Prémio Pessoa 2007

Conheço muito razoavelmente o trabalho de Irene Pimentel e a dedicação, a seriedade e a competência que coloca em tudo aquilo que faz. No entanto, devo confessar que fiquei surpreendido com o facto de ter sido "agraciada" com o prémio Pessoa. Apesar de ter publicado vários livros sobre a história do século XX português, nunca a vi como uma historiadora com uma visão particularmente original da nossa história naquele século ou de “fatias” ou “temáticas” desse mesmo século. Aliás, duvido que alguém, incluindo a própria, nos possa dizer qual é a sua leitura, a sua interpretação genérica, a sua visão sobre o século XX português ou até, mais prosaicamente, sobre a história do Estado Novo ou do Salazarismo. Por isso, e embora a felicite sinceramente pelo prémio conquistado e pelo reconhecimento do seu trabalho que este acarreta, devo dizer que me lembrei imediatamente do nome de, pelo menos, uns dez historiadores portugueses que mereceriam bem mais ter recebido o prémio Pessoa pela singela razão de terem aquilo que penso faltar, ainda, ao trabalho e à obra de Irene Pimentel. E isto, por mais irrelevante e pouco convencional que seja no nosso pequeno meio, penso que deve ser dito. Descontando os nomes de historiadores mais mediáticos, que não vou sequer nomear, seguem os de alguns outros menos conhecidos, ou totalmente desconhecidos do grande público, mas cuja obra, mesmo que menos prolixa, é marcante e “incontornável” na historiografia recente sobre os séculos XIX e XX cá do burgo. São eles: Valentim Alexandre (ICS), Fernando Catroga (Universidade de Coimbra), Maria de Fátima Bonifácio (ICS), António Telo (Academia Militar), Nuno Valério (ISEG-UTL), Fátima Patriarca (ICS), José Augusto França (FCSH-UNL) e Jaime Reis (ICS).
Daí que, e devo confessá-lo, fico sem perceber muito bem quais terão sido os critérios da escolha. É que a Irene Pimentel não é (ainda?) o Manuel Damásio ou o José Mattoso da historiografia do século XX português. Mesmo que não tenha de sê-lo ou que não queira vir a sê-lo.
publicado por Fernando Martins às 04:09 | comentar | ver comentários (5) | partilhar