Terça-feira, 01.09.09

Há setenta anos IV


"As pessoas andavam a passear ao sol, como se a vida fosse serena como o sol a fazia parecer. Comecei a brincar com os miúdos locais. Em poucos minutos, tinha novos amigos. Um lindo, lindo dia - até que o sol se começou a pôr e ouvimos o som de aviões por cima de nós. Picaram e começaram a largar bombas incendiárias. Segundos depois, esta bela aldeia era um mar de chamas. Com dez anos, nunca tinha visto nada assim. (...)
Ninguém sabia para onde fugir, todos corriam em direcções diferentes, alguns com as roupas a arder. Correndo cegos. Gatos, cães, cavalos, vacas, todos em chamas, também, todos correndo. Enlouquecidos, inutilmente, atrozmente. Num instante, famílias inteiras foram consumidas pelas chamas. Que tivéssemos conseguido escapar ilesos, foi um autêntico milagre. Quando corriamos para as árvores ali próximas, pudemos ver pessoas caindo à nossa volta - abatidas pelo metralhar dos aviões sobre nós. O som terrível de gritos. Por vezes, gritos apenas. Por vezes, nomes - 'Moishe!' 'Gittel!' Nomes que talvez nunca mais fossem ouvidos, mas que, naquele momento, eram chamados noutras cidades e aldeias por toda a Polónia.
Depois, havia os que procuravam pelos seus filhos, pelos seus pais, por avós, por irmãos, por irmãs. Por volta de três mil pessoas foram queimadas e mortas num muito curto espaço de tempo, famílias inteiras apagadas e muitas dizimadas. Por milagre, a nossa família de cinco estava salva. O nosso cavalo tinha sido morto, a nossa carroça destruída. Então, o meu Pai levou-nos a pé da aldeia."


BEN HELFGOTT, cit. in Martin Gilbert, Descent into Barbarism 1933-1951, London, 1998, p. 266.
publicado por Carlos Botelho às 21:38 | comentar | partilhar

Há setenta anos II

"Um de Setembro de 1939! 1h00. Há uma hora que as tropas rolam em direcção à fronteira. Finalmente, também nós deixamos a nossa posição de prevenção. A noite está enevoada, a lua mal brilha. Avançamos numa lentidão insuportável – as estradas estão obstruídas. Tudo tem um ar fantasmagórico neste luar embaciado.
Desviamo-nos da estrada e percorremos caminhos infindáveis de areia numa floresta. Fazemos alto diante de uma grande clareira, o batalhão dispersa-se. Temos de aguardar, são talvez 2h00. Sabe-se agora que a guerra começou, se bem que não reconhecida oficialmente. Está bastante mais fresco agora e nota-se uma certa tensão. Corre um rumor: às 4h30 pômo-nos em marcha. A floresta abre-se diante de nós e temos uma boa vista da região. Além já deve ser território polaco. Temos o relógio na mão. 4h25! Que irá suceder? 4h30! De súbito, tudo ganha vida. Aqui mesmo à nossa frente, ribombam os disparos de uma bateria de obus. Em redor, respondem outras posições. Conseguimos vê-las parcialmente. O fragor dilui-se num estrondo contínuo. Só por vezes há pausas de um silêncio inquietante.


Meia hora depois, arrancamos. A corta-mato por prados e veredas, com os nossos pesados carros de lagartas e camiões, vamos numa corrida desenfreada em direcção à fronteira. Mas tudo se enterra na areia. Temos de descer dos carros, a coluna prossegue sem nós e marchamos. Num posto alfandegário crivado de feixes de MG, atravessamos a fronteira. Logo topamos com os nossos veículos e, enquanto os primeiros prisioneiros desfilam por nós, tomamos um duche.
Uma linha de fortificações ligeiras parece ser um obstáculo intransponível. Dizem que não foram vistas pelas vagas dos nossos pilotos. Os carros blindados avançam. Seguimos tensos atrás do ataque faseado. Mas o terreno atoladiço é como que uma barreira natural. Os carros estacam um após outro. Recebemos agora a nossa primeira tarefa, o nosso primeiro fogo, as nossas primeiras perdas. Com paus e com os nossos lagartas procuramos libertar os carros blindados. A confusão é grande.
Aqui, só os tanques serviam de alguma coisa. Assim, o ataque fica imobilizado. A cavalaria motorizada ataca as fortificações com grandes perdas. Mas os Polacos não se aguentam. Acometidas por lança-chamas, as fortificações rendem-se umas a seguir às outras.
E tudo está terminado. Subimos para os veículos, os motores arrancam - quase como se nada tivesse acontecido. Só então, de repente, se nota que o lugar ao nosso lado está vazio.
(...)
Estou diante da casa destruída de um médico judeu, como indicava uma placa. De pensamento ausente, remexo nos escombros. E dou com um volume de Goethe na minha mão. Poesia e Verdade [Dichtung und Wahrheit] em Alemão!"


MEINHART FREIHERR VON GUTTENBERG, in Walter Bähr e Hans W. Bähr, Kriegsbriefe Gefallener Studenten 1939-1945, Tübingen, 1952, pp. 9-12.
publicado por Carlos Botelho às 04:30 | comentar | ver comentários (2) | partilhar
Domingo, 23.08.09

Há setenta anos I

Da esquerda para a direita, atrás: Schulze (ajudante de Ribbentrop), Schaposchnikow (Chefe do Estado-Maior General do Exército Vermelho), Ribbentrop, Stalin e Pavlov (tradutor soviético); à frente: Hilger (tradutor alemão) e Molotov.


O anexo secreto do Pacto de Não-Agressão (texto completo e reprodução), que expunha a "delimitação das esferas de interesse na Europa de Leste" do Reich e da URSS: "no caso de uma reorganização político-territorial" dos quatro estados bálticos, a fronteira norte da Lituânia "constituirá simultaneamente a fronteira dos interesses" das duas potências signatárias; "no caso de uma reorganização político-territorial dos territórios pertencentes ao estado polaco", as "esferas de interesse da Alemanha e da URSS são delimitadas pela linha dos rios Pisa, Narew, Vístula e San"; a "questão" de ser "desejável para os respectivos interesses a conservação de um estado polaco independente" só será esclarecida "no decurso de ulterior evolução política"; e acrescenta: "em todo o caso, ambos os governos resolverão esta questão no decurso de um entendimento amigável"; relativamente à Europa de Sudeste, fica reconhecido pelo Reich "o interesse do lado soviético" pela região da Bessarábia, pertencente à Roménia.
Seguir-se-ão seis anos de "reorganizações político-territoriais".
publicado por Carlos Botelho às 07:00 | comentar | ver comentários (2) | partilhar

Cachimbos

O Cachimbo de Magritte é um blogue de comentário político. Ocasionalmente, trata também de coisas sérias. Sabe que a realidade nem sempre é o que parece. Não tem uma ideologia e desconfia de ideologias. Prefere Burke à burqa e Aron aos arianos. Acredita que Portugal é uma teimosia viável e o 11 de Setembro uma vasta conspiração para Mário Soares aparecer na RTP. Não quer o poder, mas já está por tudo. Fuma-se devagar e, ao contrário do que diz o Estado, não provoca impotência.

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