3 segundos de Cinema

Da primeira vez que vi O Caçador, de Michael Cimino, era novo demais, e a principal impressão foi… este filme tem três horas. Ah, e tem umas cenas brutais de roleta russa.
Agora acho que o filme tem três segundos, talvez os três melhores segundos de Cinema, com maiúscula, que consigo isolar. Estão para o cinema como está, para a pintura, aquele ponto entre o dedo de Deus e o de Adão, na criação do homem de Michelangelo, no tecto da Capela Sistina. Esse ponto é o fulcro da imagem, está lá tudo, e no entanto não tem nada lá pintado, é um vazio... é como estes segundos ali ao minuto 1:13 deste trecho:

 

 

Não parece muito. Mas se tínhamos aturado aquele início interminável antes de chegar à guerra, se tínhamos estado com os presos naquela água podre com ratos e sanguessugas, e sofrido o terror de uma fuga que envolvia acrescentar balas na pistola que se vai disparar contra a cabeça, era para chegar aqui.
Neste filme de guerra as personagens têm 1h para se desenvolver, em casa, antes da guerra. Nick (Christopher Walken) tinha pedido a Mike (Robert de Niro) para prometer: "don't leave me over there".
Quando chegamos ao helicóptero já percebemos o peso todo da esperança que há naquele "me", porque conhecemos a sua vida em casa; e do desespero que há naquele "over there", porque aquela prisão metia mesmo impressão.
Nesta cena, Nick já está a salvo, mas Steven (John Savage) está completamente quebrado (física e psicologicamente) e não consegue acabar de se içar para o helicóptero. Mike solta as pernas do trem de aterragem para tentar segurar Steven, tenta tudo, mas este cai ao rio. Segundos depois, vemos Mike a cair também.
É uma imagem inusitadamente singela de uma amizade que aceita voltar a descer da salvação ao inferno para recuperar, improvavelmente, o caco que resta de um amigo…
E o que nos dá o realizador? Vazio cinematográfico. O ruído do helicóptero que nos aturde, e a frieza do plano distante. Não há música a puxar sentimento, close-ups à expressão de angústia, câmaras lentas para o momento de hesitação. Tudo é contenção e subtileza para nos trazer este heroísmo discreto e desinteressado. Mike nunca chamará a atenção para o seu gesto, e o realizador Michael Cimino sabe que só o retratará cabalmente deste modo. Arrisca que nem reparemos, dispõe-se a perder o espectador…
Cimino sabe que os grandes caçadores reservam, para as presas nobres, balas singulares. One shot.

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publicado por Pedro Gonçalves Rodrigues às 21:41 | comentar | ver comentários (1) | partilhar