Se o ridículo matasse…

No dia em que ouvi dizer que sete raças de cães em Portugal não terão outra alternativa que não seja passarem à clandestinidade, vi e revi na SIC e na SIC-N vários "apontamentos" das reportagens sobre José Sócrates e Luís Filipe Menezes na “intimidade”. Apreciados os "apontamentos", dos quais a espontaneidade e a intimidade estão absolutamente ausentes, comecei por retirar duas conclusões. Ou a SIC quer gozar com Sócrates e Luís Filipe Menezes e subir umas décimas nas audiências, ou então parece estar a fazer um frete àquelas duas personagens com o intuito de adiar ou cancelar a abertura de um 5.º canal generalista de televisão (caso do primeiro-ministro) e agradecer a ideia peregrina, que também é promessa eleitoral, de se poder vir a retirar toda a publicidade comercial da RTP (caso do "líder" da oposição).
Mas para além disto, acabei depois por notar que o intuito das duas reportagens me recordava, em mau, um magnífico livro de propaganda pensado e encomendado por Salazar na década de 1950. Intitulado Férias com Salazar, foi escrito por uma sensual Christine Garnier (jornalista gaulesa muito bem vista em meios nacionalistas e de extrema direita francesa), embora toda a redacção e demais concepção tivessem sidos acompanhadas muito de perto, na forma e no conteúdo, pelo então presidente do Conselho e pelo seu embaixador em Paris, Marcello Mathias. Aliás, Rosa Casaco, agente a PIDE com uma paixão pela fotografia, acompanhou o casal Salazar e Garnier, fotografou-os em vários momentos de grande intimidade e fez publicar algumas dessas imagens na edição original do livro editado, salvo erro, pela Parceria António Maria Pereira.
Visto isto, pergunto-me se Raquel Alexandra, que em tempos era a jornalista de serviço da SIC para acompanhar Cunhal e, depois, Carvalhas sempre que estes falavam aos portugueses em estilo doméstico, tem consciência da figura que anda a fazer e que é o oposto do jornalismo. Como é lógico, também me interrogo se a SIC tem prazer em ser o Secretariado de Propaganda Nacional destes tempos pós-modernos e se sabe o que lhe pode custar em credibilidade (se é que a credibilidade alguma vez lhe interessou) este tipo de reportagens. Já agora, também gostaria de saber se o director de informação daquela estação de televisão, António José Teixeira, e embora com muito menos talento e inteligência, quer ser o António Ferro ou o César Moreira Baptista do regime.
Nota final: Como se sabe os políticos – embora ainda não todos – não só não têm a noção do ridículo como gostam de se expor ao dito. Os apontamentos de reportagem estão, apesar de exaustivamente preparados e negociados, repletos de momentos confrangedores para os seus principais intérpretes. Que dizer de Luís Filipe Meneses a deixar-se filmar enquanto lhe cortam o pouco cabelo que lhes resta e lhe engraxam os sapatos, ou a fazer uso dos seus dois filhos varões com claros fins políticos? Ou então, que dizer do "espanhol" patético de Sócrates quando, ao que tudo indica, felicitava mesmo "su compañero Zapatero" pela vitória nas eleições do passado Domingo; ou ainda, quando com um ar de farsante, e evocando a objectividade da mamã, confessava ser a "generosidade" (salvo erro) a sua grande qualidade?
publicado por Fernando Martins às 22:48 | comentar | ver comentários (6) | partilhar