Espanha: as eleições de 9 de Março de 2008.

O PSOE e Zapatero ganharam ontem as eleições espanholas. No entanto, e apesar do triunfo, os vencedores não tiveram a maioria absoluta que chegaram a pedir e viram os seus amigos nacionalistas de esquerda e de centro-direita descerem em número de votos e de deputados (excepto a CiU). Os comunistas, da Esquerda Unida, também desceram muito significativamente pagando a sua ingenuidade e estupidez política. Ou seja, identificaram-se tanto com muitas políticas do PSOE e apoiaram-no tanto em situações em que podiam perfeitamente ter ficado calados ou falado muito menos – nomeadamente na questão do diálogo com a ETA e nos ataques ao PP por causa do terrorismo – que grande parte do seu eleitorado não teve quaisquer problemas em emigrar para os socialistas.
Resumindo, o PSOE subiu crescendo sobretudo à esquerda e reforçando a sua posição junto de eleitorado que normalmente vota… PSOE. Viu ainda aumentar o número de votos por causa de algumas políticas sociais que os comunistas poderiam ter feito. Também subiu a sua votação por que muito eleitorado menos fiel aos nacionalistas do País Basco, da Galiza e da Catalunha (refiro-me à ERC) vê agora em Zapatero e no PSOE os intérpretes e os executantes de boa parte dos programas e das agendas daquelas formações políticas. Ganharam-se votos que facilmente seriam conquistados e se perderão à menor tergiversação.
Isto quer dizer que foi uma parcela do centro do eleitorado que acabou por alimentar o crescimento do PP, o que significa que é aí que, no futuro, a direita espanhola deverá crescer para poder voltar ao Governo em Madrid e para reconquistar posições perdidas em governos autónomos como o galego. Por outro lado, ficou bem patente que o seu discurso “crispado” tem uma importante base de apoio social e cultural No entanto, e como é bom de ver, o PP perdeu. Mas perdeu honrosamente porque subiu e, portanto, não se deixou encurralar, ou melhor, muitos eleitores não permitiram que fosse encurralado à direita como formação política e ideologicamente sectária. O seu discurso, a sua prática política, a sua ideologia e a sua liderança recolhem grandes apoios, e colherá ainda mais quando se perceberem no segundo mandato de Zapatero as intenções deste no domínio da política autonómica, a sua incapacidade para projectar uma forte política externa espanhola ou, e sobretudo, a sua impotência para enfrentar com êxito os problemas económicos que já chegaram e as questões sociais graves que daqueles decorrerão como, e sobretudo, o desemprego. Convém aliás não esquecer que Zapatero prometeu criar 2 milhões de postos de trabalho em quatro anos.
De qualquer modo, a estratégia de guetização do PP que o PSOE tem levado a cabo desde que regressou ao poder não apenas fracassou como acentuou uma bipolarização que a prazo favorecerá mais o PP do que os socialistas. Isto porque o PSOE facilmente perderá votos à sua esquerda, caso as coisas corram mal – ou menos mal –, do que o PP ao centro.
Não sabemos o que irá acontecer nos próximos anos no que respeita às questões nacionais, ao terrorismo e, sobretudo, à economia. Porém, em 2012, e caso Zapatero e PSOE se aguentem no poder até lá, o PP tem francas possibilidades de chegar ao Governo. Resta saber que Espanha haverá em 2012.
P.S.: Diz-se que a Igreja Católica espanhola também saiu derrotada nestas eleições. É capaz de ser verdade, mas também não me parece que os bispos estejam muito preocupados com esse facto. Convém recordar que a Igreja Católica tem quase dois mil anos. Além disso, quantos processos de laicização radical das sociedades foram invertidos e subvertidos desde 1789?
publicado por Fernando Martins às 18:15 | comentar | ver comentários (4) | partilhar