Não Há Como Escondê-lo.

Imagem: Liceu Salazar em Lourenço Marques, Moçambique.

Passou ontem na RTP1 o 5.º episódio da série documental A Guerra. Mais uma vez ficou provada a sua qualidade. No entanto, queria deixar uma nota. Parece óbvio aos nossos olhos de hoje, como aos de muita gente nas décadas de 1950 e 1960, que o colonialismo português foi extremamente violento [porque usava e abusava da violência física e psicológica e porque era racista (em si mesmo uma violência atroz)]). Mas sendo verdadeira e indiscutível esta avaliação, não deixei de pensar enquanto via o documentário, como, comparativamente, e como reconheceu ao menos um entrevistado angolano negro, o colonialismo português foi, afinal, pouco violento e pouco racista.
Se analisarmos a experiência do colonialismo português em Moçambique e em Angola no pós-Segunda Guerra Mundial e o compararmos com colonialismos de feição e natureza idêntica como foi o da França na Argélia, o da Bélgica no Congo, o do Reino Unido no Quénia ou nas duas Rodésias (actuais Zâmbia e Zimbabwe) ou o da África do Sul na própria África do Sul ou na Namíbia, é indiscutível que a experiência colonial portuguesa foi uma brincadeira de crianças. Isto será ainda mais evidente se em algum episódio da série se analisar a partir de factos a obra colonizadora portuguesa produzida naqueles dois territórios a partir da década de 1950. Não me refiro apenas às obras públicas, à industrialização, aos índices do comércio externo, à modernização dos sectores agrícolas e pecuário ou às elevadas taxas de crescimento económico. Refiro-me, por exemplo, à riqueza da vida cultural, à dinâmica e à mobilidade social ou à qualidade dos cuidados de saúde prestados. Como se não bastasse, em tudo isto e muito mais, Angola e Moçambique dos dias de hoje estão a anos luz da realidade que os portugueses de lá e de cá deixaram para trás em 1974 e 1975. Quanto ao racismo e à violência, já para não falar na miséria material e moral dos povos angolano e moçambicano, é óbvio que qualquer um destes fenómenos é hoje muito grave e dramático do que aquilo que era há 40 ou 50 anos. A história faz com que andemos. Muitas vezes porém, faz com que andemos para trás. Foi isso que aconteceu e ainda está a acontecer em Angola e em Moçambique nos dias de hoje. E não há como escondê-lo!
publicado por Fernando Martins às 22:43 | comentar | ver comentários (19) | partilhar