de fim do euro que menos custos traria para os países mais fracos, como Portugal.

 

A actual posição alemã não é a defesa firme do euro, nem o fim negociado do euro, mas um meio-termo onde não há qualquer virtude. O pior é que este meio-termo acarreta um risco muito elevado de gerar o pior dos cenários: o fim caótico do euro.

 

[Jornal "i"]

publicado por Pedro Braz Teixeira às 10:08 | comentar | ver comentários (15) | partilhar
Quarta-feira, 19.10.11

Prémio para a saída ordeira do euro

Foi lançado hoje um prémio de 250 mil libras para responder ao desafio de gerir a saída de um ou mais membros do euro. Lord Wolson, que lançou o prémio, afirmou que os governos não podem discutir abertamente a questão porque isso poderia despoletar o colapso do euro.

 

Há um conjunto de questões específicas a que os concorrentes devem responder:

 

  • Whether and how to redenominate sovereign debt, private savings, and domestic mortgages in the departing nations.
  • Whether and how international contracts denominated in euros might be altered, if one party to the contract is based in a member state which leaves EMU.
  • The effects on the stability of the banking system.
  • The link between exit from EMU and sovereign debt restructuring.
  • How to manage the macroeconomic effects of exit, including devaluation, inflation, confidence, and effects on debts.
  • Different timetables and approaches to transition (e.g. “surprise” redenomination versus signalled transitions).
  • How best to manage the legal and institutional implications.
  • A consideration of evidence from relevant historical examples (e.g. the end of various currency pegs and previous monetary unions).

 

Esta proposta pode ser desvalorizada como uma mera provocação, tendo o seu organizador inclusive considerado a hipótese de não haver uma resposta, “o que seria muito revelador”.

 

Na verdade, acredito que este trabalho ainda vai ser muito útil a vários países. Já tinha abordado o assunto em termos muito menos detalhados, mas inclino-me para ideia que a forma mais ordeira de saída é a retirada dos fortes do euro e não dos fracos. 

publicado por Pedro Braz Teixeira às 08:06 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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